PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Quarta-feira, Março 30, 2005





CUIDADO! FIQUE DE OLHO!

Não caia na "leseira-baré" de ser vítima desses monstros que aniquilam os pensamentos! Não dê bobeira! Não seja capacho da prolixidade! Não se submeta aos desmandos da tergiversação! hehehehehehehehe... Não seja servil da digressão! Não seja besta, utilizando palavras ricas e cultas em seus discursos! Seja medíocre! Seja obtuso! Você terá muito mais futuro sendo um ser simplista e alienado, do que se aventurando ao conhecimento do vernáculo e de termos novos.
Mesmo quando você for dirigir recados ou mensagens àqueles que falam de você na sua ausência, porque respeitam a sua presença, seja objetivo! Não enrole! Hehehehehehe... Quando for falar aos invejosos e débeis, SEJA CLARO! Por exemplo, quando desejar ser o mais conciso possível, mande-lhes a seguinte carta:

"UMA MISSIVA PARCIMONIOSA PARA MORMENTE SOBEJAR O RECEPTÁCULO ESCROTAL DOS INVEJOSOS"
(Uma pequena carta pra encher o saco dos invejosos).

Data vênia, meu ignóbil e lasso desafeto,

Sua pusilanimidade e sua jactância atoleimadas, em tempo algum serão sobranceiras à minha álacre existência. Sua trapizonga e sua vociferação taciturna, que são antagônicas ao meu deleite, não me farão quebradiço; ao contrário, só enrijecerão ainda mais a minha ininterrupta satiríase em meu arrojo de ser lhano... Sua asnática postura de nababo da bazófia, e sua debalde ufania, igualmente suas vituperações de cacófato parvo, fazem-me absolto da galhardia exacerbada. Advirto-o: una-se aos garbosos neste azado ensejo, pois no devir, haverá um tempo de solapadas aos despautérios despropositados dos invejosos.
Converta-se à benevolência e seja um ser de candura reputada, posto que alguns seres humanos considerados como unidades isoladas, opostos à comunidade e aos grupos, ultimam semelhantes a excrementos fétidos. Isto exposto, e havendo negativa à oportuna proposta conciliatória, sobra tão-só um alvitre:
Vá sorver na frincha exterior da última parte do seu intestino grosso, antes que eu me olvide, seu pilhérico filho dado à luz num lupanar! Desloque-se para copular com quem é facultado à pederastia! Detenha-se de me fitar com seus sorrateiros pares oculares simétricos de cervídeo suscetível! E como arremate de tal missiva, meu prezado adverso, anelo que a fração do universo habitada pelos hominídeos e seus análogos, verossimilhantes a você, retirem-se à socapa e, ulteriores, estiolem-se!

Com diligente deferência,

Paulo Queiroz
seu desafeto (por desejo seu).

(Traduzam o resto, hehehehehe...)




Quinta-feira, Março 17, 2005





"O BEIJO IMAGINÁRIO"
(Paulo Queiroz)

Ontem, anteontem, há muitos dias e meses... hoje,
eu dormitava em serenidade, apesar de sonos rúpteis,
e mesmo assim não me desunia do amor.
Na medida em que retomava o repouso, te amava mais ainda...
O teu beijo onírico me trasladava à felicidade...
Eram cenas despedaçadas, dadas a mim em parcelas,
para doer no fundo da minha carne, de saudade.
Tuas frases eram incompletas e codificadas,
incumbindo o meu coração de elucidá-las.
Quando eu sorvia na tua boca o teu amor delicioso,
convertido eu era de fruto apodrecido a homem apaixonado.
Eu te amei muito naquele beijo imaginário.
Se isso for eventual, não desejo mais acordar,
quero permanecer dormindo em você,
Porque as lembranças mitigam os meus sonhos,
especialmente quando eu em sono tranquilo
toco-te o rosto lindo e sedoso de ninfa.
São tantas e tantas vezes que eu nem contaria.
Eu mergulho apressadamente nos teus olhos,
e viajo sobre as nuvens neles magicamente suspensas.
Apraz-me -- quando em sono -- provo-te,
e provar do teu incomparável amor pseudoninfal.
Mas quando intercala-se o sonho com o real,
ocorre-me que tu jamais foste minha de fato,
mas eu durmo de novo, e sonho.
Sonho porque sei que tu sempre foste minha, sim,
e sei também que repouso dentro de ti, hoje.
Devo ir agora, descansar sob a tua imagem aqui em mim,
e devo, de novo, regozijar-me nas gotas que escapam de ti,
e que caem em minha boca apaixonada...
Vou beber do teu júbilo seminal e do teu deleite,
num beijo imaginário desses que fazem um homem
chorar de tanta saudade.




