"O DIAPASÃO QUE AFINA A VIDA"
Crônica de Paulo Queiroz
Tocar um instrumento musical qualquer é uma faculdade extraordinária que requesta do artista um devotamento extremo, embora em muitos casos essa atividade dispense o estudo regular da arte musical e a aplicação de métodos inteligíveis ou de processos de intelectualismo artístico. Conheço exemplos fulgentes de conceituados cancioneiros e mestres da musicalidade amazônica que nasceram com o pendor melodioso da construção da canção, e que jamais tomaram assento numa escola ou numa universidade para a apreensão das "ciências" da música aplicada. Entre os inúmeros, que inclusive foram vencedores de grandes festivais da canção, e sem contar com outros montes debandados pelo Brasil afora, ressalto nomes como de: Antonio Pereira, um dos maiores expoentes da cantoria amazonense, autor de obras memoráveis da nossa música ("Canto Geral", "Horas Marianas", "O lago das 7 Ilhas", "Pássaro, Canto e Cativeiro", etc...); Rosivaldo Cordeiro, um dos grandes violonistas amazonenses, senão o de maior prestígio na atualidade do cenário musical local, criador de referências musicais valiosas, entre as quais a mais importante de todas: "Canto de Guerra", e Walflan Ribeiro, um grande nome dos ponteios e elaborações de músicas que eclodem no romantismo absoluto, onde cabe aqui citar a obra musical "Sem Juízo", belamente interpretada por Carlos Batata, um paulistano prosélito do "caboclismo".
Neste texto vislumbra-se, ainda que à tênue luz, uma oposição ao método cego: matéria de qualquer procedimento que implique penhor, sobretudo no logro científico do "circunspeto" mundo contemporâneo. O professor Rubem Alves, um dos maiores catedráticos das ciências sociais e da filosofia, exorta em seu livro "Conversas Com Quem Gosta de Estudar", que embora se deva aplicar mérito à metodologia, não se deve em tempo algum se sujeitar o indivíduo tão-só aos preceitos metodológicos, infligindo-o ao medo e à hesitação em suas aventuras pela aquisição do conhecimento, em qualquer área que seja, outrossim, na música e nas artes.
Nas incumbências que cabem ao educador tenho sempre pregado a meu alunado a liberdade na obtenção do conhecimento e no aprendizado, sempre respeitando algumas características do método que certamente podem ser úteis, como o ordenamento construtivo, por exemplo. A despeito dos ensinamentos desde a nossa educação básica até os âmbitos da Universidade, serem forjados dentro do que nos impõem os imos da metodologia, eu particularmente, tanto na educação quanto na minha vida artística, proclamo abertamente a preconização dos estudos autônomos e do autodidatismo no desenvolvimento do aprendizado. E embora eu priorize (por assim dizer) minhas tarefas educativas quotidianamente, jamais deixo de exercer o oficio que promove a harmonia e o prazer na minha vida: a arte. E neste, como nos demais, despojo-me da aplicação cega da metodologia; daquela que prima pela obediência irrestrita ao método, e pela obnubilação do conhecimento.
Quando componho canções, quando construo despretensiosamente minhas poesias, arvoro-me primordialmente nos anseios que afluem do meu espírito, quase sempre subvertendo normas e preceitos técnicos que "moldam" o universo da poesia. Na maioria absoluta das oportunidades em que produzo poesias e músicas, desvio-me dos determinismos, das formas impostas: rimas, métricas, estilos... Mesmo sendo assim, petulantemente subversivo e transgressor, atribuo o germe dos meus anelos literários a grandes mestres da literatura brasileira e portuguesa que pautaram grande parte de suas concepções artísticas ao método, aos quais também reservo minha grande admiração... Exímios referenciais da arte poética: Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Machado de Assis, Castro Alves, e o meu grande pai literário, Thiago de Mello.
Quero finalizar estas minhas palavras antagônicas (e que me absolvam os asseclas da obediência cega aos procedimentos metodológicos) encorajando os meus semelhantes que aspiram as veredas sinuosas do universo poético e musical, no sentido de abster-se dos métodos que propõem ao pensamento o escravismo indiscriminado e o embaraço em detrimento do livre-pensamento. Aos que, como eu repudiam a metodologia cega, sugiro a preferência do desprendimento e da liberdade de criar, de aventurar e de ousar na criação de suas poesias, textos, canções e o que quer que permita à vida ser melhor e mais aprazível e deleitosa.
