PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Segunda-feira, Maio 23, 2005





"O MANIQUEÍSMO À BEIRA DA MORTE"
(Paulo Queiroz)

Muita gente (e até a própria história) não sabe, mas, há uns 25 anos -- e eu me lembro muito bem, embora fosse um pirralho -- , lá nos beiradões do interior do Amazonas, quando morria um indivíduo as coisas funcionavam assim: primeiro, como em quaisquer eventos fúnebres, velava-se o defunto com ritos de suplícios nas primeiras horas de falecido; depois, com o avançar do tempo, as pessoas costumavam conversar a respeito de tudo que era assunto e que fosse interessante para mantê-los acordados e presentes no velório. Se o finado fosse uma pessoa "do bem", ou mesmo se fosse "do mal", isto é, se em vida tivesse sido um homem de respeito e bem conhecido na comunidade, e se fosse uma pessoa trabalhadeira e honesta, ou se tivesse sido um canalha, um bandido, etc., em ambos os casos dava-se valor total à alma do cabra. O cortejo era "considerado".
Quando chegava a hora de enterrar o extinto, do "bem" ou do "mal", o ataúde era lacrado para ser aberto apenas minutos antes de baixar à cova. Um detalhe: todo mundo que "batia as botas" era velado na própria casa, ao contrário de hoje, que se velam os mortos, do bem ou do mal, em funerárias. Naquele tempo, no interior, não existia esse tipo de serviço. Hoje as pessoas não desejam mais velórios em casa, porque têm medo de "assombração", de "visagem", do bem ou do mal.
Independente de onde morasse o finado, o cortejo saía de sua casa até o cemitério como se fosse uma procissão: todos a pé, e nos interiores do Amazonas só há um cemitério em cada cidade. Não se deveria levar o caixão em riba de carro, pois isso era considerado desrespeitoso ao finado. Tinha-se que selecionar 4 amigos dos mais "chegados" para carregar o caixão durante todo o trajeto até o cemitério, às vezes revezando-se com outros sem para tal deixar o caixão no chão. Trocava-se de "carregador" com ele suspenso mesmo. Durante o cortejo, todos os estabelecimentos comerciais que haviam por onde passava o féretro, fechavam suas portas até que o último membro do cortejo passasse. Isso representava o respeito que se tinha pelas almas, sendo o finado uma pessoa do "bem" ou do "mal".
No cemitério, no momento do enterro, a prioridade para aproximação do caixão era dada às pessoas mais próximas da família do morto. Formavam-se filas circulares para que todos pudessem se despedir do finado. Abria-se novamente o caixão, pela última vez, e se executavam rezas e cantigas religiosas, o que promovia a comoção dos presentes. Depois de alguns minutos baixava-se definitivamente o caixão à cova. Terminava-se então o funeral, todavia, depois de algum tempo, alguns ritos deveriam ser cumpridos para o "bem estar" da alma do extinto.
Depois de no máximo seis meses do funeral, o barro que formava a elevação na cova onde fora enterrado o morto, deveria ser substituído por uma sepultura oficial com lápide e cruz. Por quê? Porque, segundo criam naquele tempo, se a alma do homem tivesse ido para o céu, aquele monte (a elevação de barro) sobre seu corpo estaria com a formação ainda sinuosa, isto é, estaria como ficou quando ele foi enterrado, e ele então seria do "bem". Se, ao contrário, o barro houvesse erodido, ou seja, se tivesse afundado sobre o defunto, significava que ele fora para o purgatório, e era do "mal". Nesse caso tinha-se que rezar durante mais seis meses muitas missas em sufrágio da alma do infeliz, para a purificação da mesma, só assim ele teria direito ao céu. E haja crença.
Hoje tudo é absolutamente diferente num rito funerário. Mesmo que o indivíduo tenha sido especial, sua morte não parece mais se representar com simbolismos e outras manifestações de antes, e que davam valor à alma. Talvez pelas mudanças na dinâmica do mundo, ou pelos valores citadinos que não nos permitem mais valorar um evento assim como a cultura nos sugeria antes, ou talvez pela ausência de religiosidade. Sei lá. O fato é que se um indivíduo morre hoje como um criminoso, um bandido, aí é que as diferenças se sobressaem.
Por exemplo, com o crescimento do tráfico de entorpecentes aqui na tribo, todos os dias se matam inocentes e morrem bandidos. Ou morrem os meliantes em porfias por causa de pontos de drogas, ou morrem em lides travadas com a polícia. O fato é que a mortandade tem sido crescente por aqui, e as notícias são ininterruptas, tanto que o número de programas de rádio e televisão que exploram essas desgraças tem subido vertiginosamente. Tenho verificado, e já são quase 5 programas diários cobrindo a morte de pessoas inocentes e de bandidos. E todos feitos por políticos.
