PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Terça-feira, Setembro 28, 2004





"MOЯRTARIUMM"
(Paulo Queiroz)

Nesse ritual pubertário de soluços e mortes
Devaneiam as vidas atinadas pela findura ilibada
Mortariumm de dor na tua cara de flor murcha
E de incenso da amazona apagado pelo frio

Crias de mamas absortas pela resina infeliz
De legado estúpido e bruto que cheira a nada
Funde-te ao Mortariumm vastíssimo infindável
E virá como vesúvio alastrador que fará poeira

Havendo a cilada enfeitada pela face angelical
Não haverá também o anjo divinal guardador
Afligirá-te o fogo demoníaco e assolador
E a tua carne queimará nas línguas ardentes

Tuas crias de mama nem prantear poderão
Não te será permitido um único choro nos ecos
Mortariumm vem em fúria funesta e hedionda
E crepitará a tua alma rasgada e atrevida

Ingere o teu veneno carreado por Mortariumm
Degluti a insípida malicia vinda do monte alto
Desfalece e sucumbi aos sopros atormentadores
Tua liberdade foi estorvada para sempre, mata.




Quarta-feira, Setembro 22, 2004





"A POESIA E O DERROTISMO DO AMAZÔNIDA"
(Paulo Queiroz)

Ontem eu fui me inscrever num determinado Concurso de Poesias Amazônicas que acontece anualmente aqui na Manô; era o último dia para que os atrasadinhos pudessem se inscrever. Eu nunca havia participado de concurso de Literatura algum na vida, embora tivesse conhecimento deste. Na verdade nunca gostei muito de disputas nesse setor da minha vida. Para mim concursos desse gênero são sedimentadores; são capazes, ao meu ver, de impor ao poeta o ânimo à concorrência usual do mundo torpe (sem radicalismos). Alguns concursos divorciam o poeta das perspectivas da auto-crença, quando, por exemplo, este não consegue alcançar classificação no rol dos "eleitos", dentro de uma competição. Já vi isso acontecer. Especialmente quando o poeta é iniciante.
O poeta amazônida parece carregar um estigma que o faz parecer obscuro, receoso, pouco inteligível, confuso, tenebroso... Carrega consigo o estigma do derrotismo literário, e alguns negam isso veementemente. Geralmente o poeta amazônida não costuma mostrar a cara. Age em conformidade com o que o mundo da literatura qualifica de per litteras, isto é, teme aparecer por receio de ser achincalhado, por medos do derrotismo, e quando decide se apresentar ao seu mundo, o faz apenas através de seus escritos anônimos, e geralmente com pseudônimo. Eu particularmente não louvo esse tipo de disposição, apesar de reconhecer que muitos poetas imorredouros se valeram de pseudônimos em suas vidas literárias, e deram certo. Mas aí fica a dúvida: será que escolheram pseudônimos apenas porque tinham medo da derrota poética? Ou porque achavam seus nomes feios? Nunca se saberá as verdadeiras razões, a despeito do que eles próprios justificam.
Mas, reavendo agora o cenário da inscrição deste determinado concurso supramencionado... Pois bem, estávamos lá esperando para a efetivação da inscrição, havia muitas pessoas. Eu me inscrevi com três novas poesias amazônicas, compostas exclusivamente para a temática abordada no evento. São elas: "Quando Devo Chorar, Madre?", "Mortariumm" e "O Manto de Deus". Como eu, todos ali compuseram poesias de devoção explicita à mãe-terra-mulher amazônica. Pude ver lindas poesias que realmente me encantaram. E destas, algumas de uma pessoa em especial.
