"VÊS, MARIA FLOR-DA-SÍRIA?"
(Paulo Queiroz)
Vês, minha querida Maria. Olhes bem. Não é tudo que o verás, não. Esta é apenas a parte que me cabe para contar-te da minha vida nesta selva de subsídios influitivos para se viver bem. De fenômenos... Espies a luz, minha Maria linda! Olha como ela abarca os meus sonhos, e vê como, embora desditoso, o panorama social ainda é mui aprisionador a este solo santo, minha Maria. Vês? Consegues avistar o beijo d'água no céu, amor meu? Aquilo é a cópula transcendental, minha querida. É lá em riba, donde há o apego visceral da deusa nua com os holofotes de raios que vêm dos olhos do deus cobiçoso. Vês? São focos vivos feitos tu, que és Flor-da-Síria...
Aqui, Maria minha, amada, muitos filhos não ambicionam o chão para amar, e nem deitam regularmente as raízes para alimentarem os seus... Aqui muitos são apenas ilustrados pela vã oralidade, perfeita, daquelas que tripudiam os versos e instauram o sofisma como um dogma na alma... Mas, Maria minha, vês: aqui também há muitos que não se cegam tão-só à mediocridade da multiplicação das luzes, nos Natais... Vãos... Há muitos aqui, que nem se pode contar, pois são como grãos de poeira cósmica, que se dão à primazia da multiplicação dos pães: verdade, apreço, altruísmo... Alimentos d'alma.
Olhai! Vês! Tu vês, Maria amada? É como o teu beijo à minha boca... O teu beijo, esse vento hermético... Só meu, porém... Que como garboso mistério me transporta ao espanto das aventuras vernianas. Vês, Maria do meu amor? Vês aquela palha entrelaçada? Ela é o leito que nos receberá em aconchego, em nosso bem-estar amoroso. Vês? Vês como o aspecto celestial singular fascina e faz decair o lugar-comum da poesia amazônica? Vês?
Nesta minha casa, que é tão tua, minha Maria de sonhos, sem luta voraginosa pelo bom bocado, onde há fartura, reina a virtude que nos dará o sentimento de amor infinito, de desejos profundos... Onde os ódios represos pela decepção das provas misérrimas do antigo esplendor, dos tempos faustos de amor a Terra-livre, serão desprendidos...
Vês a cor do chão, Maria minha? Será a cor do nosso sentimento de dignidade moral, que destronará o conformismo dos homens, a descrença, a inimizade, o medo, o desamor... Será a nossa cor de espírito, minha Maria linda de amor. Vês a cor do chão, Maria minha? Vês o meu amor? Vês o largo gesto acolhedor a ti, do meu coração, minha Maria? Vês? Eu te amo!