PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Segunda-feira, Maio 31, 2004





"A CANÇÃO DO LEVIATÃ"
(Paulo Queiroz)

É esse gênero do amor do qual tanto te falo:
Que é arrebatador... Que faz sofrer...
Tão possuidor... E não é brinquedo.
E que jamais se rende...
Esse gênero do amor que às vezes mata...
Às vezes monstro.

É esse o sentimento do qual tanto te falo:
Aquele que sempre dói... Que corrói...
Que atrai... Que trai... Tanto...
Mas é e sempre será, o louco amor...
E que às vezes mata...
Às vezes monstro...

Amor de gozo inexplicável...
De suores escorridos...
Que traz lágrimas copiosas...
E será sempre o amor...
Que nem sempre é brinquedo...
Que às vezes monstro...
E que às vezes mata...

Previna-se a respeito dele...
Desse gênero mostruoso do amor.




Domingo, Maio 30, 2004





"MINHA PEQUENA, DE FLORAÇÃO"
(Fragmentos do romance amazônico "Águas Viajantes"
(em composição) - © Paulo Queiroz).


Ele a percebeu com os olhos pregados no céu (...). A face delicada estava nitidamente orvalhada pelas lágrimas que desciam em gotas de saudade antecipada... Parecia ela saber que aqueles eram momentos não mais renováveis. Sentia prazer por estar ao lado de seu caboclo amado, mas sofria pelo correr do tempo que urgia de conspiração contra eles dois.
- Por que tamanho assombramento, minha pequena? Perguntou ele.
- Hã? O que você disse, amor? Falou ela, distraída.
- Eu perguntei por que você está tão espaventada assim, olhando pro céu! O que você está vendo nele que te prende tanto assim?
- Ah! Claro! Como poderia não se ficar tão admirada com tamanha lindeza? O céu daqui é completamente diferente de outros lugares! É incrível! Tudo muito diferente das brenhas onde eu vivo! Justificava-se ela sem desgrudar-se da luminosidade celeste.
- Como assim, diferente? É tão azul e espelhante quanto os demais, meu amor! Retrucou ele.
- Não, meu amado! Não é, não! Bom, se eu fosse mesmo explicar como deveria, eu teria que fazer uma infinidade anotações aqui, mas penso que há uma sensação mágica de que as nuvens estão prenhes em todas as suas formas. Até parecem ninfas pejadas de liquido fértil... De amor... Disse ela, chorosa e cheia de ternura, como quem quisesse ficar pro resto de seus dias aqui com ele.
- Puxa! Sendo eu um caboclo, é bem difícil não se orgulhar com a sua apaixonante descrição do meu lugar. Retribui ele.
- Orgulhe-se, meu amor! Tudo aqui é muito lindo... Tudo aqui inspira eternidade, longevidade, prazer... Tudo aqui é muito parecido com você. Finalizou ela, apaixonada.
Dessa forma narrava aquela mulher ao seu namorado caboclo. Ela que veio do frio, donde o carenciamento de agasalho é indispensável para a vida, como um feixe de varas secas para alimentar o fogo que assa o jaraqui... Sentia que tudo nessa terra de fogo incessante era diferente das paragens donde ela vivia. A menina encantadora e alva como a açucena espiã, fez-se sonhar futuros mais elevados naqueles momentos... Amigara-se com a selva de corpo e alma, fazendo daquele selvagem a razão de ser de sua vida. Foi tão profundamente apaixonante aquele apego do caboclo pardo e da alva menina, que o olhar capiongo da moça sorvia os acordes do vento desse Norte aprazível. Eram assobios zéfiros ao pé-do-ouvido, daqueles ventos que engoliam o resto da tarde que envolvia os dois, ao Deus-dará do amor (...). Os piscares de olhos pidões, e os suspiros interrogativos que os instigavam ao gozo punham-nos, de repente, numa relva convidativa para o reclinamento e para o pleno amor. Ele, então, carinhosamente começou a alisar a pele delgada daquele rosto lindo de alteza, depois deitou-se sobre seu corpo macio e entorpecente, molhado de prazer e que era projetado por uma forma lavrada de corpo ainda em floração... Mas ali aquele corpo fascinante era despetalado em seu desabrochar pelas mãos inábeis de amor daquele matreiro apaixonado. Beijou-a profundamente, o caboclo, como se agradecesse a Deus por ter encontrado a fortuna (...). E do ventre satisfazente daquela mulher, em pleno apogeu da paixão, fluía a fragrância do amor puro, como o que se desprendia das árvores observadoras dali de perto... Era o Silêncio da boca da noite, nessa terra de lonjura (...). Terra e mato, homem e mulher, testemunhavam o envolvimento do índio com aquele tesouro adormecido há muito, sua amada... Era um novo começo de mundo (...). Às vezes, pelo faro aloprado do índio, assim como o das feras, sentia-se esturro de onça, gemido de bicho faminto, e outros barulhos de selva por perto, mas caboclo que é caboclo sempre anda preparado, além de que a própria terra-mãe protege muito bem os amantes que se valem do seu manto para amar... Até as cobrinhas peçonhentas com seu "arreto" infernal, e que o caboclo sempre varreu no terçado e no cacete, não se abestalharam à intromissão naquela oferenda de orgia sagrada amazônica... Eram somente o caboclo e sua sertaneja amada (...). E quando ela se foi, aquele caboclo sabia que seria para sempre... Apenas uma única estrela, solitária como ele, velava a imensa tristeza do índio; e no infinito brilhava apenas a paz da natureza, mas a própria paz daquele homem não mais havia. Seu amor partira para nunca mais voltar. Restara tão-somente um pôr-do-sol diferente... Queixoso... Um tempo mesclado ao arco-íris descolorado que prenunciava trovoadas, como o que fantasiava, naquele momento, o emurchecer agônico daquela tarde de despedida. E para incrementar ainda mais a sua dor de amor, houve a perturbação do seu silêncio (...). Era o cântico estridente da acauã agourenta que golpeava-lhe o íntimo com a marca do desespero e da solidão (...). A saudade poluía o seu interior, mas nem firmava um pouco de esperança de um dia ele rever a sua amada. Ficou, o caboclo, pelo assobio da despedida, no insulamento da selva escura da saudade que engolia seus pensamentos felizes de horas anteriores (...). Nunca mais ele reviu o seu amor, porém, entrega, todos os dias, sem restrições, seus pensamentos às lembranças dela... Todos os dias de sua vida.