Fiquei intrigado e ao mesmo tempo muito decepcionado com um acontecimento. Uma menina de 17 anos, Talita, estava lá para se inscrever também. Imaginem o que é para um adolescente ser apaixonado pela poesia. Não parece ser uma situação corriqueira. Não mesmo. É meio raro. E essa era e muito apaixonada mesmo... Li os poemas de Talita, eram lindos... Acontece que ela não observou o regulamento do evento... Pobrezinha... Um regulamento muito descabido, especialmente por vedar a menores a participação naquele concurso. Um verdadeiro absurdo.
Menor, legalmente, não pode fazer um monte de coisas. Não pode fumar, não pode fazer uso de bebidas alcoólicas, não pode assistir a determinados filmes, não pode freqüentar determinados ambientes após as 22:00, e muitos outros interditos que lhe são impostos, apropriadamente, por certo. Mas, de igual modo, me parece absolutamente infundado que menores não possam agir com probidade quando pensam e ser poetas, por exemplo. Quando desejam se inscrever num concurso de poesias. E pior ainda, quando não se consegue convencê-los, aos olhos da Lei, das razões verdadeiras (quando há) que promovem tal impedimento. Ridículo esse comportamento dos promotores daquele concurso derrotista, e de tantos outros por aí.
O fato é que Talita, ao saber que não poderia ingressar no concurso, com suas lindas poesias, chorou muito. Como o regulamento já estava homologado, não coube a Talita apelação, e isso foi dito nas fuças dela com toda a truculência peculiar dos mesários, funcionários públicos "felizes" da vida. Aquela porcaria de regulamento era uma regra que destituía a poesia da equidade, onde não parecia caber uma única exceção. A menina chorava copiosamente, e sua tristeza se estendia a todos os demais que ali estavam. Ela queria ser poeta. Sempre quis, mas ali, naquele momento, repetia chorando: eu nunca mais farei poemas. Estava ela fadando-se ao derrotismo cultural. E como se não bastasse, veio o pior...
Estava lá para se inscrever também uma jornalista amazonense conhecida, que labuta em um grande jornal da terra. Um destes profissionais medíocres que gostam de se exibir com magnificência inexistente... Destes que tentam iludir a si próprios de que são algum balde cheio de merda. Já nos encontramos, eu e a dita cuja jornalista em alguns corredores de um jornal pro qual eu escrevia regularmente há algum tempo. Pensem numa figura tosca e boçal.
A jornalista, achando que estava preparada para consolar a miúda Talita, foi logo sugerindo-lhe uma "remediação"; um paliativo que fatalmente culminaria com a piora do estado emocional da menina, e com o alargamento de sua tristeza e indignação. E disse a jornalista-"poeteira":
- Talita, porque você não pára de chorar, e procura ver a situação pelo aspecto "positivo"?
A menina Talita, interrompendo seu pranto espaventada, achando que havia surgido do nada a solução para a sua aflição de ter sido excluída na cara-de-pau daquele concurso, disse:
- Aspecto positivo? E qual seria esse aspecto positivo?
- Ora, suas poesias são belíssimas, você, para mim, estaria entre os classificados, com certeza, e poderia ganhar algum dinheiro das premiações. Dessa forma, não deixe de inscrever seus poemas. Procure um de seus pais, um familiar maior, e inscreva seu trabalho no nome de algum deles, de forma que os poemas possam concorrer e você ganhar dinheiro. Eu tô aqui pela grana! Pense nisso.
A menina Talita silenciou por breves segundos e instantaneamente começou a chorar mais ainda. Estava desapontada com aquela sugestão, que ao invés de trazer esperanças para a pequena poeta, trouxe-lhe vergonha de estar ouvindo aquelas asneiras de uma "poeta" mais velha do que ela. O que Talita queria era perspectivas de prosseguir escrevendo poesias, em seu nome. Não queria ser poeta de forma vicária; não queria submeter-se às imposturas do mundo literário apenas por dinheiro, não queria usurpação... Daí falou:
