"UM CORPO"
(Paulo Queiroz)
O meu corpo lasso desistiu de ser corpo
Pois é refratário à própria vida, inútil...
Não quer sair da inércia, este corpo meu
Porque hoje quer se desleixar num tempo fútil
Este corpo lasso desistiu de ser meu,
Pois a ti pertence, há muito, inteiramente...
Não pode ser mais meu, este corpo teu
Porque é vassalo dum amor inclemente
O corpo lasso desistiu de não ser mais teu
Pois resistindo, à toa, se rendeu, se consagrou...
Não sabe não ser mais teu, este casto corpo
Porque, pedaço de nada, a ti se acorrentou
"MANACÁ-BAAHA-Y"
(Paulo Queiroz)
No dialeto Mura, "Manacá-Baaha-Y" quer dizer: "a flor mais linda do mundo", que é a própria Manacapuru: a "Princesinha do Solimões"... Manacá é uma cidade muito legal pra se descansar e curtir um pouco a vida longe da agonia cotidiana desse "projeto de metrópole" que é a minha Manaus... Fazer música é uma das atividades artísticas do meu diletantismo que mais amo nessa vida, despretensiosamente, bem longe de querer ser famoso ou merda desse gênero, hehehehe... E por amar escrever canções, como faço todos os anos, escrever músicas para Manacapuru -- que sempre me acolhe muito bem -- é o meu modo de prestar tributo ao berço de uma das mais significativas festas do nosso Amazonas: o Festival de Cirandas de Manacapuru, que acontece em agosto, cujos idealizadores e promotores merecem a minha sincera gratidão...
Tenho inúmeros motivos para estar feliz, especialmente porque por mais um ano (o quarto consecutivo) tenho um número expressivo de canções aprovadas nas Seletivas que ocorrem anualmente e que são regadas a muita festa naquela cidadela gostosa. Neste ano, para o próximo Festival, tive a honra e a alegria de contemplar 10 canções minhas -- das 14 que inscrevi -- e de meu eterno parceiro Erison Pinheiro, figurando na lista das músicas aprovadas para o CD oficial de 2005. Canções escritas com o mesmo amor e dedicação de sempre, peculiares deste caboclo aqui... Obrigado, Manacapuru!!!!!
Ei-las:
1) "Pelas Mãos do Criador"
2) "Manacá-Baaha-Y"
3) "Senhora Mãe de Manacá"
4) "Mura: Os Ciganos Aquáticos"
5) "A Origem da Flor-do-Amor"
6) "Tempo de Celebração"
7) "Canção de Amor à Alteza" (essa é especialíssimia)
8) "Do Coração da Terra"
9) "Nostalgia de Cirandeiro"
10) "A Voz do Novo Tempo"
Que o tempo voe bem depressa, para que possamos curtir, em agosto, as delícias dessa festa grandiosa e linda.
P.S.Agradeço também, orgulhosamente, o convite dos dirigentes deste evento, a mim dirigido, para acompanhar as gravações do CD em estúdio. Obrigado!!!
"LÂMINA"
(Paulo Queiroz)
O que corta a cara e faz ruir um sorriso
Não é o fio da lâmina, e sim o oco do tempo.
Aqueles desejos antigos de fazer andar sem rumo,
E de ordenar o caminhar entre milhares de espelhos,
Se vão pobres com um vento vadio e sem vestígios.
Entrecortado está este espírito só e infeliz,
Que reflete inúmeros ferimentos de agudeza.
E essa boca nua e fria oscila entre o céu e a morte.
E os olhos são vacilantes entre ficar ou partir,
Cravando o maldito nada nestes pensamentos...
A partida é como uma saudade sem remédio,
Feito lâmina que mergulha na carne e some,
Transpassando a própria angústia e a alma...
É feito punhal de fogo ardido no coração fendido,
Encerrando o brilho do olhar, mormente murcho.
Lâmina de fio perfeito; corpo sem contemplação.
Tempo teimoso que sulca a face e as palavras,
E goteja amargura na voz fria desta poesia...
Uma lâmina de incisão infinitamente capital,
Que marca o corpo com o rastro do desgosto.
"A BUNDA E O SUBMUNDO DAS AFEIÇÕES"
(Paulo Queiroz)
Dia desses, numa grande loja no centro de Manaus, eu presenciei uma cena grotesca protagonizada por um vendedor daquela loja, um sujeito de desequilíbrio moral impressionante. Um pobre indivíduo que não soube controlar a sua satiríase, as suas vontades e manifestações orgânicas, e acabou se lascando.