Sábado, Março 12, 2005





"ATEU, GRAÇAS A DEUS!"
(Paulo Queiroz)

Mariano era um senil agricultor dos arrabaldes de Tefé, então pacata e bucólica cidadela de religiosidade forte e de prevalência católica, onde todos no lugarejo tinham uma tremenda confiança nas "coisas de Deus" -- como diziam. Em Santa Tereza então, nem se fala! É a eterna Padroeira do devoto lugar. Os tefeenses eram, à época, um povo "noveneiro" roxo, desses que jamais abandonam suas raízes religiosas. Teodoro, outro senhor, era comerciante do Jutica, povoado próximo a Tefé, e que subsistia dos "ajustes" desta, e sempre viajava para fazer compra de mercadoria. Teodoro era um homem austero e respeitado, assim como o seu amigo Mariano. Ambos cresceram juntos, só que Teodoro era meio áspero no trato com a fé, e até muito incrédulo sobre quase tudo na vida. O homem não cria muito nessas coisas celestiais e nem no sobrenatural... De jeito nenhum! Esse negócio de fé para ele era coisa de quem não tinha nada melhor pra fazer na vida. Teodoro acreditava mesmo era no poder do trabalho. Concebia tão somente que tudo o que se ajuntava na vida não tinha nada a ver com Deus; que tudo era fruto apenas dos esforços humanos. O sujeito era um cabra que fazia de tudo para cortejar a desgraça, os infortúnios, a negatividade... Sempre lastimoso e sisudo, Teodoro vivia a desfazer dos ânimos alheios impetrando nas pessoas o pessimismo e a incredulidade, contudo, mesmo desaprovando a religiosidade e a devoção do amigo Mariano, tinha por ele um grande apreço. E quando conversavam:
- Mas me diga, amigo Mariano, como a vai a Palmira, sua senhora? Conseguiu se livrar daquele sangramento medonho que ela tinha? Perguntou Teodoro.
- Ah, sim, amigo! Graças a Deus que sim! Agora tá tudo nos "conforme"! Graças a Deus! Respondeu o velho Mariano, grato que só ele.
- É, teve sorte mesmo sua senhora, né? Pois eu conheci muita mulher que foi dessa pra melhor só por causa daquilo. Disse Teodoro, meio impressionado com a recuperação de Palmira.
- Credo em cruz, Teodoro! Disse Mariano, se benzendo.
- Graças a Deus minha mulher se salvou e está muito bem! Foi guardada por Santa Tereza! "Nós tudo" lá em casa "fizemo" muitas "novena". Deu tudo certo! Disse Mariano todo orgulhoso em falar na Santa Padroeira.
- Vixe, amigo! Tu ainda continua com essa história de Deus pra cá e Deus pra lá, né? Ainda carrega no pescoço esse montão de terço, é? Ironizou Teodoro, escarnecendo Mariano.
- Mas, mudar pra quê, hômi? As "coisa" com Deus já são um bocado "braba", imagine sem Ele! Aí é que o bicho ia pegar "mermo", num é? Replicou o religioso e fiel Mariano.
- Que nada, Mariano! Deus é apenas um artifício de gente besta, cumpadi! É coisa de gente lesa! Isso tudo é uma besteirada sem fim. Deixa disso, mano! Exclamou Teodoro, já meio invocado.
Já os dois na residência de Mariano, à boca da noite, numa ocasião muito especial, todo mundo ia se chegando e se ajuntando na salinha da casa simples. Tava tudo enfeitado. Era bandeirinha pra todo lado. Era noite de festa. Era noite da novena de Santa Tereza, e Teodoro fora convidado por Mariano, mas não sabia de que evento se tratava.