- Achei que você fosse me dizer alguma coisa que preste, e tu vem com essas merdas pro meu lado. Cala a boca, sua lesa! Disse a menina, enfurecida.
A jornalista não curtiu muito, não, aquela reação exasperada (com certa razão) da menina. Aí, retrucou:
- Tá vendo?! Acho que foi por isso que deixaram de fora os menores. Adolescentes são problemáticos. Geralmente são mal-educados e estúpidos. Falou a imbecil da jornalista, agravando ainda mais a situação.
Daí, uma pequena discussão se iniciou ali dentro, onde havia muitas pessoas. Era o choro de indignação e desapontamento da pequena Talita, e sua rebeldia, contra a altivez e prepotência de um ser que se dizia poeta, a jornalista inescrupulosa. Eu, que ainda não tinha me metido na parada, fui lá intervir. Afastei a pequena Talita pro lado, e disse à jornalista:
- Olha aqui, moça, pude infelizmente ouvir suas recomendações feitas à menina, e pude também ver o modo nítido de como suas palavras reduziam a porra nenhuma os sonhos dela de ser poeta. Me parece que você é uma pessoa sem noção, viu? Você está louca?! Acha que todas as pessoas que estão aqui vieram apenas atrás do dinheiro que essa bosta desse concurso está oferecendo? Acha que todos que amam a poesia são iguais a você, sua insensível? Deixa a menina em paz!
Fiquei muito nervoso e exaltado naquele momento, tanto que foi o suficiente para aquela figura presunçosa tomar seu rumo. Eu pedia a Talita que ficasse calma, orientando-a a jamais na vida considerar aquela ou qualquer outra sugestão que possuísse aquele caráter plutocrata e afrontoso à Literatura. A nossa cultura amazônica se perderia no tempo, mais aceleradamente ainda, se todas as vezes que o "cão" viesse nos tentar, só por dinheiro, e a gente se curvasse. Estaríamos derrotados, nós amazônidas. A poesia que devemos amar deve ser nobre. Fazer poemas é uma forma de sarar as chagas da alma do caboclo sofrido, derrotista.
O mercenarismo poético pode aniquilar os sonhos de quem deseje ser poeta. E a pequena Talita, mesmo se resignando à injuriosa atitude dos promotores do evento, e preterindo as palavras daquela jornalista-"poeteira"-doidivanas-mercenaria-sem-noção, resolveu que esperar seria o melhor. Sua vida seria muito longa, e num dia, não muito remoto, ela poderia ver seus poemas devidamente publicados e merecidamente reconhecidos. Seu tempo ainda estava por vir. Mas ali, naquele concurso, Talita só desejava mostrar a cara... Quer se apresentar ao seu mundo, sem medos do derrotismo.
Eu, que sempre me esforcei para pautar a minha vida poética nas sendas do decoro e da austeridade literária, fiquei feliz por ter sido capaz de persuadir aquela pequena-poeta quanto ao seu futuro; quanto à mediocridade da essência daquele concurso fraudatório. Daí, como forma protestativa, desisti de me inscrever também. São as linhas tortas nas quais Deus forja as suas palavras infalíveis, e eu as prefiro, a ter que me submeter ao escrutínio do falso-idealismo dos que buscam em tudo o dinheiro, como os poetas que colocam o seu próprio prazer-fingido à submissão desse condão leviano.
Ser poeta, amigo amazônida, pode ser o estado de purificação de sua alma e de seu espírito. Ser poeta, irmão amazônida, significa pelejar contra o engano e contra as afirmações contrárias às verdades do coração do homem... Ser poeta, finalmente, é nunca conceber o derrotismo que violenta o futuro e que aniquila a paz interior; é não admitir as sujidades que são arraigadas pela cobiça, e que triunfam na mente daqueles "poeteiros" que se escravizam à fama.




