"AO TEU SINAL"
(Paulo Queiroz)
Ao teu sinal mais desconhecido e oculto, ao som mínimo que se propagar a partir de teus toques suaves, e dos teus balbucios, eu estarei aqui... Ao rasgar dos dias, nas manhãs mais sombrias e escuras de tuas tristezas e desilusões, quando descobrires que a chama que procuras acolá sequer possui semelhança à labareda de vivacidade que cá repousa; quando perceberes isso, eu estarei aqui... No entardecer mais infeliz, no ocaso e na decadência do sol, quanto tu espiares o horizonte sem laivos de fingimento, onde o fim do mundo beija o começo do nosso amor, e o começo do nosso amor abraça os nossos sonhos, eu estarei aqui... Ao menor sinal de tuas procuras e ambições, nas noites estranhas e desacompanhadas, e quando tu te deres à conta de que aquele homem, em tempo algum, será capaz de te ofertar a ternura e a afeição que transportam uma mulher a mais elevada das sensações, e quando sentires que ele jamais poderá fazer-te experimentar dos beijos que eu te dei, eu estarei aqui... Quando da madrugada fria, apática, deprimida, e quando o silêncio prorromper-se ante a tua face saudosa de alteza enjeitada, eu estarei aqui... Minha mensagem, sempre clara, alumiada pela franqueza e pela lealdade sem receios, expõe a minha intenção de sempre querer estar aqui, quando tu sentires saudade e vontade de amar... Quando ouvires as palavras dos injuriosos, dos invejosos, quando fores atraiçoada pelas armadilhas triviais do equívoco, e quando sentires o dissabor das aproximações perniciosas, tu serás capaz de saber distinguir a verdadeira lealdade, permanente, perene, sincera, da perfídia que se mascara diante de ti, e eu sempre estarei aqui... Ao teu sinal mais turvo e nublado, e ao teu sinal mais tácito e ofuscado, eu estarei aqui.
"AD LIBITUM"
(Paulo Queiroz)
Toques que não se questionam em nada... Roupas dilaceradas...
Amor voraz, gerido pela derivação da pressa e da sofreguidão...
Uma agonia temporal que deverá morrer com a entrega plena.
Mas a pressa atormenta o já afligido corpo pela falta do tempo,
e pelo medo da perda dele... do tempo do amor...
Entre os corpos há uma desconfiança crescente
de que haverá fragmentação abrupta do conluio amoroso...
Estranhamente por tanto querer... no compasso do tempo...
Pobres amantes amedrontados pela paixão...
Medos crescentes do parcelamento do fogo veemente...
E no avançar dos instantes, os anelos se fazem muito mais fortes...
Nódoas em peles se confundem com as marcas salientes dos apegos...
E no friccionar brando e violento das carnes protuberantes,
enfim o reclinar forçado pelo peso suado dos corpos...
E em humores aquosos de poros dilacerados dão-se ao leito...
Uma calmaria intermitente e lacônica,
num resgate impetuoso do prazer...
Minutos e segundos contados para findar...
Apenas para olhares de amor...
Profundos como a certeza de possuir um ao outro,
e de que se pertencem de fato... E pela ânsia dum gozo vindouro...
E os amplexos fortes, porém, mitigados,
revelam o sossego de quem está agora à vontade...
bem à vontade... Suspirando em um arraigar íntimo de prazer.
São brados fartos... e gemidos concomitantes.
Sentimentos inexplicáveis dum gozo agradável,
de quimera interminável.
O amor se de faz, de fato, a forte e dominante sensação ultra-orgânica
que se principia pelos olhos e posteriormente emudece...
De prazer... inexplicável... o gozo... à vontade.
"SOBRE DEUSES E PRAZERES"
(Paulo Queiroz)
No universo das palavras que fundam o romanesco, há uns que dizem que deuses são cantores inventores da lira e da harmonia... Outros defendem que deuses são simplesmente poetas. Existe até quem advogue que deuses são amantes bem sucedidos que alcançaram o vértice do sentimento mais perfeito, por tê-lo tanto tempo esperado, daí, a contemplação de serem deuses...