- Vixe, seu mano! Quando o Teodoro souber disso tudo aqui vai dar o maior pau! O bicho num gosta de novena de jeito nenhum! Ele odeia Novena! Comentou Mariano.
- "Vamo" chegando, Teodoro! Que bom que você está aqui! Cumprimentava o dono da casa, meio preocupado com a provável querela do amigo ateu. E não deu outra.
- É... desculpe, Mariano... mas... é que... eu... eu num sabia que... Titubeava Teodoro.
- Ah! Largue de ser acanhado, hômi! Você é de casa! Dizia Mariano.
- Ta, Mariano! Mas é que você não me falou que era uma novena. Você sabe que eu detesto esse troço?
- Tá! Tá bom! Mas é rapidinho, depois vamo bater um dominó tomando um "gorozinho" e fumando Tabaco de Onça, tá bom? Espere por aí, tá? Pediu Mariano.
- Tá bom! Eu espero! Vá lá pra essa sua cantoria besta, vá!
Êita sujeitinho duro esse velho Teodoro, pois o bicho foi se sentar lá pros fundos do quintal só pra não escutar a cantoria. Acendeu uma esticada de tabaco e foi fumar xingando tudo e todos... Resmungava entre dentes e aos extremos. Não suportando mais ouvir tanta cantoria, o velho Teodoro se afastava cada vez mais da casa. Foi um pouco mais pra trás do quintal, e lá nos fundos, no chão-de-barro-cru-de-tabatinga, perto donde Mariano estava cavando um buraco pra modo de fazer uma nova privada -- posto que a outra já estava cheia de "porqueira" --, havia um velho tamborete, e lá Teodoro foi se sentar. A nova privada mariano cavava dia-sim-dia-não (quintal de pobre no interior é assim mesmo, cheio de privada velha por tudo que é lado. Enche uma, cava-se outra.). A fundura das privadas é sempre de quase 5 metros. Pois bem! O velho Teodoro, sempre resmungando das coisas, ficava aborrecido com a religião dos coitados dos caboclos dali do vilarejo. Não aceitava a existência de Deus de jeito nenhum. Dizia-se ateu abertamente. E enquanto se afastava da cantoria, enfadonho, mais se queixava:
- Que coisa mais chata, colega! Esse pessoal num tem o que fazer não, será? Fica tudo aí cantando feito besta! Parece um bando "Zé Mane!". Ô gente bisonha! O Mariano me paga! Devia ter me avisado que era uma porcaria de uma novena... Filho duma égua! Mas isso num fica assim, não... Ele vai ver quando terminar essa coisa infernaaaaaaaaaaalllllll... (Tchibummmmm).
Minha Nossa Senhora do céu! O pobre do desinfeliz do Teodoro caiu dentro duma privada cheia; ainda tinha muita... muita... como dizer?!... Essa outra privada tava pelo meio de... de... Ah! Lasque-se! Tava cheia de merda! Muita bosta mesmo! Coitado do Teodoro!
- Socorro! Socorro! Algum filho da puta me ajude! Socorro! Gritava o pobre. Mas a cantoria animada da Novena não deixava ninguém ouvir os seus clamores. Teodoro não conseguia sair de jeito nenhum do buraco "até o tucupi" de cocô!
- Socorro! Socorro! Miseráveis! Desgraçados! Tem algum filho da puta aí?
De repente, Mariano ouvindo gritos, alarmou-se:
- Meu Deus! Que gritos são esse? Teodoro! É você? Aonde você tá, hômi? Perguntava Mariano todo agoniado.