Segunda-feira, Setembro 20, 2004





"PEQUENA ODE À NOITE MORENA"
(Paulo Queiroz)

Deixei tudo para vos conhecer, ó noite que recai!
Sob o breu do céu e sobre a minha cabeça, cais...
Noite nossa, nova, minha e tua, morenamente amante.
Um desdém gostoso de torrentes parezerosas,
Sou teu, ó noite que recai sobre os meus cabelos.

Feito apressura de tempo que fende as horas, cais...
Pois, para perder-me a ti, busquei a tua formosura,
Que sobre minha boca deixastes o rocio fresco,
Que pingava sarando as tais páginas coaguladas...
Cais, matadora das trevas opressoras, morenamente.

Noite morenamente apaixonante, boca de cálice...
Que exala a água elástica e o hálito deleitoso, cais...
Cais nos meus olhos alçados aos ventos doidos.
Cais que nem um colar de estrelas à madrugada.
Noite morena de ar ingênuo e de lábios úmidos...

Noite morenamente-menina... Senhora do amor...
Cais em mim, te encontrar, tua sombra, paixão.
Deixastes teu nome ao redor do meu, morenamente...
Num papel que se desfez, mas não rasgou, noite.
Espero estar sempre aqui, noite morena que cais.




Sábado, Setembro 18, 2004





"HUMANO: UM SER INVASIVO"
(Paulo Queiroz)