Quero me juntar aos que sancionam o autodidatismo, os estudos autônomos, a poesia-livre, a música espontânea... Quero me engajar no grupo dos poetas e artistas que pelejam pelo revés da estratificação artístico-literária, e me agregar aos ideais libertários dos princípios poéticos que se furtam do método, das rimas... Poemas-livres também produzem lágrimas que abluem a face do amor... O violão sem o pentagrama também concebe canções que arrimam os enfraquecidos pela paixão... Pianos sem partitura também soam melodias; também exaltam ao amor... A liberdade de aprender, que o diga o coração do poeta, é o diapasão que afina a vida.
"VOA, TEMPO! TEMPO, VOA!"
(Paulo Queiroz)
Ah, tempo... Que bubuia... Que bubuia, e que pára! Ah, tempo... Que se delonga... Que se detém... Que se arrasta como um réptil entrevado... Como eu me arrasto na subsistência dessa vida de saudade imensa... Eu, que servil rastejo sob o jugo dessa saudade, esperando pela tua decorrência, tempo. Devias tu voar, tempo! Sob as minhas súplicas, eu te digo: tu devias deslizar na rapidez da minha saudade enorme, tempo...
Voa, tempo... Tempo, voa pelo amor de Deus! Porque a vida suave, o conforto e o amor de verdade, só têm lugar mesmo nos braços do meu amor, tempo nocivo... Porque é violento o contraste entre a esperança e a saudade, tempo, aqui dentro de mim... Estes dois sentimentos que coabitam pacificamente na mesma matéria abatida pelo amor por ela... Aqui dentro do meu corpo, tempo, e que conflitam-se em segredo, por causa do meu amor, que eu verei em breve... Mas eu preciso da tua indulgência, tempo, para que essa brevidade me faça chegar logo à minha amada... Por isso voa, tempo... Tempo, voa... Voa para que o meu coração voe também, para o corpo dela...
Voa, tempo... Tempo, voa com urgência, porque o mal verdadeiro se elabora a partir da loucura gerada por essa saudade gritante dela, tempo... Porque os sintomas dessa saudade são terrivelmente avassaladores e me deixam entristecido pela tua morosidade, tempo maldito... A tua lentidão é abominável, tempo covarde! Nem eu te implorando tu caminhas com mais rapidez... Parece mesmo querer arengar com o meu coração, cheio de saudade dela... Conto dias para abraçar a minha mulher, como se contasse dias para voltar à vida, de um sono profundo e mortal...
Meus pensamentos consideram que falta pouco para o amor que nos embala, mas meu coração concebe apenas que há uma tardança para que eu sinta a alegria plena de estar nos braços dela... Ela, tão amada...
O curso dos dias, tempo, tem uma tendência assustadoramente fenomenológica de correr em linha sinuosa e demorada, esquivando-se das retilíneas tão somente para arrostar-se aos meus sentimentos e meus desejos de que tu voes rápido... Meus anseios de que tu voes para que eu a alcance com urgência...
Voa! Eu te peço com humildade e instância, antes que eu me insurja contra ti, maldito. Antes que eu me rebele contra ti, eu te imploro: voa, tempo! Tempo, voa! Depressa voa, para que eu não mais padeça de tanto amar. Outorgue-me, tempo, um conhecimento elementar, uma noção de ti, e do quanto tu falta para que eu a abrace... Tu, tempo, que às vezes parece tão pouco para que eu a ame, e na maioria das vezes parece uma eternidade... Por isso, voa, tempo... Tempo, voa... Eu imploro... Mas se tu não queres voar, tempo miserável, eu saberei esperar. Todavia, que tu não sejas tão maldito a ponto de quereres correr como um raio, quando eu estiver nos braços dela, do meu amor, tempo escabroso.
"TANGER O SOL, EU?"
(Paulo Queiroz)
Somos demasiado lassos, eu e você.
Coercivo mesmo é o sol: soberano de todos os fogos.
O senhor do suplício de todas as paixões.
A pressão febricitante, calor que subverte a vida,
E que crepita as almas morrentes do homens...
O sol, que aos medíocres amores vexa e açoita.
Prepara-te, ó carne frouxa!
