PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Sexta-feira, Novembro 12, 2004





"O INFERNO DOS LOUCOS"
(Paulo Queiroz)

Aos que supõem já terem visto todas as escabrosidades que resultam da miséria e da impiedade humanas, avento-os um "convite" que certamente consistirá em, no mínimo, uma variação de concepções pessoais sobre os efeitos abismais da violência oculta. Quando estudava psicologia, em visita ao Hospital Psiquiátrico, quando achei eu já ter vislumbrado penúrias absolutas nessa nossa sociedadezinha de bosta, percebi que meus olhos e o coração queriam saltar para fora do meu corpo, pelas incongruências entre ser e vida, testemunhadas por mim e por outros que comigo estavam... Aquilo era um cenário destroçado pela fatalidade abortiva da natureza mundana, e pelo caráter prisional dos sanatórios, e que emana da violência psiquiátrica disfarçada de Ciência... De truculência e hediondez ocultadas pelo silêncio dos altos-muros do descaso com a saúde mental coletiva no Brasil... Impressionante é aquele inferno da loucura alheia; de uma interminável seqüela de tragédias que se arrastam todos os dias sem justificativas sociais que possam fazer-nos compreender a necessidade do tratamento dispensado àqueles pobres doentes.
Sem a exigência de nenhum padrão ético e moral em relação ao tratamento humano, vê-se, de forma aberrativa, seres humanos entregues às garras mortuárias do tempo, sem sequer, poderem olhar o mundo exterior... Muitos deles abandonados pelos próprios familiares... Pessoas que poderiam ter sido atendidas a nível ambulatorial são simplesmente atiradas ao patamar da loucura não probatória, a partir de prognósticos equivocados de psiquiatras que têm o espírito humano enfiado nos próprios traseiros. Internar é fácil! Tratar humanamente é que não querem! Um absurdo!
Há entre eles, os loucos, um moço, muito inteligente até, que me procurou dizendo: "doutor (segundo a ignorância, basta se estar vestido de branco, ou ser advogado, para ser chamado de doutor) estou aqui porque agredi a minha mãe. Eu, drogadito há 2 anos, sob efeito de cocaína misturada à maconha, não suportei as advertências seguidas que minha mãe me proferia, e num dado momento perdi o controle total de meus atos, agredindo-a. Eu nunca havia feito isso na vida. Sou viciado, mas nunca fui violento, daí, me trancafiaram aqui. Já estou há 4 meses nesse inferno e sinto-me enlouquecido a cada dia que passa". Depoimento de quem, a despeito de ter cometido um crime de agressão contra a própria mãe, não poderia estar naquele lugar consagrado pelo abuso, onde o erro transita como se fosse o dono da casa... Ele estava enlouquecendo de verdade...
Outra série de erronias se caracteriza quando se observam indivíduos com surtos psicóticos sendo pura e sumariamente sedados a peso de comas insulínicos e eletrochoques que furam o mais intimo de suas almas, porém antes, aqueles loucos podres e infames (como os classificam alguns enfermeiros), carecem do "auxilio" dos torcedores de braço, que submetem os infelizes internos ao contorcionismo e à vociferação, pela dor aguda, inaudível ao mundo. Parece mesmo que a dor contende com a vontade de gritar apenas por se querer tanto a liberdade... Muito triste aquela angustiosa revolta íntima daquelas criaturas sofrentes que recebem torturas quase todos os dias, olhando dentro dos seus olhos, sabendo que você é um estranho ali, e pedindo socorro.
Entrar numa região de necropsia, num IML desses que há por aqui, onde o cheiro de morte é insuportável, e sentir que a vida não vale bosta nenhuma, embora choque qualquer um, não se aproxima da triste realidade pútrida das condições cadavéricas daqueles sujeitos VIVOS, desse sistema manicomial desgraçado pela irresponsabilidade da absoluta maioria dos elementos que atuam na saúde pública... O odor de excrementos espalhados por todos os lados é terrível; o estado putrefato das roupas dos doentes em decomposição, e a ausência total de procedimentos higiênicos denunciam o nítido desejo de urgência de que eles morram o mais rápido possível, para o alívio de muitos enfermeiros que são obrigados a estarem ali, todos os dias. Meus escritos aqui podem até possuir um caráter denunciatório, tô nem aí, contudo, é impossível ter um coração e não dizer nada.
O maior inferno do louco, afora as torturas persistentes, é de não poder sonhar, pois, ali, sonhos são sistemática e cientificamente convertidos em pesadelos nos prontuários encardidos guardados até depois de sua morte, e incinerados até, para que os vestígios da maldade se vão junto com a carne morta e massacrada do doente mental. Ali, a solidão pesa no espírito morto de cada um deles, fechando-se à contemplação dos atributos da liberdade, dissorando em suas almas um veneno de ação lenta, que é a própria violência oculta e silenciosa, guardada pelos muros de altura inconcebível e prisional. A vida normalmente não vale muito, e no inferno dos loucos ela vale menos ainda.