Não me sinto humanamente capaz de crer em algo exato nesse sentido, nem a respeito do que pensam estes, nem sobre o que pensam outros tantos. O que penso é que deuses amam e sorriem quando sentem prazeres intensos e poderosos.
Prazeres que se descrevem assim: como quem entra num mundo desconhecido de angústia e medo, e acha que nele vai habitar para a eternidade, depois, contudo, consegue enxergar um fio de luz, não obstante tenro, faz sorrir e acreditar no novo. Faz acreditar que no futuro -- ainda que distante --, se possa também ser um deus que atingiu a perfeição no amor, por tanto esperá-lo.
Creio que deuses sentem prazeres, e creio que são prazeres semelhantes a gozos múltiplos, que desfalecem o corpo, como nos próprios deuses... Prazeres daqueles que deixam as veias túmidas e os poros lacerados, como os que eu experimentei àquele corpo desfolhado pela ânsia da entrega sem medidas... Creio que são prazeres semelhantes aos beijos que eu experimentei àquela boca deleitosa que atirava sabor de esperança para dentro de mim...
Se deuses são cantores, se são poetas, se são amantes, ou se são simplesmente homens que esperaram por um amor que chegou [regressou] -- ainda que pelos rumos da dilação --, estou convicto de que também serei um deus... Meu amor há de volver [chegar], mesmo chegando carregada pela azáfama comum dos dissabores do desamor, ou trazida pela tardança que resulta da espera e da empáfia... Sentirei os mesmos prazeres dos deuses, outra vez.
Sobre o que pensam acerca de deuses, não duvido... Mas creio profundamente que os prazeres dos deuses são puros e límpidos. São verdadeiros e longevos... São realmente duradouros... Como os prazeres que habitam [aqui] em mim, e que sequer olvidei.
TEMPO DE SER BRUTO:
"CRÔNICA PARA AS CRIATURAS DA IGNORÂNCIA"
(Paulo Queiroz)
A ignorância, segundo se pensa, pode ser facilmente explicada por duas vertentes usuais não tão verazes como se costuma apregoar. Acha-se, na sociedade, que o ser ignorante é aquele que exterioriza atitudes danosas como, a brutalidade, a truculência, a indelicadeza etc., independente do grau de instrução que o indivíduo possa ter. Eu até concordo com o emprego desse conceito para o caso, porém, ao meu ver, isso não corresponde ao que se deveria entender perfeitamente sobre a matéria, como se verá adiante. A outra forma do senso-comum caracterizar a ignorância -- sendo esta a mais próxima do que realmente é a verdadeira ignorância -- é se referir a um indivíduo como sendo ele "burro", insipiente, sem instrução, alienado, "analfa" etc...
Não parece ser difícil lançar mão desses dois conceitos para expressar a capacidade de se ser ignorante. Parecem perfeitamente adequados para a situação. No entanto, mesmo considerando-se a semelhança que há entre as condições mencionadas acima e a real condição de um ser ignorante; há de se observar a principal diferença entre as conceituações. Ser ignorante, na verdade, não é exatamente o que foi descrito. Ser ignorante -- no seu sentido literal e terminante --, observem: é possuir conhecimentos sobre determinada matéria e, em eventos de natureza adversa ou consoante com um tempo normal, -- de acordo com a conveniência do sujeito -- fazer-se indiferente ao discernimento, à razão, à serenidade e ao autocontrole, em detrimento de outras pessoas.
Em outros termos mais elucidativos, seria o mesmo que saber perfeitamente que não se deve agredir ou ameaçar uma pessoa e mesmo assim fazê-lo, em razão de seu desejo de querer ser o mais valente, ou simplesmente pela vontade da desforra ou vingança. Ou ainda, por razões ridiculamente banais, querer-se insultar ou ameaçar a outrem pelo fato de "não se levar desaforo para casa". O homem constrói máximas patéticas para tentar advogar em causa própria. Esta é uma delas: "bateu, levou!". É formidável a capacidade de sermos ignorantes, mas, acreditem, considerando-se os fatores genéticos, históricos e psicológicos, nem temos tanta culpa assim.