Sábado, Maio 29, 2004





"CLEPTOMANÍACOS DO NOSSO TEMPO"
(Paulo Queiroz)

Num repente daqueles que pega o sujeito no contra-pé, os funcionários de uma rede varejista de lojas foram convocados para uma palestra chata denominada (saquem só!): Seminário de Desenvolvimento Técnico-Profissional de Habilidades Prático-Teóricas em Amplitude de Conhecimento no Atendimento a Clientes (toma-lhe!!!), o que eles simplesmente detestavam, e, nesse caso, com razão, o conteúdo da palestra era daqueles de dar repugnância! Coisas de gênero ruim, quais sejam: "Você é poderoso!!!", "Você vale ouro!!!", etc... Mas de acordo com as regras contemporâneas de Marketing Pessoal, todos têm que estar cada vez mais "preparados" para a aplicabilidade da primazia do atendimento junto aos clientes da atualidade; até aí "tudo nos conformes", visto que nós, na condição de clientes adoramos o bom atendimento. O fato é que os funcionários daquela conceituada companhia varejista, uma das maiores do Amazonas, já estavam de saco cheio desses palestrantes que comparam pessoas a águias, tigres e leões; estes que dizem que devemos ter olhos de lince, e que devemos sobrevoar o mundo como um gavião-real... Tudo balela!!! Bravata!!! Analogias infundadas que roubam o tempo da gente sem necessidade.
Enquanto tinham que estar obrigatoriamente presentes no evento no qual foram inscritos, os vendedores daquela cadeia de lojas preocupavam-se com o fluxo de clientes que poderia estar se desenvolvendo no interior da loja naquelas preciosas horas perdidas, e com as vendas que poderiam estar perdendo. Quando ouviam o palestrante dizer frases patéticas do tipo: "pense grande!", "seja otimista e vença na vida!", "não deixe que o tempo acabe com suas esperanças!", "seja um vencedor nato!" (pode?), "não se entregue ao fracasso!", "faça como Ayrton Senna, que está lá céu olhando pra nós agora... Seja um vencedor!!" (putz)... "Faça do cliente a sua própria vida!", "trate-o como se fosse seu pai!", "ele é o seu patrão!", "beije os pés dele, se preciso for!" (arghhhh!!!)... E tome baboseira...
Naquela empresa de grande porte, bem estruturada, onde se pagavam os melhores salários da região, ninguém, absolutamente ninguém, gostava de ir a estes encontros desnecessários. Consideravam que aqueles palestrantes chatos, não passavam de cleptomaníacos de seu precioso e escasso tempo... Sentiam-se furtados de seu tempo pelos "mestres" do Marketing Aplicado. Todos sabiam que aquelas fanfarronices jamais se aplicariam à realidade comercial de hoje; todas as práticas seriam debalde. Não há nada melhor do que o dia-a-dia; do que o contato natural e o desenvolvimento das parcerias diárias com os clientes; a sinceridade... Sabiam que o suficiente mesmo para o sucesso de suas funções não era somente vender, mas, vender bem e adequadamente, estabelecendo afinidades naturais e espontâneas com os clientes, firmando a fidelização nas relações. Esse papo furado de vôo de águia, de rugido de leão, de olhos de lince, e de que Ayrton Senna está olhando e assistindo àquela palestra ridícula lá do céu, não passava de conversa fiada. Era apenas um expediente para encher o saco dos outros e os bolsos dos palestrantes que vinham lá da casa do cacete pra "se fazer" (e o pior é que lota!) entre os grandes vendedores, que não tinham tempo a perder. Portanto, companheiros, eis um exemplo de cleptomaníaco do nosso tempo, mas não é o único! Há muitos mais!
