"O AMOR ESTÁ CONTIDO"
(Paulo Queiroz)
O amor está impresso em tudo, como estão o tempo e a corrosão. O amor está contido no arrosto da saudade que inflama os olhos à vivacidade do pranto; nos versos simples que não consagram a rima, mas muito enaltecem o coração. O amor está contido no dissabor dos sinos dobrados, de um templo derribado; nas armaduras, nas espadas, no espelho invisível da alma. O amor está inserido no segredo de uma mulher e no cárcere do seu querer; nas lágrimas que represam suas decepções, suas desilusões... O amor está contido nas madrugadas insones do homem entristecido, malogrado, de brio ferido, preterido, contando esperanças de ser amado para sempre.
O amor está contido no beijo, no prazer que goteja na boca da pessoa amada, na face indescritível da felicidade em leito, nos abraços, nas palavras, no desejo desenfreado, nos gritos e no corpo contorcido pelo contentamento. O amor está contido nos poemas de bar que se perderam; na via-láctea que ofusca o rosto da alteza... Pequena. Está contido nos medos, no silêncio, na angústia, no vazio da espera pelo devir.
O amor está contido na tristeza dos sonhos desfeitos, lindos... Está no vento-falso que enxuga a mentira e que seca e enegrece as verdades do coração. O amor está contido no desespero, na falsidade das palavras que expressam o desgosto, a vaidade... Das palavras que afirmam que o outro não serve para ser amado, que maldigam a sua naturalidade, e que abrem fissuras na sua alma... Aí também está contido o amor... E nos verbos que regem a altivez, quando o coração, desesperado, grita: tu jamais serás feliz com outro amor! Somente eu saberei te amar nessa vida! O amor está contido na triste certeza de que outro amor virá, e fará desse amor de agora apenas uma lembrança ínfima... Aí também estará contido o amor...
O amor está contido em tudo... Está contido na candidez, como na volúpia crescente dos vadios esperançosos pelo sossego, pela paz. O amor está contido em tudo mesmo, até no desejo de se procurar inútil e desesperadamente outrem para o deslocamento do verdadeiro e eterno amor. O amor está contido no princípio, no meio e nas entrelinhas escritas, e no fim... De tudo... O amor está contido.
(De mim, para os que vivem de amar, e àqueles que vêem que a vida sem amor não presta para nada, ainda que se precise buscar um amor, sempre...)
"A INVEJA NAS RELAÇÕES DE AMOR"
Por Mário Quilici
Adpt. Paulo Queiroz
O Dicionário Houaiss define inveja como segue: sentimento em que se misturam o ódio e o desgosto, e que é provocado pela felicidade, prosperidade de outrem. Desejo irrefreável de possuir ou gozar, em caráter exclusivo, o que é possuído ou gozado por outrem. A definição do dicionário é muito coerente com a realidade da inveja, como a conhecemos atualmente. A inveja é um sentimento exclusivamente humano e assim, todos nós de alguma forma, já sentimos inveja em algum momento de nossas vidas. Alguns autores afirmam que a inveja é inata. Eu tenho dúvidas a esse respeito. As pesquisas atuais, na área de neurociências, mostram que sentimentos como a raiva, a vergonha e a inveja surgem cedo na vida. Como outras emoções humanas, a inveja depende do desenvolvimento de várias habilidades cognitivas. Por isso é que não acredito que deva ser inata.
Mas a inveja é o sentimento de insuficiência e incompetência que faz com que um traço visto no outro se torne uma insuportável fonte de vergonha para o indivíduo. Dessa forma, a vergonha obscurece a capacidade positiva do indivíduo que é a capacidade de discriminar com precisão e estimula o desejo de espoliar. Então a principal qualidade do invejoso (discriminação) é destruída na medida em que é ignorada.
Nas relações amorosas, o invejoso fica confuso com o amor do outro. Sente que não é merecedor desse amor já que é insuficiente e incompetente e, por isso, não pode ser amado. Como ele não se admira, não acredita que alguém possa admirá-lo de forma legitima (verdadeira, portanto). Na realidade, o invejoso sabe que está com o objeto invejado porque deseja tirar algo que admira. Não há paz na relação porque o invejoso tem receio de ser descoberto em sua intenção de apropriação. Isso faz com que fique angustiado, com receio de ser rejeitado, descoberto e tornar-se objeto de vingança.
O invejoso reconhece que é impossível competir e assim, idealiza a pessoa de maneira a deixá-la grandiosa, acima de sua inveja, mas nunca revela. Nesse caso o afeto não elimina a inveja, mas, deixa mais difusos os elementos espoliadores o que torna a situação menos destrutiva. Vamos pisar na cabeça do diabo... Vamos remover essa inveja maldita do couro desse povaréu reprimido e o ranço desse povo mal-amado.