Somos criaturas concebidas com certa carga de estupidez. Somos seres ignorantes quanto ao que deveríamos de fato saber sobre a brutalidade, a raiva e o ódio... Muito comumente escutamos frases frívolas elaboradas pelo próprio homem para expressar pontualmente a sua ignorância: "fulano é incapaz de matar uma mosca"; "sicrano tem cara de quem é tão calminho" etc... Essas orações ilustram a nossa incapacidade de perceber algo que somente Deus o poderia: a frágil aptidão do homem ao autocontrole.
Acho que o próprio Deus, quando idealizou os seres humanos, estava num momento furial de sua existência. Certamente, Ele deve ter pensado: não obstante ser esta a minha obra mais ornada de completude, não farei deste espécime um ser completamente perfeito. Deixarei que algumas falhas não evidentes sejam próprias dele, para verificar sua capacidade de pelejar pelo próprio aperfeiçoamento. Deus só poderia estar brincando, se de fato procedesse este meu raciocínio. O fato é que daí deu nisso: o homem... Se eu fosse aqui enumerar os defeitos que Deus permitiu coabitar em nós, não terminaria hoje. Nós, com as nossas manias, com a nossa falsidade e desejo de enganar os outros, nossa soberba, saímos por aí com as nossas "caras de bonzinhos" e o nosso comportamento de "santinhos", mas, diante da adversidade é que revelamos os "demônios" que Deus permitiu ficarem encravados no nosso espírito.
Eu mesmo já andei querendo meter a mão na cara de um sujeito que ameaçou meu filho, quando ele ainda tinha 10 aninhos. Um ex-traficante que, incomodado com o futebol das crianças, na praça, e não suportando o barulho da algazarra dos moleques, por seleção, escolheu justamente o meu filho para acuar. Se lascou... Meu guri, ameaçado, chegou em casa tremendo e assustado, me relatou o fato. Eu cego, surdo e mudo, encorajado pela imagem da minha criança trêmula e apavorada, saí instantaneamente à caça do referido indivíduo. Quando o encontrei, fui reclamar a mesma valentia dirigida a meu filho. O cara mudou totalmente de postura e negou tudo, mas os outros moleques acusaram ele, na lata! Disseram que ele havia dito que daria uma surra de cinturão no meu filho, caso a bola que jogavam tocasse nele. Eu disse: "se você relar a mão num fio de cabelo do meu filho, viro a sua pele do avesso, seu filho da puta!"... Aquele machão que gosta de ameaçar crianças, deixou rapidinho de ser machão, e quase caga nas calças.
Inegavelmente eu fui estúpido. Não posso deixar de admitir que minha fúria foi marcante, e que ao invés de um diálogo (nessas horas parece impossível), o melhor a ter feito seria ter ido à Delegacia prestar queixa dele. Não o fiz. Ele, por sua vez, prestou. Para quem passou 8 anos na cadeia, por tráfico de entorpecentes em Porto Velho (RO), e para quem -- segundo sua "considerada" ficha -- cometera, na mesma cidade, Crime Contra Criança e Adolescente, e estava em liberdade condicional, o cara me pareceu um bocado petulante, indo me acusar falsamente.
É mesmo inconteste que nós somos capazes de tudo para nos estabelecermos nessa vida. Dizer que "pela minha família eu mato e morro", eu não saberia afirmar se é uma alegação coerente ou não, embora me pareça legítima. O que acho é que violência não justifica violência, mas, somos incapazes de autocontrole.
Deus permitiu desenvolver-se em nós o poder de sermos violentos sem que nós mesmos saibamos do que somos capazes. O homem ataca para se defender, quando deveria agir de modo inverso. Exemplos nítidos dessa atitude são notados no trânsito do nosso cotidiano arrebatado, especialmente aqui em Manaus, onde o calor que carboniza a moleira dos caboclos parece fomentar o desejo do ódio por qualquer futilidade. O trânsito de nossas cidades parece ser a escola ideal para o "aperfeiçoamento" do nosso caráter brutal de ser humano. É aí que a nossa desmedida demonstração de não-serenidade e deseducação se manifesta notadamente.
Um indivíduo, aparentemente tranqüilo, dirigindo pela via esquerda de uma avenida de grande fluxo de Manaus, à velocidade aproximada de 30 Km/h, falando ao celular e dando risadas cínicas como se estive doido pra mandar os demais motoristas tomarem no rabo, não permitia que ninguém o ultrapassasse. Uma mulher que estava logo atrás, impaciente (com certa razão), nervosa mais com o fato de ele estar ao celular do que propriamente com a sua velocidade e abuso, buzinava continuamente. Os demais, estimulados por ela, também buzinavam muito, causando um rebuliço infernal no trânsito.