Loja cheia; o infeliz atendia a um determinado cliente quando, de subitâneo, notou que uma mulher gostosona andava pelas dependências da loja, bem ali na sua frente. Ela trajava-se de um modo, digamos, não tããããooo insinuante assim, todavia, suas formas corpóreas naturais denunciavam sua silhueta perfeita e protuberante, sem mencionar aqui a transparência razoável de suas roupas. Bonita mesmo era aquela moça. Chamava muito mesmo a atenção da macharada que circulava por ali. Os olhos daquele vendedor, bem como de quase todos os homens estavam lá (certamente eu não seria a exceção, por força da necessidade de "apenas" apurar o fato, claro, hehehehe...), ficaram esbugalhados... Nunca vi tantos homens ao mesmo tempo num mesmo trecho de uma loja. Que vergonha pra nossa classe, heheheheh...
Enquanto as coisas aconteciam, o cliente esperava informações sobre o funcionamento do aparelho que comprava naquela hora, e eu lá perto, apreciando tudo... Num susto, e aborrecido, o cliente percebe que o vendedor estava desatento porque olhava alguma coisa por ali, então, virou-se também para ver do que se tratava. Aquele senhor olhou para aquela bunda bonita e bem forjada e voltou o olhar espantado pro rumo vendedor, que rapidamente quis dar uma de boçal e tentou "empatizar" com o cliente, dizendo:
- "Meu patrão", o senhor por acaso já viu uma dona mais gostosa do que essa? Olha o tamanho da bunda dela.. Ah! Eu nem sei o que faria na cama com uma mulher linda assim! Foi aí que ele se lascou de vez...
O cliente, muito invocado, puto da vida, em cima da bucha disse:
- Não, eu ainda não tinha visto, não! É uma bunda muito linda mesmo, foi exatamente por isso que eu me casei com ela!
Caramba! No mesmo lance em que disse isso, o cliente, enfurecido, já foi logo metendo a mão na orelha daquele vendedor tarado... A gostosona em questão era a esposa dele que estava um pouco distante andando pela loja apreciando os produtos, descontraidamente -- e se exibindo também, é claro -- enquanto ele comprava um aparelho de fax. Só sei que foi um acontecimento surreal aquela confusão toda que se deu dentro daquela loja; até polícia teve na parada. Acreditem! Foi realmente uma coisa de doido... Eu nunca havia presenciado uma situação daquelas...
Depois de tudo, avaliando tal acontecimento, cheguei à inferência de escrever sobre esse tema tão azado: uma bunda bonita e as coisas que um pobre macho é capaz de enfrentar por ela. E como desfecho daquele evento malfadado, conclui -- depois do meu espanto -- que entre a classe dos varões (meus similares) o desejo sexual impetuoso se principia por um simples e apetitoso olhar... Pode-se dizer que numa mirada sem desvios, e na esguelha dum olhar vadio, assenta-se a desmedida ambição do macho pelas ilhargas de uma corpulenta e "bunduda" fêmea. Parece inevitável....
Uma espiada, um soslaio desproporcionado de apresentamento, entre outras impudicas manifestações da nossa ávida raça masculina, bastam para o cabra ficar arretado. Para o varão, não há nada mais delicioso do que uma mulher de anca bonita, carnuda, apetitosa, avantajada, hehehehe..., e aí é que o bicho pega... Muito comumente mesmo a contemplação masculina evidencia-se quando se avista uma fêmea aos reboléios intencionais pro rumo do sujeito; aí é difícil se conter!
Partindo de tais assertivas, cabem aqui algumas indagações pertinentes: como se manter exato e firme num cenário desses? Donde caberia a resistência racional em tal ensejo? Que providência um indivíduo degenerado pela satiríase (tara) poderia empregar numa hora de tamanha apetência sexual? Seria mesmo possível ao homem um dia abrigar postura apropriada diante de uma bunda bem forjada? Difícil mesmo responder, não?
Então... não se pode dar repúdio com hostilidade absoluta àqueles que, contrariando a moral, manifestam apetite incontrolável por um traseiro carnoso... não mesmo. Mas bunda sempre será somente bunda, certamente. E daí, como fica o resto do conjunto? Eis onde reside o problema. O macho, "encegueirado" pela famélica vontade de sexo, não costuma empregar critérios apropriados na escolha de uma parceira. Ao contrário das mulheres (não é uma regra), que infinitamente mais comedidas e prudentes, não se dão ao léu, sem que primeiro façam algumas "verificações" de praxe. Entre os homens, os princípios que mais pesam na maioria absoluta das escolhas, são apenas: bunda e beleza física (estou aberto a discordâncias).