Manipulador, possessivo, ciumento, contendor e, sobretudo, invasivo... Princípios proeminentes que iluminam o caminhar do ser humano. No trabalho, em sociedade, na comunidade e especialmente no amor, esses atributos são sempre exercidos, vezes de modo laborioso, vezes num sentido moderado, de sorte que em poucos traços os homens se assemelham às espécies dos "outros bichos", que temem, e que embora irracionais, observam regras, culturas -- por assim dizer --, e de modo efetivo respeitam os espaços alheios, salvo em eventos de sobrevivência alimentar, onde vigora inapelavelmente o distintivo da força bruta, o que aos nossos olhos hipócritas nos parece covardia. Mas não é, não! É apenas o continuísmo do ciclo da vida e dos essenciais predicativos da velha e perpétua cadeia alimentar. Tão-só. E fica nisso. Bichos não se relacionam intimamente entre espécies distintas. Não se traem -- sendo estes da mesma espécie --, posto que não se apaixonam. Não se apegam com afeto recíproco, tampouco avançam em suas relações, todavia às vezes parece faltar pouco para que superem os humanos na harmonia em sua convivência.
O humano: irascível, colérico, insano, poltrão, quando amando, advoga que o que faz sofrer, ruir, e faz crescer suas animosidades até a culminância com a explosão da sua tensão emocional são apenas os problemas que enfrenta no dia-a-dia, a automaticidade dos resultados sociais, das rotinas, do trabalho, etc., e procura sempre se esquecer da sua patente covardia para caminhar inabalável, firme, apaixonado, leal, esperançoso, sonhador... Pois eu, depois de algumas porradas que andei tomando pelas fuças, concebi que não adianta muito chorar, não. O negócio é pugnar pela afeição, ainda que cometendo erros sucessivos. Hoje sei que há de se empenhar muito mais na prevenção dos desconfortos e ruídos gerados por uma ruptura.
Todos temos problemas, quando amamos; alguns os têm em larga escala outros em menor, com alternâncias. Não há "amorzinho perfeitinho", muito menos há possibilidades de se fabulizar um enlace no sentido de fazê-lo parecer encantador, intencionalmente mágico, lindo (afirmo isso com a chancela que a poesia me outorga)... O que há realmente são resultados nocivos arraigados na intimidade dos amantes quando apartados forçosamente, pela sua própria covardia. Depois, num paradoxo, há o aprisionamento e a invasão, cuja dependência torna-se pitoresca e ilusória, e acaba por ser mais irracional ainda do que o falimento da relação propriamente dita. E é disso que quero falar aqui.
Como sou um ser reflexivo -- apesar de às vezes cometer injustiças em relação a meus pareceres -- amiúde me refugio para pensar em circunstâncias que sobrevêm a nós humanos. Hoje (já desde uns dias) minha mente tem se ocupado em tentar compreender os porquês do ser humano sempre ter sido refém de situações, pessoas, amores, fatos, e de sua própria covardia em não lutar em prol da correção de erros que se prolongam dentro de suas relações amorosas... Um tema, por certo, de difícil entendimento, destarte, à margem das minhas preocupações eu trace aqui apenas diminutas faculdades que têm me tomando tempo ultimamente, sobre a matéria em questão.
Sempre digo que o amor, sendo incursão a território alheio, carrega consigo algumas características que infundem medo na criatura humana. São muitos traços conhecidos de todos nós, entre os quais eu destaco: o ciúme, a saudade, a obsessão, etc, mas aqui quero me propender a um específico que me parece pouco examinado: a refenização do ser no pós-relação. Ora, embora alguns sofistas se oponham, penso eu que em sua potencialidade natural o amor aprisiona a gente; enclausura-nos num universo que não nos permite fuga a curto prazo. Isso é um fato que nos causa a perda dos elementos funcionais básicos da nossa personalidade, da nossa pobre maturidade, do não-condicionamento cego, e repercute ruidosamente quando, a partir disso, se configura a submissão.
Quando o amor acaba, quando finda, vestindo-se das velhas dores, dos costumeiros dissabores e tristezas, aí que verdadeiramente somos feitos cárceres desse sentimento desfeito e ameaçador. Não raro, diante disso, os ex-amantes se erguem numa trajetória de produção de meios para enlear o parceiro ou parceira. Cravam nos entremeios da saudade e da separação uma bandeira que designa seu sentimento de posse e seu desejo de fazer cativo o ex-amor, mesmo que suas afeições possuam, agora, apenas insignificância e "mesquinhez". Mas o que parece mesmo exercer determinação no pós-relação é a impressão de ainda se desempenhar uma certa soberania nos passos do ex-parceiro ou da ex-parceira. Geralmente tenta-se "negociar" a respeitabilidade no pós-relação, a preservação de um passado tido como especial, inesquecível, e que poderia ser "lesado" por um novo enlace... O fim sempre será o fim, todavia, no cotidiano, o inadequado comportamento de se manter esperanças falsas persista, fato que tão somente instaura pretextos para aprisionar a pessoa.
Como ainda permanece por algum tempo a necessidade de se dialogar, de manter-se um contato que mitigue aos poucos os desconfortos trazidos pela dissolução do vínculo amoroso, torna-se importante também fazer parecer que ainda há um certo apego, uma vontade de se refazer e reconstruir as esperanças de reatamento, mesmo que isso seja em alguns casos inviável, dadas as circunstancias que nortearam a separação. Em alguns casos tidos como extremos, se não houver a execução de determinado tratado, depois do rompimento, há a imperiosa imposição da força ou sinais de intimidação por parte de um dos ex-parceiros, e isso é o que configura a refenização. O aprisionamento... Ninguém quer sair "perdendo", muito menos dar de bandeja a outrem o que lhe "pertenceu" amorosamente um dia, mesmo que não o queira mais. É o maldito sentimento de posse que nos aflige a todos. Receio que isso não possa ser mais amor.