Não raro se vê e se ouve: "morreu ontem o bandido Carlos cara-de-rato, que trocou tiros com a polícia e levou a pior, graças a Deus!", dizem os repórteres. Ou ainda: "Rodrigo Arigó", mais conhecido como "olho-de-jabuti", foi trucidado por dois bandidos motoqueiros, a mando do traficante "Beré: o buchudo", que o fuzilaram enquanto este comia numa lanchonete"... São muitas as manchetes que os programas do gênero destacam aqui diariamente. Programas que preconizam a desgraça e pouco fazem pelas mudanças necessárias no sentido de resolver ou amenizar a criminalidade em Manaus.
Outro dia um destes tais apresentadores, na televisão, disse: "graças a Deus que esse vagabundo morreu crivado de balas! Agora eu quero ver os Direitos Humanos virem cobrar um funeral digno pra ele, que já matou muitos inocentes. Ele tem mais é que ser enterrado em pé, para economizar espaço no cemitério!". A população, cansada de tanta violência, de fato ouve isso com certo "contentamento", embora a barbárie não seja desqualificada... Embora o "bem" não tenha vencido o "mal"...
Aqueles que se valem de factóides, se sensacionalismos, de impressionismos para "catar" votos com promessas de eliminação da criminalidade em Manaus, no Brasil, e que se vestem de capa de super-homem para parecerem salvadores da pátria, não têm idéia real da dimensão dessa problemática: o crime.
A violência crescente não deve ser atribuída a classes de pessoas, a categorias sociais, como fazem estes caras em seus discursos. Essa situação não deve ser rotulada como "bem" e "mal", mas deve ser atribuída, na verdade, aos desmandos destes malditos políticos filhos da puta, ignorantes e ao mesmo tempo "espertos", que ludibriam, que iludem, que mentem deslavadamente porque a eles interessa que a violência exista e se desenvolva, para que sejam ainda mais poderosos.
À medida que cresce a violência na sociedade manauara, incham-se também os lares de indivíduos sem instrução e igualmente ignorantes, que desistem de estudar para barganhar possibilidades mais "fáceis" de prover seu sustento, seu conforto. E a criminalidade, seja de que gênero for, não está arraigada apenas na sociedade miserável, não, como equivocada ou providencialmente advogam alguns políticos mal-intencionados que falam nas rádios e na TV todos os dias. A violência está presente também (e como nunca esteve), nas altas rodas, donde os tigres comem, bebem e se fartam escondidos dos pobres urubus, que sobrevoam esperando os seus restos. Não há mal! Não há bem! Não existe o maniqueísmo! O que há são classes dispersas, desunidas por interesses comuns (possuir), porém, através de meios (poderes) distintos.
Um tal Comendador Eustregésilo de Santana Klein, por exemplo, que morreu longevo, tranqüilo e de morte natural, aos 93 anos, e que fora um homem "bom" para a sua sociedade (ou para os seus?), e que contribuiu para o desenvolvimento de seu povo (ou de sua família?), não era muito diferente do Rodrigo Arigó, mais conhecido como "olho-de-jabuti", que morreu agonizante e precoce, com 29 tiros de metralhadora, aos 21 anos, e que era "mau", porque matava bandidos iguais a ele e porque pagava propina à polícia que o matou, e o matou justamente porque um outro "boqueiro" -- mais "forte" do que ele -- pagou mais para os "gambés". Só que este, o "Rodrigo olho-de-jabuti", não contribuía para a sua sociedade, como fazia o Comendador Eustregésilo de Santana Klein...
O Comendador, tendo sido "bom", fora enterrado no Cemitério Israelita, e recebeu a mais alta pompa em seus ritos fúnebres. Até os governos bancaram seu funeral. As coroas de flores, que custavam entre R$ 400,00 e R$ 700,00, chegavam aos montes, e eram tantas que o pátio da funerária mais parecia um jardim edênico. Aquele dinheiro todo daria para comprar toneladas de alimentos e de livros para aqueles que os pilantras chamam de "desvalidos". O Rodrigo "olho-de-jabuti", por sua vez, que era do "mal", fora enterrado como indigente no Cemitério do Tarumã, cuja plaqueta-de-cova, fincada pelas mãos sofridas da mãe de um dos adolescentes que foram viciados pelo finado, indicava: "que o peso dessa terra não sufoque a tua maldita alma, como a tua existência sufocou a minha vida, seu desgraçado".
Eis o fenômeno do "bem" e do "mal", estabelecido pela espécie "homo escrotus" (o mais fuleiro espécime de gente que já existiu). Eis o fenômeno que resulta no ódio mortal dos homens, à beira da morte.




