PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Domingo, Fevereiro 27, 2005





"CONSELHOS DO APRENDIZ AO MESTRE-POLTRÂO"
(Paulo Queiroz)

Seus anelos devem ser outros, mestre-poltrão... Não os conflitos ideológicos, nem as rixas e desavenças. Aplaca o teu coração irascível e acolhe apenas conduzir a poesia e as letras nas asas da liberdade que possuis, pelos sopros que te foram franqueados pela condescendência do Deus-Supremo-Criador... De sorte, deves projetar-te entre os balbucios do teu povo, mestre-poltrão... Acalenta sim o desejo de arraigar-te no literato, todavia, puramente pelo desenvolvimento moral e humanístico do teu semelhante. Se abster-te da abastança causar-te furor, mestre-poltrão, e se falar de teu nome e de tuas obras te promover sofrimento extraordinário, deverás compreender então que jamais serás um poeta de verdade -- tampouco homem sábio, sendo tu já senil, mestre-poltrão --, e dizimarás todos os teus pensamentos desejosos por difundir o amor em versos, em palavras... As poesias... A música... Os cânticos... O romance...
A nostálgica limpidez social de outrora -- a literatura autêntica -- ainda que quebradiça, mestre-poltrão, impulsiona, hoje, em meu ser, o acréscimo de honras às letras, cada vez mais presentes nas metamorfoses humanas... Em nós... Nas transformações das sociedades impudicas de hoje. Portanto, deixa de ser chorão, mestre-poltrão! Pára de ficar que nem ser infante, esbravejando: tu tens inveja! Tu és frustrado! Tu és mal-amado! Deixa disso, irmão! Tu és para mim magnífico, grandioso, admirável. Sentir inveja de ti é coisa infundada; é coisa da tua cabeça hodiernamente deteriorada por um juízo desprezível. Sentir inveja de ti é deveras discrepante; seria como se Reginaldo Rossi (éechaa!) sentisse inveja de Chico Buarque de Holanda -- fato absurdamente quimérico --, posto que não há parâmetros para estabelecer comparação entre ambos; este é infinitamente superior àquele (em arte e primazia) -- a despeito de clichês.
Olha, mestre, deves conceber o seguinte: sê homem! Cessa de dizer: eu conheço este! Eu sou amiguinho daquele! Eu sou influente, aqui, ali e acolá! Eu tudo posso!... Isso é vão, é frívolo, mestre-poltrão... Teus desagravos -- no mais sereno senso poético -- devem é arrastar-te à maturidade (amém!) e à firmeza... Aos propósitos dum homem-literato relutante em manter-se despido do desregramento e do caráter hostil, violento e revanchista. Procura -- com resistência -- adaptar-te aos novos tempos sem lançar mão da vaidade penosa, dos melindres, da suscetibilidade... Tua armadura? Teu norte? Teu elmo? Direi a ti, mestre-poltrão: a poesia e as palavras boas, não o rancor e a amargura de ter sido criticado; o amor e a resignação, nunca a arrogância que corrói diuturnamente a tua alma decrépita; a maturidade ditosa, não a velhice ranhenta que consome a tua carne lânguida.