Em todos os casos, e é quase sempre assim, no não cumprimento de concessões ou tratados, seguem-se as "penalidades", que podem ir desde provocações exacerbadas, de ações ameaçativas dum desprezo eterno, de agressividade moral, de ofensas mútuas, e principalmente de atividades invasivas, chegando a situações onde o individuo sente-se tolhido de poder expandir seus sonhos, suas aspirações de recomeçar a vida com outra pessoa, por medo... Isso nos destitui cada vez mais da liberdade de viver como queremos, mesmo que nossos desejos nos levem ao sofrimento... Mesmo que tenhamos escolhido o novo parceiro erroneamente. Ainda assim, penso eu, nenhum sofrimento pode ser mais vergonhoso do que termos a nossa liberdade roubada por determinadas situações.
Depois de um certo tempo, na tentativa de habituar-se à separação, aquela relutância não-manifestada que era até então subjacente, pelo desejo de libertar-se definitivamente dos elos do passado -- mesmo que ainda tomados pela saudade -- passa a expandir-se e se revela com certa constância e passa a nos guiar na busca pelo recomeço de fato. Isso nunca será fácil, mas será sempre o único recurso que se disporá no restabelecimento da normalidade social dum individuo. De qualquer sorte, depois que há -- quando há -- a superação do sentimento de posse, ambos situam-se numa nova realidade e acabam por conceder oficialmente "anistia" um ao outro. Enfim, a desobrigação e a "libertação" dos cativos.
Mas, e quanto ao sofrimento proporcionado sempre a apenas um dos pares? Como fica este um que herda todo o fardo de ter que sorver sozinho a amargura? Como fica? Não fica, simplesmente! Este se fode sozinho (desculpas pelo termo)... Daí importa dizer aos amantes que pregam com falaciosa argúcia o seu pendor magistral à maturidade passional -- absolutamente racionais como julgam ser -- e que empregam ocasionalmente a cultura do "lutar sem medidas" apenas como mero acessório em suas vidas, à revelia de seu amor, e em detrimento dele, cabe aqui recomendar um pouco mais de respeito e apreço aos sentimentos alheios, quando se valem da insidia para arruinar acintosamente a vida de outrem. A estes importa conceber, pois, que um ser iludido, baldado e embaido no tempo, sempre será incapaz de prover por si só o conformismo, o alívio e o lenimento para as invariantes e prejudiciais desilusões produzidas pela descarga emocional, resultada das frinchas abertas bem no meio de sua alma. Mas, se agindo ao contrário, sua desforra ainda não for suficiente para o seu regozijo pessoal, depois de enganar alguém, muito menos devem estes promover o aprisionamento na vida do outro fazendo-o deter-se embargado, por receio de falsos-juízos, de ofensas públicas, ou de sanções invasivas na sua liberdade efetiva, por meio do "encabrestamento", das ameaças, das cobranças sem nexo, que escapam, inclusive, a qualquer juízo pelo seu formidável poder de envolvimento. Um dia os mentirosos aprenderão com o sofrimento.
A falibilidade do amor, outrossim, da sua longevidade, são reconhecidas, sim. Não se pode querer compulsoriamente que uma relação tenha êxito a esmo, sem se investir nela, sem lealdade, sem admitir como naturais os solavancos e os problemas produzidos pela saturação, pela rotina, pela distância -- se for o caso --, pelos entrecortes e oscilações peculiares do amor... Assim, do contrário, certamente ocorrerá a cisão do amor à luz da covardia e da certeza dum sentimento que era pseudo-existente. Mas, na ocorrência da cisão inevitável, não se deve ostentar a audácia vingadora, o desejo pelo aprisionamento de ex-parceiro ou ex-parceira, o aleitamento do que se convencionou chamar de "respeito ao passado". Deve-se, isso sim, ter a coragem de vestir-se de um sentimento honesto, como não se fez enquanto amante. Deve-se nulificar tudo, ainda que permaneçam as lembranças boas da relação, sendo ela recente ou não. Penso que sustentar -- por intermédio de cobranças de veneração ao passado -- a refenização de um ex-amor, representa só mais outra ilusão, a despeito das demais que levaram a relação à bancarrota. E penso ainda que querer exprimir na marra sentimentos passados, pode caracterizar uma investida brutalíssima e irremediavelmente afrontosa ao novo relacionamento, ao recomeço, aos novos projetos de vida.
Portanto, o caminho mesmo, seja como for, deve ser a apreensão imediata da realidade crua, em esforços desmedidos; o preterimento do simbolismo que exuma o passado, sob pena do individuo se tornar refém de suas próprias lembranças e de esperanças falsas. O caminho é não permitir que o passado ultrapasse o marco divisório entre a saudade e o desapontamento, e que este exerça penetrante influência no caminhar, prejudicando-o com mais ilusões. O desamor alimenta a nossa preocupação e as nossas dores, inevitavelmente, mas torna-se mister pensar que a esperança vivaz e a resignação dos revezes (quando se os admite) é que são as verdadeiras orientadoras do nosso espírito; são os fulcros para o nosso futuro. São o nosso norte. Recomeçar livre, portanto, com coragem e desprendimento sempre será a melhor saída. Nada de invasão!