O cara, já puto da vida com as buzinadas, se sentiu intimamente insultado. Parou de subitâneo o seu veículo, fazendo com que a mulher batesse por trás, e mais dois outros veículos sucessivamente, engavetando-se em baixa velocidade, e já foi logo dizendo: "vai buzinar no ouvido da tua mãe, sua filha da puta!". A mulher, em imediata resposta disse: "filha da puta é a tua mãe, seu corno!" (as mães é que se lascam nessas horas).
O ajuntamento de pessoas, com ainda mais buzinadas, começou a se fazer absurdo, quando de repente o sujeito avançou na moça e meteu-lhe a mão no pé-de-ouvido. Só que o bicho pegou pro lado dele quando uma dezena de outros homens furiosos o cobriram de porrada. A cena daquela moça caída, dada a violência do tapão daquele machão, acometeu os outros indivíduos de ódio e indignação, fazendo-os avançar sobre o agressor, cuja situação, após as porradas que levou, o deixou muito parecido com o Recruta Zero depois que o Sargento Tainha pula em cima dele. Eu já tinha visto de tudo nessa vida, exceto um homem encher uma mulher de porradas por causa de briga no trânsito. É a escatologia mostrando as caras.
Cenas como essa acontecem todo-santo-dia aqui na tribo, mas uma coisa me chama atenção nesse contexto, a qual eu não posso me furtar de falar, embora eu também leve algumas porradas por isso. Eu já viajei muito pelo Brasil, e como sou muitíssimo observador, lamentavelmente afirmo que a falta de respeito (no trânsito) dos habitantes da cidade de Manaus é patente e indiscutível, muito mais do que em outros lugares. O desrespeito à Legislação de Trânsito é tão impressionante que, segundo dados estatísticos do Denatran, de cada 10 motoristas aqui da tribo, 07 (sete mesmo) têm mais de 04 pontos subtraídos de sua CNH. São dados alarmantes, eu diria.
Entre a postura indecorosa e merecedora de repúdio da maioria absoluta dos motoristas, estão: os corriqueiros avanços de sinal; as mudanças de faixa sem sinalizar; o ato de jogar porcarias no meio da rua na maior cara-de-pau (até latas de cerveja etc.); dirigir com o som nas alturas, como se o carro fosse um puteiro, e como se os outros quisessem ouvir as músicas imundas que geralmente se colocam; pôr (no caso das conduções escolares) crianças em absoluto perigo durante infrações muito comuns no dia-a-dia; desrespeito aos pedestres por parte de muitos motoristas de ônibus, que, feitos uns cavalos arredios, maltratam idosos, crianças e mulheres; taxistas sem a menor vergonha nas fuças maltratam seus passageiros e os colocam em perigo, sem contar com a cara-de-pau de estacionarem subitamente em qualquer lugar, a tempo e a hora que bem desejarem; motoristas com película de escuridão acima do permitido, em vez de 25%, trafegam com escuridão de 100%, e a Lei, inerte, apenas espia, caladinha.
Um dos mais imorais aspectos do nosso trânsito, na minha opinião, são os veículos que fazem a chamada "lotação". Nunca vi coisa mais horrenda na minha vida. São absolutamente brutos e meliantes estes caras. Se você for trancado por um, e passar ao lado dele, por favor, não olhe na cara do sujeito, sob pena de ele matar você. Acelere e fuja imediatamente. É assim o dia-a-dia da nossa gente: norteada pela desordem e pelo niilismo social.
Sinceramente, eu gostaria de poder olhar com mais otimismo para o futuro que se guarda à humanidade, todavia, o cenário ruidoso que se engendra pelo avanço da violência no nosso estado, especificamente, sinaliza que os costumes foram corrompidos pelo desejo da vingança e da extravagância dos sentimentos mais irascíveis, em razão de se querer sobreviver neste mundo tão aturdido.