Consagra-te à dignidade incontestável
De pertencer ao mundo tórrido do senhor sol!
Pois se tuas queixas te alucinam e te amedrontam,
Tornam-te elas incapaz de amar!
Que corpos já tu provas-te? Que lábios já experimentas-te,
Sem que tu pudesses fartar-te do calor?
Sofres pela tua forma ignominiosa de amor,
Ao implorar-me ao léu que ostentasse poderes,
E que ao insofismável poder do sol ignorasse,
Para que meu pobre espírito padecesse ingenuamente.
Pede-me como a um deus onipotente
Para que eu repila algo imortal: o fogo mor.
Previne-te do frio no amor do sol, isto sim!
E arde em desejo ao seu calor perenal.
Prepara a tua carne para a outra, ao fogo do sol.
Mas tanger o sol, eu? Em tempo algum!
Deveras a tua vontade é irrealizável... E o teu desejo,
Ainda que meu o fosse, seria sempre impossível.
"MERGULHO NA CARNE"
(Paulo Queiroz)
Antes que a traiçoeira se apoderasse de seu corpo, e antes que ela tisnasse de tristeza a vida inteira daquele pobre, ele sentiu que precisava ser mais esperto do que a maldita desditosa. Sabia que precisava mergulhar naquela carne de amor com toda a suavidade e o carinho que o seu copioso e sentido amor predizia... Era sua missão possuir aquela carne de mulher apaixonada, de amor. Era seu maior intento antecipar-se à dita cuja maldita que poderia surgir a qualquer desavisado instante. Antes que a desditosa chegasse logo, e antes que ela marcasse sulcos de indolência, de apatia, nas feições daquele homem, ele precisava mergulhar naquela carne macia; e antes que a vontade de viver rareasse para sempre, tinha ele que mergulhar naquela carne de amor. A presença daquele corpo de amor afugentava das lembranças do homem todos os desatinos da vida, daí a pressa dele de mergulhar naquela carne... Aquele corpo de amor... Aquele espírito de docilidade verdadeira, autêntica, veraz, jamais amou aquele homem pela cobiça, ou pela força do bem-trajar... Aquele corpo de amor estimou aquele homem pela força do desprendimento, da abnegação, da renúncia, do amor mais verdadeiro que há... E ele então se mergulhou na sua carne ávida; precisavam daquilo, antes que a desditosa acampasse em suas almas. Antes que essa maldita fizesse deles corpos mortos trazidos no triste fiango à cova-rasa, do desespero, ele carecia mergulhar naquela carne de amor... Era sua missão... E ela, a maldita, fatalmente chegaria... A dita cuja desditosa chegaria sim... Porque dela não há quem escape... Porque depois dela, pode não mais sobrar uma única migalha que garanta mais amor... E ela viria, a desditosa... E quando o homem pressentiu que tudo poderia se finar apressou-se mais ainda para mergulhar naquela carne de amor... Era uma necessidade, uma precisão sua... E dela também. E num mundo derribado pelo auspício da efemeridade, donde ninguém se dá ao amor por esperança viva na longevidade, o homem tinha a certeza da perda... Tinha a certeza da fragmentação possível de seu amor puro e acentuado. Neste mundo cru e irrefletido, onde a sujeição e o pulso tolhem a liberdade do ser na escolha de quem amar, o homem então tinha mesmo que mergulhar naquela carne de amor... E aquilo urgia. Aquele homem sabia que quando a desditosa chegasse, e chegaria com terrível potencial, o faria perder a cabeça e esbagoar-se no caminho do mal; e o esfalfamento trazido pela monotonia e pelas oscilações noturnas o fariam desistir da caminhada. Por isso era vital mergulhar-se naquela carne de amor, antes que o tardar se fizesse anunciado, com achegada da dita cuja desditosa... Aquele ser pouco durável, que corria às tontas alucinado, sem rumo e sem prumo, e que tinha pavoroso medo dos senões dessa vida tão famigerada e desditosa, quanto à dita cuja, que se chegava, fez-se feliz quando recebeu aquele corpo para o mergulho mais aprazível de sua vida... As vicissitudes do dia-a-dia daquele pobre eram abrandadas pela presença afortunada daquele corpo de amor... E seus revezes eram desbaratados pelo vasto querer que lhe foi dado, antes que ela, a desditosa, chegasse... E quando a maldita desditosa chegou, o homem, num lance de virtude no qual o pensamento se volta sobre si mesmo em exame frio e gélido do futuro, intimou o seu juízo à ponderação, e aquietou-se, confiando ao tempo o resto de seus dias e os frangalhos daquilo de bom que seus mergulhos produziram em sua alma... Mas antes, ele mergulhou como nunca havia feito em sua vida, naquela carne de amor, assegurando-se às lembranças maravilhosas... Antes que a dita cuja desditosa chegasse... E sem dar impressão nenhuma de que o macho nunca se põe a prantear, ele permitiu que numerosas lágrimas gotejassem de seus olhos deprimidos, por riba de sua face habitada pela insônia, revelando as tormentas que se enclausuravam no seu pobre corpo, por ela: a dita cuja desditosa... Maldita... E antes dela, ele era feliz, e mergulhava naquela carne de amor... Muito.