Terça-feira, Setembro 14, 2004





"O DRAMA DOS DEUSES"
(Paulo Queiroz)

O tempo falou para mim, que tudo virou brincadeira, que o panteão seria muito confuso, e os "sagrados", uma grande besteira. Não seriam como dantes amados, pois o nosso mundo é pequeno e confuso, mas crê em tantas coisas idiotas que o ser fica até obtuso. Há deuses estranhos, eu diria, que inventam as suas próprias coisas; determinam o que é bom ou ruim... Há até os que têm sete lindas esposas, isso até já virou um escárnio. O Buda, prostrado sobre seu bucho, de tão graxo, oferta tanto ao "iluminado", que o seu corpo aos fiéis já está murcho. Ao pobre do índio, enganado, restou o respeito a Tupã, desacreditado, e ante o deus do relâmpago, o índio permanece calado. Os amantes até em vestes são traídos, que por Eros amavam em leito, mas de tanta promiscuidade e volúpia os amásios perderam o respeito. Os sabidos que adoravam a Tot ostentavam pedantes asneiras, e até aqui na contemporaneidade prosseguem pregando besteiras. Até o grito em rijeza de Odim, que descia com tanta imponência, e bradava qual o som estrondante dum trovão, perdeu toda a sua competência. Atualmente se vêem uns chorando a Jeová com uns outros no muro, lamentando seus atos em vida, depois fazem da guerra o futuro. Rá-Harakhty, o falcão que ara deus, ostentava a eternidade e muitas vidas, foi descrente todavia na morte, o deus da criação tinha feridas... Foi criado outro deus entre tantos: Aton, o grande sol e deus do Egito, o faraó, que era o rei executor, declinou com seu deus em um grito... O próprio Jesus que era puro amor, hoje é vendido em "bolsas" e templos. Os vendilhões o "pregam" noutra cruz; seria melhor se fosse naqueles tempos. Até Thor desafia seu pai ao martelo, quando o céu se faz repleto em trovão pra disputar o poder e a glória... Acabaram os dois sem razão. Os corpos mutilados em bombas denotam o grande "poder" de Alá, que o Alcorão e Maomé até perdoam, os fanáticos que teimam em matar. A proteção que era só do faraó foi Amon-Rá quem na guerra prometeu ao rei "imortal" das luxúrias, e pela arrogância ele logo morreu. E Mitras, deus persa da luz, que pregava a importância do amor, também já passou em seu tempo envergonhado pelos cultos de horror... El Lanzón, o grande deus sorridente, entocado em sua gruta escura, hoje os enormes dentes caninos estão mortos em sua sepultura... Hoje as plantas estão perecendo, porque Haloc, seu deus, já morreu... Eu não duvido, esse troço é bem antigo, é desde os tempos do Zebedeu. Os que dizem que o Dalai não é Lama, se enganam com as "crenças-moedas", quando pensam que podem voltar, já se vêem em meio às quedas. Digo sempre que Deus é um só, mas eu nunca direi que Ele é Zeus... Até esse pobre com pose soberana, gritava em agonia: "ai, meu deus!"... Quero crer que seu Deus é real, mas a mentira infestou muitas crenças. Levo a sério e respeito os humanos, mas abomino os que dizem ter diferenças... Vários deuses e tantos panteões acabam enlouquecendo a nossa gente, e os que se tornam fanáticos, enfim, pela "grana", um dia até mentem. Quero ver a união desses povos, com "um" Deus marchando pela vida. Vou ficar sem acreditar nas loucuras, até que um dia o mundo se decida... Pobres Deuses.




Domingo, Setembro 12, 2004





"O QUE PASSA"
(Paulo Queiroz)

O que acaba não são os sonhos... Nem o amor.
O que finda é apenas o tempo das coisas...
Um tempo, que naturalmente finito, acaba...
Como uma vida que morre para gerar outra vida...
Como um ciclo que acaba para gerar um novo tempo.
Um tempo diferente, um tempo renovador.