Há os homens que advogam veementemente que o resultado feliz de um relacionamento -- no casamento, por exemplo -- se dá, sobretudo, pela beleza física... Que a felicidade plena reside na exuberância e, especialmente, na capacidade da fêmea exercer voracidade sexual indescritível na cama... Na capacidade d'ela fazê-lo gozar inúmeras vezes numa mesma ocasião copular... Segundo a linha de pensamento defendida pelos tais, o tesão produzindo pela satisfação visual recíproca traz à tona o verdadeiro amor por intermédio da afeição sexual, por este (a afeição sexual) ser o primeiro de todos os afetos humanos, segundo pensam alguns. Será mesmo? Tenho muitas e nítidas dúvidas a respeito.
Como se deu com o vendedor narrado nesse fato real, acontece cotidianamente com muitos de nós por causa de uma bunda bonita. Sem hipérbole, já li sobre cabras que beiraram a insanidade por causa de gurias que possuíam bundas belíssimas. Um absurdo! Lembro-me que o sujeito deixou mulher, filhos, familiares, amigos e tudo mais para trás, apenas para poder dormir suas noites sobre uma garupa avantajada. O cara não suportava nem ouvir a voz dos amigos com medo das repreensões e dos conselhos... Estava ele cego de paixão, ou tesão, como queiram.
De tanto ser aturdido e apegado àquela bunda, o cara não consentia ver -- quando andava ao lado da mulher na rua -- os demais machos olhando para aquele traseiro bem feito. Ficava possesso o homem. Tantas foram as vezes que ele fora detido por se meter em confusões por excessivo ciúme, que se perdia as contas. Foi processado algumas vezes por agredir quem se metesse com a sua "bunduda", entre outras complicações geradas pelo seu apego àquela carne.
O que se sabe é que aquele moço, desnorteado pela bunda de sua amante, viu seu céu ruir pouco-a-pouco sobre sua própria cabeça, e de tão enlouquecido que estava ficando, acabou cometendo um ato terrível por causa de seus ciúmes mórbidos. Tudo por causa daquela bunda maravilhosa... Ele acabara matando banalmente com um tiro -- enquanto bebiam -- um de seus melhores amigos, por que este fez um comentário que o desagradou, sobre a bunda de sua amásia. O homem não se conteve e já interpretou logo que o seu amigo estava de olho na bunda de sua mulher. O matou impiedosamente.
Como conceber que o mundo é imenso e que a humanidade é farta de bundas e de parceiros, podendo-se escolher para si -- entre as inúmeras que há -- uma, e até mais, sem carecer matar, agredir, enlouquecer? Como dissuadir um indivíduo no sentido de evitar a loucura e a cegueira por causa de uma mulher gostosa? Como fazê-lo enxergar que a sua própria vida é muito mais do que um corpo bonito de mulher, e um rosto encantador? Não parece uma tarefa fácil, de jeito nenhum! E não é! O fato é que muitos de nós deixamos de viver dignamente por causa de uma paixão fulminante, sobretudo por causa da carne... da bunda... E às vezes isso pode ser fatídico, trágico... Que o diga aquele pobre vendedor narrado aqui. Veja-se o caso do cantor Belo, por exemplo, que para não cair de padrão e não correr o risco de perder "aquela" bunda lá (e que bunda!), achou conveniente vender uns quilinhos de "pó" e tornar-se um magnata do narcotráfico. Se ferrou! Tá no "xaxado", vendo o sol nascer retangular, e por lá espero que permaneça pelo menos uns 732 anos; por duas razões óbvias: por ser traficante, e por cantar umas músicas horríveis!
Portanto, penso eu que há de se refletir sobre a existência de características e valores muito mais vantajosos no conjunto de uma mulher do que apenas a sua bela bunda, ou o seu belo rosto... se há... Há de se avaliar o conjunto de uma mulher como um todo, sua personalidade, seu caráter, sua dedicação para com a vida, seus sonhos, seus desejos, etc... Beleza não é tudo, embora seja importante, e -- por assim dizer -- quase sempre seja este o fator que engendre as escolhas das pessoas. Mas, inda que se proceda numa escolha criteriosa, se ela -- a bunda bonita -- já vier nesse conjunto como parte inseparável (acontecimento deveras singular, sabe-se lá o por quê) ótimo!