"BODAS DE ÁGUA"
(Paulo Queiroz)
Na madrugada quente, escuridão seca e sulcada
A surdez da esperança se mostra fria e tesa
Nessa uma hora longa de lembrança assustada
Há uma celebração ruça de uma luz escondida e acesa
Estas bodas de mágoas que abluem a minha cara
São apenas infelizes águas que enxáguam o nada
Pancadas em turbadas horas de tristeza não rara
E as minhas asas estão ocas, e a carne morta, cansada
Só há ecos distantes, quão distantes do meu corpo vão
Ferrete no meu couro, a marca mor da minha raça
Raça de amantes que vergam e sucumbem à desgraça
Ao rigor da saudade que mata e que nunca passa
Sou hoje carne fraca que digere o aço frio da faca
Sou as vísceras do silêncio que se expõem à toa
Esperando que se corra o tempo e extinga a marca
E que as bodas sejam como sinfonia que na alma soa
Mas nas bodas hodiernas a solidão comigo naufraga
Em águas de fundura horrenda que a mim me afogam
E que acolhem os meus restos de homem vil e fraco
E os meus vis fragmentos do medo de viver a morte
Da língua amolada só brotam rancores do mundo
Dos poros desentupidos só irrompem mágoas
E as palavras que germinam do pensamento imundo
Liquefazem-se às bodas malditas de pobres águas
Bodas de água:
Se felicidade matasse, eu viveria para sempre...
Viveria no calor do corpo de quem não amo...
E nunca mais amaria...
Deus dos céus:
Se amar fosse como um sono bom, eu nunca adormeceria...
Porque melhor é sofrer do que ceder à chatagem...
Do que ficar aqui e morrer de amor...
"ESPONSAIS À MEIA-NOITE"
(Paulo Queiroz)
Não há lei, não há religião, nem poderio, em nalgum tempo, que moderem os sentimentos verdadeiros de um tapuio apaixonado... Condescendente... De um tapuio empenhado em assegurar a afeição definitiva de sua amada... Não há nada nesse mundo que minore a exaltação de um amor desenfreado... E eu me entreguei de corpo e alma ao meu amor... Consagrei-me imediatamente à minha mulher-amada. E quando isso ocorre fatalmente com um macho abnegado e entregue, nem as mazelas como a fome, as pestes e a guerra são capazes de enfraquecer o seu amor verdadeiro.
Acontece que se sucedem, amiúde, por dentro do coração da gente, escavacando o peito como se fossem traças, tantas e tantas dúvidas e hesitações que se propalam exprimindo o maldito ressentimento e dando bem claramente a entender que nesses ressentimentos reside o ardor da desforra, do desdém, da falta de apreço, e essas sensações jamais parecerão piores do que a fome, do que as pestes e do que as guerras... Mas o são, dentro do amor.
Com o poeta nunca será diferente do que é com os outros viventes, tanto que eu, pessoalmente, em minhas atitudes mentais, incontinenti, sou passivo de aceitação cega dessas situações embaraçosas. Só que num parêntesis, na verdade, eu acho que subjaze implicitamente nisso tudo uma perturbação resultante da idéia de perigo aparente que norteia o amor... Essa perturbação é um sentimento muito corrente dos covardes, é a sua cepa encravada na alma miserável... E eu, às vezes, me acho assim, covarde... Todos somos, a bem da verdade... Somos tão pusilânimes que entendemos que nos movimentos contínuos de quereres e de desejos desenfreados, viceja-se por vezes o desânimo incompatível com a vontade de querer ser amado para o resto da vida, e não reagimos.
O que eu sinto, agora, nesse momento, é que ressaibos de uma vida futura andrajosa e medíocre parecem querer me cortejar, e se contrastam com a minha esperança poética leda e com o meu imenso amor rico. Uma confusão estabelecida na minha mente minada pelo desconhecimento e pela ignorância, no amor, que estão alojados no meu próprio espírito, que espera pelos esponsais da meia-noite.
O meu amor ainda tem essa esperança lustral de se apoderar dos momentos mais sublimes que a minha vida já experimentou, à meia-noite. Serão os dias mais satisfeitos da minha pobre existência. Será o meu enlace verdadeiro, à meia-noite... Será a meia-noite mais única, mais ditosa, mais faustosa e mais feliz da minha história... E toda a malícia duvidosa, e todo o vazio, o oco, e toda a infundada inquietação se extinguirá da minha carne, à meia-noite, quando a forma estragada e mortificada da dúvida desaparecerá para a eternidade, dando vez à esperança e ao amor perenes. Será o momento mais fecundo da minha e da tua existência.
À meia-noite eu te deixarei conhecer todos os impenetráveis segredos do meu coração, e execrarei da minha alma as mais insidiosas aflições, as mais crudelíssimas flagelações que fustigam o meu amor, e que me condicionam miseravelmente à desesperança... À meia-noite, meu estado de languidez e de indolência será animado e entretido pelo nosso enlace sacramentado; pela presença divina que aplacará a cólera de nossos corações, que tanto esperaram pela meia-noite, e os êmulos que litigam o nosso amor serão destruídos, derrotados, à meia-noite... Para sempre.