Terça-feira, Maio 17, 2005





"TAMBOROCO"
(Paulo Queiroz)

Sou a raiz que está fincada numa terra
Cujo Deus inunda de fogo vivo e de esplendor
Sou um selvagem que derrete estas palavras
Pra conceber a poesia mais bonita
E que cuja amada não deseja desvendar...

Eu vesti de trova o corpo dessa minha canção
Que não tem mais a melodia de outrora
E toquei rufos de amor pra suplicar:
Não faz zoada, pois o amor ainda dorme!
Deixa o silêncio passear na minha alma...

Eu vou esperar até que o som seja de novo
A sinfonia que o meu coração sonhou
E vou estar como raiz na mesma terra
Que os teus pés deixaram quando ela chorou...

Tambor... Tambor... Tambor... Tambor...
Tambor oco que despeja sons aos ventos
Tambor oco de Amazônia que te quer
Meu grande amor que volta como a voz do tempo
Que traz consigo a linda forma de mulher...

Meu coração, escute os compassos do tambor...
São de regresso pro meu corpo, apressação...
Ela voltando, Amazônia, como um abraço
Em passos livres e delicados de uma bailarina
Como uma luz que dança suave sobre as águas




Segunda-feira, Maio 09, 2005





"AS HIPÉRBOLES DA PAIXÃO"
(Paulo Queiroz)

O que é a porra da paixão, senão, uma infausta configuração política do egoísmo e da excentricidade humana... É uma imitação servil de regras estabelecidas pelo diabo para "atentar" a vida dos indivíduos que estão relativamente quietos, indisponíveis... A paixão é uma incursão à contenção cotidiana entre dois estúpidos envolvidas em perspectivas tolas de um querer absolutamente questionável.
O que é a porra paixão, senão, uma profusão epidêmica de tempo e de palavras dirigidas a alguém que logo se escafederá dando lugar a outrem... É um conjunto de regras desleais dilaceradas pela dúvida e pela irresolução, quando não, pela covardia patente de um ou de dois lesos...
O que é a paixão, senão, uma realidade que gravita em torno de um círculo vicioso muito pouco encorajador, e que adquire penosamente formas medíocres sob o olho da leseira-baré... O que é a paixão, senão, um complexo de sensações que agem aquém daquilo que se poderia esperar de sua vivacidade sentimental, tão ovacionada pela poesia... É a incapacidade de saber escolher entre o certo e o errado... A paixão é a opção cega de caminhar por trilhas tortuosas e diametralmente opostas ao tempo, à razão e à realidade...
O que é a porra da paixão, senão, uma realidade pueril e irracional, que embora dure um tempo lacônico, mas suficiente para difundir a insensatez na alma -- tal qual as palavras da oração: eu te amo -- se desfaz a qualquer ventinho vagabundo e efêmero...
O que ela é, a porra da paixão, senão, o usufruto das prerrogativas do idiotismo aplicadas à vida de dois néscios que julgam equivocadamente um enlace ser para sempre... Uma negligência culposa que conduz dois indivíduos à carência e à ausência absoluta de entendimento, e à falta de senso apurado de conhecimento racional...
O que é a paixão, senão, um conglomerado de motivos banais que jamais motivam uma visão compensadora de futuro feliz... Uma ilusão que faz enxergar o demônio montado em uma alegoria infernal, regozijando-se ante a duradoura possibilidade de permanência das hostilidades no devir passional...
O que é a paixão, senão, um distúrbio que atravessou séculos, fecundado pelo ódio e fundido na herança da imoralidade humana... Uma vermelhidão de incêndio dentro do espírito, que anima a contenda e o ciúme, e que despojado de associações dialéticas, da dialógica, do discurso, anuvia os olhos e produz embates terríveis onde não faltam nem o insulto pessoal e nem as alusões não jocosas mútuas...
O que é a paixão efêmera, senão, o estilhaçar dos fundamentos do amor verdadeiro e o sufrágio de pleitos e altercações futuros... É a herança da ingenuidade dos nobres, e do ódio que explode com maior intensidade na decadência dos humilhados e dos ofendidos dentro dos relacionamentos...
O que é a porra da paixão, não? Senão, uma burla, um baldo sentimento lisonjeiro e capital, que apenas nos faz crer na esperteza do outro, em detrimento da nossa ingenuidade... O que é a paixão, senão, surtos de eloqüência de alguém de ânimo enganoso, bem no nosso pé-do-ouvido, proporcionando fantasias e discórdias, sem comparecer depois para dirigir a intriga que criara...
O que é a paixão, senão, a chama da tolice que esparge luz a duas pessoas que se fazem cegas dando vazão à abertura do infernismo... O que é a paixão, senão, um ajuntamento de pretensões à segunda vista, de alguém que se mostra preliminarmente angelical, e sem desviar o curso das nossas tragédias, põe-nos à beira do precipício e pede que pulemos nele sem que ela conceba culpa alguma por este ato...
O que é a paixão, senão, um jogo de intenções dualísticas que reboca o azar e o atraso, depois de algum tempo, invocando o fatalismo e a triangulação: saudade-desejo-ódio, abrindo as comportas da vergonha de ter-se querido tanto alguém... O que é, enfim, a paixão, senão, a certeza decepcionante de ter-se querido demais um alguém, e tê-lo, hoje, tumultuoso, dissimulado e de índole perversa, de brutal recusa em socorrer um coração doente de saudade...
O que é a porra da paixão, senão, uma mentirinha bem elaborada sob o pretexto de gozos, da distração alheia... Uma imbecilidade bonita... Uma besteira... E você ainda vai concordar comigo um dia!