O que acaba não são as esperanças de amar.
O que termina é a ilusão e os equívocos...
O que se finda é uma temporada de erros,
Que termina para produzir novos erros,
Mas que também tem seu tempo para acabar,
Como uma sombra ao pôr-do-sol, que se apaga.

O que finda nunca será amor de verdade,
Pois amor de verdade nunca acaba no fim...
Não acaba no fim como acabam as alegrias.
O que acaba é apenas uma história de amor,
Que ficará no tempo e na memória.
O que passa são apenas os ventos frios...

O que passa é a frieza do coração, que fere,
Que tolhe, que ofende e que fissura o corpo,
Mas que também passará, como a própria vida.
A frieza passará para gerar um novo tempo...
Um novo amor, uma nova vontade de ser feliz...

O que passa é apenas tempo. Tempo que passa...
Tempo que passa para a chegada de um novo tempo.
Um tempo de espera, que durará meses, mas que virá.
Virá um dia, depois do tempo do silêncio.
O que passa não é amor... Não é amor verdadeiro.
O que passa é o que nunca foi amor. E acaba.




Quinta-feira, Setembro 09, 2004





"A PROMESSA"
(Paulo Queiroz)

Um breve instante aqui no Palavra para o sagrado. A Deus, que tudo tem me dado nessa vida. Tem me dado tudo de que preciso para ser feliz, por intermédio de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil e da América Latina, de quem sou devoto, meus profundos agradecimentos. Logo eu, que nunca me dignei a merecer a proteção e as dádivas a mim destinadas, e têm sido tantas, venho aqui para cumprir o meu voto de publicar este pequeno trecho de uma canção lindíssima. Pela magnitude das graças alcançadas e pela fé inequívoca que há em meu coração, e pela fenomenologia relevante que minha mente aspira em razão de viver melhor, mesmo em sobrevivência penosa, Mãe do Céu... Eu, que como todos os mortais, nunca me satisfaço com o que tenho e que é me dado, mas que luto diuturnamente para ser melhor, e digno de Vós. Uma luta que sérá renovada a cada vitória... Porque promessa é dívida.



"MÃE DO CÉU MORENA"
(Pe. Zezinho, scj)

Mãe do céu morena...
Senhora da América Latina
De olhar e caridade... Tão divina...
De cor igual à cor de tantas raças...

Virgem tão serena...
Senhora destes povos tão sofridos
Patrona dos pequenos e oprimidos
Derrama sobre nós as tuas graças...

Amém...




Segunda-feira, Setembro 06, 2004





"QUANDO O FIM É RECOMEÇO"
(Paulo Queiroz)

Começo de vida nova, enfim... Pra ti, pra mim...
O fim rende-se ao recomeço no beijo do sol,
E a saudade e as lembranças nascem junto com ele.
Assim, não permitais, alteza, que a raiva floresça!
Não dê lugar ao ódio em vez da lembrança feliz!
Não é o fim de tudo, alteza! É o princípio de tudo!
Quando tu sentires que o ódio arraiga-se incomum,
Quando veres que o teu amor destituiu-se
Dando ensejo a ele, e quando autorizares o ódio,
A esparramar-se feito raíz sem fim na tua alma,
Examina o teu coração e rebusca os valores do teu amor...
Traz de volta as lembranças do passado feliz
E põe-te a sorrir debruçada sobre o contentamento.
Não permitais que o ódio entre no espaço inocente,
No mesmo espaço onde repousou o amor.
Porque tu, alteza, fostes mui amada... Verdadeiramente.
Não olhes para o chão, no teu novo caminhar...
Procure enxergar sempre elas, alteza, as lembranças.
Elas te farão sentir orgulho do amor que recebestes.
Reduza a repugnância ao morto sentimento, Alteza,
E sejas feliz fazendo do derradeiro, o primeiro amor.
Apega-te às lembranças, alteza... Apega-te!
Porque não há algo melhor nessa vida, não há,
E mais gostoso, do que se apaixonar profundamente...
E a paixão será retomada, no tempo de Deus,
Que é o tempo certo... Que é o recomeço...