Todos nós -- por excelência natural de nossa condição humana -- estamos sujeitos aos rompantes que derivam do nosso cotidiano, e aos rancores duradouros que nos conduzem a um universo de padecimento e amargura, todavia, a violência e a brutalidade, aliadas à ignorância, podem ser a pior de todas as moléstias humanas.
Ignorância, em verdade, em sentido estrito, penso eu, é conhecer as normas e leis que regem a relação social entre os homens e, por força da estupidez humana, preteri-las nos momentos da adversidade, invadindo o espaço dos outros, ameaçando-os... É ser sabedor e consciente dos direitos alheios, e ainda que os seus direitos sequer tenham sido desrespeitados, você agrida violentamente alguém. Isso é ignorância de fato. Será que definitivamente se re-inaugurou o tempo de sermos brutos, como em outrora?
"SAUDADE AMAZÔNICA"
(Paulo Queiroz)
(do romance amazônico "Águas Viajantes" (em composição).
Ele a percebeu com os olhos atentos, pregados no céu (...). A face delicada estava nitidamente orvalhada por lágrimas que desciam em gotas de saudade antecipada... Parecia ela saber que aqueles eram momentos não mais renováveis. Sentia prazer intenso por estar ao lado de seu caboclo amado, mas sofria nitidamente pelo correr do tempo que urgia de conspiração contra os dois amantes.
- Por que tamanho assombramento com este céu, minha pequena? Perguntou ele.
- Hã?... O que você disse, amor? Falou ela, distraída.
- Eu perguntei por que você está tão espantada assim, com os olhos grudados ao céu! O que você está vendo nele que te prende tanto assim?
- Ah, sim... Claro! Como poderia não se ficar tão admirada com tamanha lindeza? O céu daqui é completamente diferente do céu de outros lugares... É incrível! Tudo muito diferente lá das brenhas donde eu vivo! Justificava-se ela sem desgrudar-se da luminosidade celeste.
- Como assim, diferente? É tão azul e espelhante quanto os demais, meu amor! Retrucou ele.
- Não, meu amado! Não é, não! Bom, se eu fosse mesmo explicar como deveria, eu teria que fazer uma infinita explanação, mas penso que há uma sensação mágica de que as nuvens estão prenhes em todas as suas formas. Até parecem ninfas pejadas de liquido fértil de tanto amor... Disse ela, chorosa e cheia de ternura, como quem quisesse ficar pro resto de seus dias aqui com ele, na Amazônia...
- Nossa! Eu, caboclo, como não me orgulharia dessa sua apaixonante descrição do meu lugar? Retribuiu.
- Orgulhe-se, meu amor! Tudo aqui é muito lindo... Tudo aqui inspira eternidade, longevidade, prazer... Tudo aqui é muito parecido com você. Finalizou ela, apaixonada.
Dessa forma amável narrava aquela mulher ao seu namorado caboclo. Ela que veio do frio, donde o carenciamento de agasalho é indispensável para a vida, como um feixe de varas secas para alimentar o calor... Sentia que tudo nessa terra era feito de fogo incessante; tudo era diferente das paragens donde ela vivia. A menina encantadora e alva como a açucena espiã, fez-se sonhar futuros mais elevados naqueles momentos...
Aquela menina-moça amigara-se com a selva de corpo e alma, fazendo daquele selvagem a razão de ser de sua vida. Foi tão profundamente apaixonante aquele apego do caboclo pardo e da alva menina, que o olhar capiongo da moça sorvia os acordes do vento desse Norte aprazível. Eram tantos os assobios zéfiros ao pé-de-ouvido, daqueles ventos que engoliam o resto da tarde que envolvia os dois, ao Deus-dará do amor (...).
Os piscares de olhos pidões, e os suspiros interrogativos que os instigavam ao gozo punham-nos, de repente, numa relva convidativa para o reclinamento e para o pleno amor. Ele, então, carinhosamente começou a alisar a pele delgada daquele rosto lindo de alteza, depois, deitou-se sobre seu corpo macio e entorpecente, molhado de prazer, e que era projetado por uma forma lavrada de corpo ainda em floração... Mas ali, aquele corpo fascinante era despetalado em seu desabrochar pelas mãos inábeis de amor daquele matreiro apaixonado. Beijou-a profundamente, o caboclo, como se agradecesse a Deus por ter encontrado a fortuna (...). E do ventre satisfazente daquela mulher, em pleno apogeu da paixão, fluía a fragrância do amor puro, como o que se desprendia das árvores observadoras dali de perto... Era o silêncio da boca da noite, nessa terra de lonjura (...).