Quarta-feira, Maio 04, 2005





"RESPONDE-ME, MINHA PARCA AMANTE"
(Paulo Queiroz)

E se eu me forjar um amante sem medidas, e conceber que tu és a minha deusa, despida, fêmea de desejos e esperanças? E se eu transcender àquelas velhas formas de amar, somente para tê-la aqui dentro como se fosse uma gelha na face feliz do meu coração? Teria eu o teu amor para sempre? Ou te farias morte para os meus sonhos de homem? Responde-me, minha parca amante.
E se eu escapasse da reputação e preterisse as coisas mais essenciais que construí ao longo da vida, somente para cortejar-te, seria eu feliz? Ou estaria condenado aos eventuais pesares de te esperar numa inquietude de saudade e sofreguidão? E depois, se eu me entregasse como se não houvesse alternativa para viver, e acreditasse piamente que tu és vida, sendo deusa, parca, e se tu me dissesses insistentemente que me amas, e me pedisses o corpo, a alma, o espírito como presentes teus e, como num logro, me surpreendesses com comportamentos pérfidos? E então, eu morreria? Responde-me, minha parca amante.
Admita: dei-me a ti, como se dá a um deus a oblação mais perfeita que há entre os mortais; sofri, todavia... Hoje, brado súplicas tão silenciosas, em solidão, como se meus gritos não alçassem aos céus, e sem forças para subir, caíssem em meus próprios ouvidos, como ao Rei Davi ocorreu. E num regresso triste, gritos de amor... de remorso... talvez de fúria... de morte...
Mas, é lastimoso isso, não? Sim, pois, senão, lembra-te, quando pedistes o meu amor e a minha vida? Eu indaguei-te, num evidente despreparo para a paixão: e se tudo o que eu sonhei, tudo o que construí, tudo o que criei, imaginei, se tudo isso contrariar os teus desígnios e projetos de vida? E se todos os meus amores forem postos de lado, os amigos, a família, por teu amor? Tudo por ti, como será? Serei recompensado com a tua presença constante nas lacunas da minha carne? Ou dirás: o amor tem dessas coisas, não se pode prever sua longevidade... Dirás?
E se eu chorar te esperando, e de nada que eu faça consiga saber onde estás? E se, ainda assim, não haja, ao te encontrar, aplacação para os instantes de aflição e saudade; devo prantear, ou recolher-me ao conformismo de que a escolha foi minha? O que farei?... Diz-me, minha parca amante... E se num sonho mui aprazível, regozijante eu, de fato, ver-te minha amada-nua? E se eu gozar duma esperança desmedida, do sentimento mais frugal, e no despertar tu te fizeres parca? E se tu te vestires de morte de amor, como farei depois? Diz-me.
Responde-me, minha parca amante: o que devo pensar do medo? O que devo pensar da inaptidão para o amor? Ensinarás a mim suportar o sofrimento por ti, meu amor? Ensinarás a mim acolher inerte e indolente a morte da minha alma? Ou, fria'mante, dirás: a escolha foi tua?! Dirás? Se fores dizer-me, digo a ti antes: não devias ter-me pedido amor, minha parca amante.