Resiste bravamente ao encargo de "homem hábil", ó literato-mor... Poltrão. Resiste ao estigma de homem eloqüentemente convincente, que dissemina a ausência de razão aos espíritos mais empobrecidos, sedentos por sobejos desprezíveis -- destes que comumente lhes são impostos. Teu prestígio, mestre-homem-poltrão, deverá sempre ser acrescido às alegrias da vida -- que assim o seja --, entretanto, sem ostentação: o algoz do homem fraco e poltrão... Daquele que não está disposto às críticas -- que murmura sozinho e que, subliminar e recluso, agride vilmente aos que criticam suas obras --, pois, se não queres ser criticado, mestre-poltrão, não faças nada na vida! Recolhe-te aos teus aposentos capsulares para abrigar-te do mundo, e ainda assim, enfurnado em teu casulo de pavor, estarás sempre sujeito a críticas.
Na literatura, mestre-poltrão, a hierarquia é -- ou pelo menos deveria ser -- unilateral... Uniforme... Humana... Tua poesia, tuas palavras, tuas obras, devem ser imortalizadas pelos clamores alheios, mestre-homem-poltrão... Pelos corações "famélicos" de amor e de satisfação... De prazer... Nunca pelo teu próprio pleito. A tua poesia, as tuas palavras, não devem vislumbrar a vanglória, a ignorância... Devem propor categorias, sim, nunca, jamais, estratificação.
Neste universo poético tão encantador, mestre-poltrão, as mãos que escrevem o que quase sempre se quer ler, devem desconhecer os traços físicos evidentes no homem formoso... Devem-se privar da matéria que subjuga, dos rastos medidos pela exuberância... Pela face... Pelo corpo... Pela carne: critérios usuais e predominantes na parcialidade humana... Imunda. Aquele que excessivamente aparece aos outros, mestre-poltrão, é o que logo mais tarde deverá estar esquecido e sepultado nas mentes esgotadas, exaustas do metismo e das infantilidades incabíveis no homem-maduro, mestre-poltrão... Estes são os faustos meteóricos... Os lauréis lacônicos. Entendes?
A poesia, a literatura, são eternas, mestre-poltrão... Os atos, as palavras soberbas e ofensivas assassinam a poesia, a literatura, posto que, se as glórias de um homem se medem pelo seu intelecto, reconhece-se, então, -- na Terra -- um mundo totalmente enlouquecido pela obsessão plutocrata, de poetas e literatos desfalecidos, medrosos, medíocres, pedantes, sofistas, chorões... Justifica, destarte, mestre-poltrão, pela poesia, pela literatura, a própria vida, e reconhece na morte um meio divino... A poesia deverá ser o teu estado, mestre-homem-poltrão; nunca o medo, as porfias, a covardia, o pranto debalde. Conselho dado pro bem deve ser conselho benquisto. Ainda assim, persistindo a tua pusilanimidade semanal, mestre-poltrão, de querer insultar-me gratuitamente, quero que recebas a minha gratidão pelo regozijo que ora sinto -- com desmedida probidade e incomensurável contentamento -- pela certeza de que preencho enormes setores dos hemisférios de tua mente, quando dedicas a mim, sem cessar, -- em páginas alheias e em capítulos consecutivos -- tantas missivas abarrotadas de mormaço. É uma honra para mim, acredite. Receba o meu amor fraternal, nunca o meu asco, mestre-poltrão. Acates o conselho deste prazenteiro, satisfeito, e mui-bem-amado calouro que rever-se em tua resplandecente imagem de mestre-mor. Sê feliz, mestre! Espero por renovados e lamentáveis ultrajes, mestre-poltrão.