Ali, terra e mato, homem e mulher, testemunhavam o envolvimento do índio com aquele tesouro adormecido há muito: sua amada pequena... Era um novo começo de mundo (...). Às vezes, pelo faro aloprado do índio, assim como o das feras, notava-se esturro de onça, gemido de bicho, e outros barulhos estranhos por perto, mas, caboclo que é caboclo sempre anda preparado, além de que a própria terra-mãe protege muito bem os amantes que e valem do seu manto para amar em paz; e selvagem valente de verdade protege a sua amada do perigo... Até as cobrinhas peçonhentas com seu "arreto" infernal, e que o caboclo sempre varreu no terçado e no cacete, não se abestalharam à intromissão naquela oferenda de orgia sagrada amazônica... Eram somente o caboclo e sua sertaneja amada (...).
(...) E quando ela se foi, aquele caboclo sabia que seria para sempre... Apenas uma única estrela, solitária como ele, velava a imensa tristeza do índio; e no infinito brilhava apenas a paz da natureza, mas a própria paz daquele homem não mais havia. Seu amor partira para nunca mais voltar. Restara tão-somente um pôr-do-sol diferente... queixoso... Um tempo mesclado ao arco-íris descolorado que prenunciava trovoadas, como o que fantasiava, naquele momento, o emurchecer agônico daquela tarde de despedida. (...) E para incrementar ainda mais a sua dor de amor, houve a perturbação do seu silêncio (...). Era o cântico estridente da acauã agourenta que golpeava-lhe o íntimo com a marca do desespero e da solidão (...). A saudade poluía o seu interior, mas nem firmava um pouco de esperança de um dia ele rever a sua amada. (...) Ficou, o caboclo, pelo assobio da despedida, no insulamento da selva escura da saudade-brava que engolia seus pensamentos felizes de horas anteriores (...). Nunca mais ele reviu o seu amor, porém, entrega seus pensamentos sem restrições às suas lembranças dela... Todos os dias de sua vida.
"JUANITO FOI PARA O ESCURO"
(Paulo Queiroz)
(Baseado em fatos verídicos)
Querido Monsenhor José Maria,
Vejo tão-somente o senhor o homem capaz de ler estas palavras que escrevo, sem ter que procurar elementos para apurar as minhas loucuras. Sua imparcialidade e suas provas de amor fraternal, ao longo de sua vida, me fazem conceber que o senhor é justo e verdadeiro, e estou certo de que poderá compreender meus motivos doravante expostos.
Estou só, Monsenhor... Aliás, acho que sempre estive só, depois dos inúmeros desentendimentos que apartaram meus pais. Por favor, Monsenhor, compreenda-me, eu não desejo aqui fazer campanha denunciatória contra meus pais, mas, quero confessar minhas angústias e arrependimentos sem ter que ocultar os motivos que me encorajaram a entrar nesta escuridão que em encontro hoje.
Se eu pudesse dizer essas coisas diretamente a meus pais, eu o faria, mas, não tive nem oportunidades para tirar dúvidas simples da vida... Se pelo menos eu tivesse sido dissuadido sobre o caminho que escolhi... Se tivesse conhecimento, antes, sobre os malefícios que a droga causa na vida da gente, certamente não estaria nesta escuridão.
Meus pais sempre estiveram muito ocupados nestes últimos meses. Estavam se empenhando em convencer um ao outro sobre quem estava mais errado a respeito de seu fracasso matrimonial. Eu muito os procurei. Muito desejei tê-los como antes tive. Eu desejava muito ter eles só para mim... Sou filho único, como o senhor sabe, e foi assim que me acostumaram. Sempre que os procurava para esclarecer minhas dúvidas, era preterido, ficando para outra hora que nunca chegava.