-Té que enfim, né colega? Eu tô aqui nessa maldita privada desgraçada! Me tira daqui logo, caralho!
O Mariano gritava que nem um doido chamando por ajuda e xingando tudo. E todo mundo, pelo alvoroço, logo se reuniu com a lamparina à beira da privada, que fedia que só a porra. O povo ali todo curioso ficava lamentando a situação daquele pobre homem todo "emerdado"; só que o Teodoro tava muito puto da vida. E Mariano, sentindo-se culpado, disse:
- Oh! Amigo Teodoro! Me perdoe! Eu nem avisei que bem aqui tinha uma privada antiga, né? Desculpe. Mas também, como eu ia adivinhar que você vinha pras bandas de cá, rapaz? Justificava-se Mariano.
- Tá bom! Tá bom! Deixa essa porra pra lá, vai! Já tô todo "emerdado" mesmo! Me tira logo daqui desse caralho fedorento! Reclamava Teodoro com a boca cheia de merda.
- Tá, eu já vou tirar, mas vê se pára com essa mania de ficar chamando "nome" (palavrão) todo o tempo, né?!
- Tá, eu não vou mais chamar nome nessa porra, não! Mas me tira logo daqui, cacete!
- Cruz em credo! O hômi tá todo "embostado" e fedido, e mesmo assim não tem respeito por ninguém! Eu, heim! Dizia espantada a velha beata Judite.
- Não liga não, cumadi Judite. Teodoro é assim mesmo. Ele é ateu! É meio impaciente mesmo. Justificava Mariano.
- Ah! Então ele é ateu, é?! Perguntava a beata, admirada.
- É! Sou sim! E daí, minha senhora? É da sua conta? Reclamava o Teodoro todo atolado na privada.
- É da minha conta sim! Pois devia ter vergonha nessa cara de merda, meu sinhô! Dizia a "véia" meio invocada.
- Ah! É? E porque eu tinha que ter vergonha disso, hein, mulher? Perguntou ele.
- Porque deveria ser mais agradecido a Deus! Se você tivesse caído dentro da privada nova que o Mariano tá cavando, que está vazia, bem aqui do lado, tinha morrido todo quebrado, viu?! Respondia ela enfurecida.
- Se fosse um pouco mais agradecido tinha percebido que Deus foi quem te salvou, amortecendo sua queda com merda! Completou a beata Judite.
O povo todo ficou ali ficou refletindo sobre as palavras da "véia" sábia, que tava com toda a razão. Quando todos olharam a fundura da outra privada que o Mariano tava fazendo, bem ali do lado da que Teodoro estava mergulhado, ficaram assustados com a sorte que o ateu teve de num ter se "escabrefado" todo naquele buraco de bosta.
- É verdade moço! Você foi protegido por Santa Tereza! Confirmava Maricota, outra senhora que estava lá!
- Que Nossa Senhora de num sei o quê, mulher! Tá doida? Acha que se esse tal de Deus gostasse de mim tinha me metido na maior merda? Insistia Teodoro, na arrogância.
- Adianta não, minha gente! Eu conheço o hômi desde menino! Ele é ateu de verdade! Dizia Mariano, rindo da teimosia do Teodoro.
- É, Sou ateu sim! Exclamava Teodoro, já saindo do buraco de merda, todo podre.
- É ateu nada! Ele tá e com frescura! Gritava a beata Judite.
- Sou sim! E ninguém tem nada a ver com isso! Bando de gente besta!
- É ateu nada! Tá é com besteira só pra se "aparecer!" Gritava a velha Judite.
- Sou ateu sim, graças a Deus!!! Finalizou Teodoro.