"EU VOU TE BUSCAR"
(Paulo Queiroz)
Eu vou te buscar para a minha alma...
Vou nesse vôo sumo de ligeireza e "apressassão".
Nem que os acordes dos violoncelos se tornem tristes,
E nem que as arcadas da minha razão desabem com fragor.
Eu te buscarei sim! Nem que amenidades de fêmeas
Vicejem-se ante meus olhos fincados em ti...
Eu vou te buscar agora!
Eu te buscarei para o meu coração...
No erigir espantoso desse vôo ditoso de saudade má...
E no erguer da paixão doentia que anuncia a tua existência.
Eu vou sim te buscar, já, alçado pelo vôo da ansiedade,
E elevado pela indizível vontade de fazer amor contigo.
Eu preciso te buscar, já!
Eu te buscarei para o meu corpo...
Nem que o infinito dos céus se tornem lancinantes,
Nesse vôo, e por medo da morte, eu chore de pavor...
Mas eu te buscarei pela compensação da vida...
Pelo esplendor da certeza do encontro contigo.
Eu vou sim ter buscar, vou!
Eu vou te buscar para a minha vida...
No ímpeto desse vôo fulminante e desesperado,
Eu te buscarei... E nem que a imensidão do madrugar
Se turbe de espanto nas alturas amedrontadoras,
Eu te buscarei, minha vida... E te amarei...
E nem que troveje nos altos, eu desistirei de ti...
Eu vou te buscar pra mim, vou sim!
Eu vou te buscar pra mim, sim, eu vou...
Nesse vôo esperançoso, e nas asas do meu sonho mor:
Meu sonho de esposar-te linda... Minha... Sempre...
Eu te buscarei em gratulação imperiosa ao Criador,
Por ter me ofertado teu corpo deleitoso de amor...
Tal qual é teu beijo que eu vou buscar...
Eu te buscarei, amor meu!
Te buscarei sim, para a eternidade...
Na ascendência desse vôo que me levará para ti,
E que nem a malta ocultará dos teus olhos meus...
Dos teus olhos pregados ao céu de expectativa de mim...
Te buscarei nem que tenha que contender com a saudade,
Que traz a tua imagem a mim, mas que me priva da vida.
Eu te buscarei imediatamente!
Eu vou te buscar para o meu mundo...
Nesse vôo tão determinante eu vou te buscar,
Porque a parte de mim que tu levaste, quando chorosa
Me deixaste aqui na tribo, quer reintegrar-se a meu corpo...
Porque esse órgão vital que tu levaste contigo [tu mesma]
Deseja e urge voltar pra a minha subsistência...
Por isso eu vou buscar-te rapidamente...
Te buscarei muito rapidamente, meu amor...
Eu vou te buscar para a felicidade...
E não vou apenas porque tu queres que eu o faça...
Apenas porque tu pedes insistentemente que eu vá...
Mas eu vou te buscar porque a tua alma me chama...
E vou porque a voz da alegria de te amar grita
Dentro dos meus ouvidos que tu és minha. Por isso eu vou...
Te buscarei sim, meu amor!
Vou nesse vôo imediato para te buscar...
Porque as minhas forças para enfrentar a dor de te amar
Ao longe, já estão se exaurindo muito velozmente...
E eu vou te buscar porque é necessário... Por isso eu voarei...
Porque preciso ir te buscar... E vou num vôo pra ti...
Eu te buscarei!