Daqui a quatro dias é Natal, Monsenhor; eu me recordo com muito carinho dos Natais que passamos juntos todos nós, e que foram maravilhosos, onde eu sempre celebrava ao lado de meus pais as minhas vitórias na escola... Sempre sorriamos juntos, eu e meus pais. Neste ano, realizei o maior sonho deles, e meu: entrar para a faculdade e fazer o curso que sempre sonhei... Sempre sonhei ser advogado, juiz...Sempre me achei muito inteligente, mas... ai... ai... nossa Mãe do Céu, como dói todo o meu corpo... dói muito mesmo...
Sabe, Monsenhor, me lembro das festinhas de fim de ano que o senhor realizava lá na igreja, e que foram muito marcantes... Lembro-me de quando fui coroinha nas missas de domingo, e que enchiam os olhos dos meus pais de alegria e contentamento... Lembro-me de tantas coisas boas, mas que, paradoxalmente, me matam ainda mais...
Querido Monsenhor José Maria, peço-lhe, por favor, que entregue esta carta aos meus pais. Sei que vou morrer, por isso, peço-lhe que a entregue após seu entendimento pleno sobre os fatos que vou narrar aqui. Digo-lhe isso porque agora... agora tudo já passou de vez... É tarde demais... Não há mais jeito.
Meu caro Monsenhor, como eu gostaria de poder encontrar forças para dizer a meus pais: sinto muito, meu pai... Sinto muito, minha mãe... Sinto tanto por tê-los feito de otários... Acho que esta conversa é a última que terei com vocês. Sinto muito mesmo...
Sabem, meu pai, e minha mãe, já é tempo de vocês tomarem conhecimento das verdades da qual nunca suspeitaram, ou nunca quiseram suspeitar... Eu soube, por força das circunstâncias, disfarçar muitíssimo bem as mentiras e as falsidades sobre o meu real comportamento.
Enquanto vocês decidiam sobre suas importantes vidas, e pensavam que eu estava me dedicando aos estudos, quer dizer, eu acho que pensavam, vocês não souberam observar a minha vida, que é agora menos importante ainda....
Oh, meu caro Monsenhor, como eu gostaria de poder ter forças para dizer direta e claramente aos meus pais: a droga me matou! É horrível! Eu estou no fim, meu pai e minha mãe! Eu estou no fim... Vocês sabem como tudo aconteceu? Não! Não sabem! E sequer um dia perguntaram. Mas eu vos direi:
Foi um homem muito elegantemente bem vestido, e que tinha de sobra eloqüência, garbo, e muita segurança nas palavras bonitas que me dizia. Foi esse homem "bom" para mim quem me apresentou minha futura assassina: a droga... Foi esse homem "bom" quem me preencheu as lacunas que a ausência de vocês, meus pais, produzia na minha alma aflita... Foi ele, esse homem "bom", quem saciou as carências mais imediatas que eu tinha. Foi esse mesmo homem "bom" que me surgiu na vida no momento mais "exato" que eu precisei, mas foi ele também, o mesmo homem "bom", que me largou aqui, nesse leito porco e imundo de hospital, no fim dos meus dias.
Pois é, papai e mamãe, eu tentei... Tentei de verdade, mas tentei muito mesmo recusar as "viagens" que o homem "bom" me oferecia... Tentei recusar, baseado nos ensinamentos sobre princípios que outrora vocês me deram... Só que eu precisei de mais forças para permanecer firme no propósito de não aceitar as malditas "viagens", as "viagens" sem volta, e quando eu fui buscar com vocês as forças para manter-me limpo, não as encontrei. Apenas encontrei meus pais enfraquecidos e deteriorados pelo orgulho comum dos homens...
Sabem, pai e mãe, além do mais, aquele homem "bom" mexeu com meu equilibro de homem, com meu brio, dizendo que eu não era macho porque sentia medo de usar drogas... Ele disse que eu era covarde porque tinha medo... Pois é, mas agora, não há medo maior do que o que eu estou sentindo nesse momento.... Sinto medo de morrer...
Não preciso dizer mais nada, não é? Ingressei no mundo das drogas de corpo e de alma... O mundo das fantasias malditas. É isso mesmo... O mundo das fantasias malditas que carregam a gente suavemente para o lado mais escuro que há.