(Palavras parcas dedicadas ao homem-mestre-literato, que é poltrão, mas mui diletíssimo).




Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005





"AS INCONGRUÊNCIAS DE MAD MARIA".
(Paulo Queiroz)

A respeito da "super" produção global "Mad Maria", do querido escritor amazonense Márcio Souza, admito que inobstante as raríssimas cenas que representam algum surrealismo, ou que impressionam verdadeiramente o espectador, de todo, o trabalho é exaustivo e recheado de "calhaus" e "opérculos" que são empregados para tampar os buracos durante as cenas chatas que duram "horas" e que culminam com um bloco quase inteiro; isso sem mencionar aquela musiquinha antipática que fica tocando por uma eternidade... Além disso, talvez, a meu ver, "Mad Maria" pudesse ser a melhor produção televisiva de uma adaptação de obras de terceiros da história da televisão brasileira, não fossem as omissões e arbitrariedades danosas patrocinadas por Benedito Rui Barbosa, e que estão aleijando brutalmente a obra de Márcio Souza.
A realidade literária (por assim dizer) contida no livro e que deveria figurar na minissérie, é inicialmente aniquilada pela pertinácia dos diretores que insistem em americanizar o título da obra, quando ao invés de dizerem "MAD" (do dito popular "cumadi" -- porém omitindo-se a primeira sílaba e o "i"), eles empregam de modo casmurro o estrangeirismo vicioso "MED", como se isso significasse, no inglês: louco, doido, demente, etc., o que configuraria então: "Mad Maria = Maria Doida". Muito ridículo!
Essa postura deturpadora, outrossim, alienadora, caracteriza quase tudo o que a Rede Globo produz, e que é de propriedade intelectual de terceiros. "Mad Maria", em verdade, deveria traduzir o sentido "Cumadi Maria", aludindo-se à velha série de locomotivas "Marias-Fumaça", que durante a República Velha, nos meãos de 1911, alavancaram a lúgubre e epopéica peleja de se concluir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, cercada de "tratos" fraudatórios e que ia do vazio a lugar algum, quando as locomotivas receberam tal alcunha (hoje as que restam estão carcomidas pelo tempo e pelo descaso). Ao contrário disso, a Globo tenta a todo custo "internacionalizar" o nome da "Cumadi Maria", defendendo a porcaria do termo "MED".
O que se percebe, de fato, é que o interesse único ou primaz da emissora Rede Globo é o lucro cego, fator esse que nulifica a sua reflexão literária, em detrimento do conteúdo verdadeiro dos romances que a emissora "compra" para aberrar. No caso de "Mad Maria", por exemplo, pelo pouco (pouco mesmo) que já foi mostrado, a Produção da Rede Globo sonega fases e eventos importantes, espoliando elementos contidos no livro, o que não se configura apenas uma "adaptação", mas sim um "aleijão", como eu mesmo disse por e-mail ao próprio professor Márcio Souza, há alguns dias, de quem recebi resposta. As mudanças elaboradas na minissérie, a partir dos atos deliberados de Benedito Rui Barbosa (o que eu duvido que tenha sido discutido com o autor), e que altercam ruidosamente com o que se vê no romance, deixam muitos brasileiros (a maioria, eu diria) que têm verdadeira antipatia pelo ato de ler, alheios ao conteúdo primo do romance "Mad Maria" (não "MED") do talentoso Márcio Souza.
Eu sou muito admirador do autor e dessa sua obra maravilhosa, e como amazonense que sou, sinto orgulhoso de saber que seu trabalho alcançou este tão grande feito. Para mim ele é, além de uma figura muitíssimo humilde, também o maior nome da literatura amazonese; um dos maiores do Brasil. Lamentavelmente parece que o mestre auto vitimou-se da inexorável "surdez" que o acomete, e que se estende, também, à ofuscação de sua "visão", quando não o fazem refletir sobre o erro grosseiro que se vê em seu próprio nome nos créditos da minissérie, que no final de cada capítulo traz os dizeres: "baseado na obra de Márcio de Souza" (um detalhe banal? Não é, não!). Repare que a preposição "de" faz parecer que o verdadeiro autor é um "Zé Qualquer" (o que ele jamais será), reduzindo-o a um escritor que tão-só objetivou o numerário gerado por seu trabalho e não ambicionou o reconhecimento, o que num caso desses poderia ser bem mais importante para a sua carreira.
Sabe-se que a obra "Mad Maria" possui um caráter nababesco, isto é, que retrata a opulência e o fausto que imperavam na época; que ditavam as regras sociais e que contrastavam com as desgraças de milhões de brasileiros, do homem amazônico, e de outros mais que vinham de várias partes do mundo para se submeterem aos riscos de morte trabalhando naquela "ferrovia amaldiçoada", para poder sobreviver da ninharia que recebiam em troca de seu desumano labor. Fico pensando nas atrocidades que os diretores da Globo seriam capazes de fazer com a magnífica obra "Galvez: o Imperador do Acre".
Ficam aqui: a minha sincera opinião sobre o fato, e minha indignação ao intervencionismo abrupto empregado no conteúdo do maravilhoso romance "Mad Maria", e ficam também as minhas linhas protestativas a respeito da inércia do próprio autor, quando concebe que seu próprio nome figure errado nos créditos da minissérie, e que também nada faz para mostrar que a partícula correta do título do livro é "MAD", e não "MED" como eles dizem.
O nome literal do autor de uma obra é fundamental para a sua projeção no mundo da literatura, e o título correto de seu trabalho -- dito e escrito -- é tão importante quanto o seu próprio nome; afinal, trata-se de uma obra brasileira maravilhosa e não de uma tradução de obra internacional, onde se pode avacalhar à vontade os nomes de seu título e de seu autor. Espero, com a minha aparente rugosidade, porém legítima, ter contribuído de verdade para o crescimento da nossa cultura amazônica como um todo e, sobretudo, para o devido respeito e reconhecimento ao estimado escritor amazonense Márcio Souza, de quem muito gosto..