Durante os ciclos eletivos em todo o Brasil, por exemplo, somos obrigados a sorver, na marra, aquele monte de indecências que os postulantes ao poder proferem no horário político gratuito. Há políticos doentios e políticos doentes; desses que se esquecem todos os dias de morrer na hora certa. Outro dia um determinado candidato, sem um pingo de juízo, veio à televisão gritando: "eleitor, deixa de ser leso! Larga a mão de ser besta! O teu voto é uma bomba! Pára de eleger gente safada pra governar a tua vida!!!" (pelamor!)... Observem com o quê perdemos nosso tempo. Com gente desse tipo aí. O povo, só por saber que é besta já lhe é torturante, quanto mais com um louco desses lembrando disso, e ainda de forma tão "sutil". Imaginem se ele será eleito assim, roubando o nosso tempo sem necessidade.
Você, andando pelas ruas, já teve o desprazer de dar de cara com um protestante? Desses alienados e totalmente doidos? Se não teve, sorte sua. Pois eu já! Um dia, um desses doidivanas de uma determinada igreja, me abordou perguntando logo de cara se eu tinha um "minutinho" pra ele, eu, lógico, disse que não. Quem disse que adiantou? O cara, no auge da impertinência, ficou me amolando com perguntas imbecis, do tipo: "Irmão", você tem idéia de como seja o inferno?" Eu, em cima da bucha, respondi: Claro que não, pô! Aliás, eu achava que o inferno fosse aqui, "irmão!". Ele, todo boca, disse: Vixe, "irmão", quem dera que o inferno fosse isso aqui! Isso aqui é o paraíso, comparado à agonia do inferno! Eu, assustado, falei: E é??!! Porra, então eu nem preciso mais de sua pregação, né, "irmão"? Ora, sua missão não é me converter? Então, se já estou no paraíso, "irmão", não pretendo ir para um outro, não! Vá se catar, vá!!! Eu disse ainda: Se você quiser, eu posso dissuadi-lo a não deixar esse paraíso aqui, se é o que você tá querendo fazer, "irmão"... O crente, então, muito puto da vida, disse, com ares de frustração: "pôxa, "irmão", você não entendeu nada da mensagem de Deus mesmo", e foi embora... Esse, apesar de ter sido detonado rapidinho, ainda conseguiu me roubar um tempinho, e sem necessidade.
Como se não bastasse, na mesma semana, também na rua, outro mala veio me parar pra perturbar. Agora, um desses carecas vagamundos que enchem os colhões da gente, os tais "laranjinhas" harecrishnas... E eu com uma pressa filha da mãe, ouvi: "Amigo! Amigo! Só um "minutinho" da sua atenção!", disse ele... Caramba! Eu fiquei logo invocado. Primeiro que não seria apenas um minutinho porcaria nenhuma! Mentira do safado! Segundo que aquelas "varetinhas" de pôr fogo (incensos) que eles vendem, fedem mais do que despachos de macumba... E terceiro, aquelas "literaturas" vagabundas que falam daqueles zé manés com nomes escrotos lá da Índia, tipo: Brakhtvedantha Branhmazambrarum sei lá do quê, são a maior merda!!! Não ensinam patavina! Vá roubar o tempo de outro, mano!
No oficio de professor, ou melhor, de "sofressor", já há alguns anos, deparo-me com acentuada freqüência, com alguns alunos malas (ética minha que é bom, passou longe) - outros cleptomaníacos do nosso tempo-, estes, do tipo "turistas de sala de aula", que vivem enchendo o saco perguntando coisas que já foram ditas milhões de vezes... Até de uma simples formatação de determinado trabalho é pedida re-explicação inúmeras vezes. A impressão que fica é a de que o aluno tá mesmo é a fim de amolar a consciência da gente. Perguntar não ofende, mas perguntar muitas vezes uma única coisa, enche o saco! Não entender é natural, mas não entender o que é um círculo é burrice demais! Meu tempo não, por favor!
Há vários estereótipos de chatos e cleptomaníacos que roubam o nosso tempo sem necessidade. Mencionei aqui apenas alguns dos quais me lembrei.