No começo foram apenas as pequenas tonturas, depois vieram os devaneios, em seguida surgiu a escuridão... a escuridão... A mesma escuridão que está aqui comigo, nessa cama. Quero lhe pedir desculpas, Monsenhor José Maria, por ter escolhido o senhor para ser o segundo a descobrir as minhas desgraças solitárias, porque o primeiro fui eu mesmo.
Sabe Monsenhor, sabem, meu pai, sabe minha mãe, eu não conseguia fazer nada sem que a maldita droga estivesse presente na minha vida... Sentia uma enorme fissura no peito. Achei que a droga era indispensável pra mim como o próprio ar que respiro. Só que depois, como o próprio ar que respiro hoje, ela veio me faltando, aí, tive que roubar, que enganar mais pessoas, para poder ter a droga. E sabem o que veio depois? Veio a falta do ar verdadeiramente, e era cada vez mais difícil respirar, aí vieram o medo e as alucinações, depois sempre vinha a terrível euforia, e a fissura novamente... A droga sempre me fazia sentir sempre maior e melhor do que as outras pessoas, assim como vocês, pai e mãe, quando discutiam sobre suas razões.
No começo da minha "viagem", as drogas estavam bem ali, diante de mim, as drogas e o homem "bom". Mas, o senhor e a mamãe, não, vocês sempre estavam muito distantes,ocupados discutindo suas vidas e suas velhas razões. Já ele, aquele homem "bom", era o meu grande "amigo" inseparável. Ele sempre sorria para mim quando eu me sentia triste...
Sabem de uma coisa? A gente no começo condena tudo e todos... reluta e considera tudo um absurdo. A gente acha que vai ser apenas daquela vez e nunca mais... A gente sempre acha tudo ridículo, inclusive considera que Deus não passa de um mero embuste para idiotas... Só que hoje, aqui neste hospital, eu reconheço que Deus é o senhor mais importante da minha vida finda... Eu sei que sem a ajuda dEle, eu sequer teria forças para escrever esta carta...
Estimado Monsenhor, Papai e mamãe, podem acreditar que a vida de um viciado em drogas é terrível... A gente se sente dilacerado e oco por dentro. Já não tenho mais forças para dar três passos sem que me canse. E sabem o que mais? Os próprios médicos dizem que vou melhorar e ficar curado, mas quando saem do meu quarto balançam a cabeça e lamentam com pena de mim... É, eles fazem isso sim. Tentam disfarçar, eu vejo pelo espelho....
Papai e mamãe, eu só tenho dezenove anos, e sei que não tenho a menor chance de sobreviver... Mas, antes que eu nem possa mais, a vocês e ao meu amigo Monsenhor José Maria, eu tenho apenas um último pedido a fazer:
Por favor, procurem todos os jovens que vocês conhecem e mostrem a eles esta carta... Digam-lhes que, em cada porta de escola, em cada cursinho, em cada faculdade, em cada balada, em qualquer lugar desse mundo, sempre haverá um "homem bom" que irá mostrar-lhes a sua futura assassina... Esse "homem bom", lhes apresentará a destruidora de suas vidas, e que os levará à loucura e à escuridão da morte, como levou a mim.
Digam-lhes, por tudo o que for mais sagrado na Terra, que sempre haverá um maldito "homem bom" que servirá de guia para o caminho da morte... E que eles, os jovens, tomem muito cuidado, e que os pais, possam esquecer suas diferenças e mesmo que tenham que engolir sapos e seu próprio orgulho, que eles saibam honrar o nome de "pais".
Por favor, façam isso, Monsenhor, meu pai e minha mãe. Eu já sofri demais. E perdoem-me por fazê-los sofrer também nesse momento, pelas minhas loucuras. Adeus meus pais... Adeus querido Monsenhor... De seu filho querido...
O ancião, Monsenhor José Maria, lendo estas palavras de Juanito, chorou como nunca antes havia chorado, e depois de algumas horas de ter escrito esta carta, Juanito faleceu.
"Cada pai deve ser um Cristo... Cada mãe deve ser uma Maria, e cada filho deve ser um discípulo. Assim, feliz dos pais cujos filhos possam ser seus exímios imitadores. Feliz dos filhos, cujos pais possam ter virtudes para serem imitadas" (P.Q).
Publicado na Revista da Arquidiocese de Belém-PA / fev/96)