"TEU POEMA, FLOR-MORENA'"
(Paulo Queiroz)
Os meus olhares sedentos pousam sobre o teu corpo,
e todos os meus sentidos te espiam num delirar mútuo
em instantes de profunda e íntima atenção contínua.
À noite vigio o teu corpo e deleito-me na tua beleza.
Cheiro o teu hálito bom e aspiro tranqüilidade em tua paz.
Acosto-me a ti e escuto a tua respiração lenta, sem pressa...
Sem pressa como um lamento que jamais lamenta.
Minhas mãos quentes percorrem a tua pele acetinada, linda.
Fecha os teus olhos, então, procurando apenas sentir...
Sentir o meu desejo crescer em ti, e o teu arfar se elevar.
Como é bom a minha boca sentir o teu gosto de amor...
A minha boca que encaixa na tua boca quente e úmida.
Bom é sentir a minha língua se fundir à tua língua.
É como se à tua boca desejasse agregar-se o meu espírito.
Adoro sentir o cálido cheiro do teu corpo quente de amor,
oferecendo-se como numa espécie de orgia com pudor.
Minhas mãos percorrem, centímetro a centímetro,
todos os recantos dos teus encantos, e, de subitâneo,
se encontram sobre o teu ventre quente, dolente.
É você que me possui; não eu que te tenho minha...
É você que me tem todo, minha amada flor-morena.
"QUANDO O HOMEM SE ENVENENA"
(Paulo Queiroz)
O homem envenena o próprio corpo. Envenena quando se permite ingerir substâncias amargas, como o gosto lacônico dum prazer leviano, e quando se entrega à guia cega da subestimação do mal. O homem envenena-se também quando bebe o sangue turvo da sedução, transubstanciado em néctar deleitoso, contaminado, porém.
Envenena-se o homem quando copula sem restrições, à revelia de sua própria alma e de seu próprio coração, e quando se veste da inevitável precipitação, que é degenerativa e abrevia a vida. Até num simples beijo o homem envenena o seu corpo, quando deste beijo engole o desgosto, a mentira, o dissabor da pressa, cujo desfecho leva à peregrinação e ao suplício.
Envenena-se também o homem quando come da carne impura, enferma. É quando o seu corpo conhece o veneno mais potencialmente letal de todos, que é o produto da imaturidade humana; daí o homem permite escorrer o que lhe sobra da pureza do corpo, e a sua própria vida, pelas calhas da sofreguidão.
Não é o tempo que nos mata, mas a falta dele é que nos põe a dormir e jamais despertar novamente. Não é a solidão que nos apresenta a amargura, mas sim a vaidade que resulta da voracidade humana. Não é a velhice que nos conduz ao fim do caminho, mas o veneno que flui da ignorância é que passa a iluminar a nossa frente, quando estamos ébrios e nos reclinamos em leito estranho, sob a luz sombria duma lua falsa e triste.
Quando nos entorpecemos com o poder letal das matérias desconhecidas, nos envenenamos também. E quando choramos a amargura do desencanto amoroso, e deixamos nossas lágrimas verterem à boca, envenenamos o nosso coração com o perene medo de amar de novo. E quando amamos o espírito errante, por ignorância, por carência, envenenamo-nos ainda mais, para o resto da vida.
O homem, sempre que busca poderes curativos em orações mal elaboradas, entroniza à sua alma o veneno da indiferença divina. E quando bebe do antídoto que a ilusão lhe farta, desespera-se por não mais poder remover o veneno que lhe corre pelo corpo inteiro. O homem também reparte o veneno que o mata, quando decide não suportar sozinho o peso de sua atitude e seduz os ansiosos, criminosamente, os carregando consigo para o origma.
Quando se compraz com o alimento de sabor incomparável, de ingredientes e aparência singulares, o homem se entrega, e se envenena. É como fazer amor loucamente bebendo na fonte inimiga. É quando o punhal é estranho; é quando a faca é de lâmina cega; é quando agulha é como um ferrão poderoso e mortal, daí o espírito sucumbe à substância maldita... Maldito veneno.
E o corpo, quando está envenenado, vive pouco, e aquieta-se à espera do tempo final. A carne, quando está envenenada, digladia-se com a ampulheta, e suplica vida. Quando está envenenado, o homem anseia por acordar e sentir que tudo era apenas um grande pesadelo; um sonho terrível... Um evento onírico que abrigara o medo. Quisera. É real.
"PARADOXUM AD ETERNUM"
(Paulo Queiroz)
Grão vira pedra quando despenca do vento
e fura o vão da mente fraca, débil.
Solidão é eco perdido na profundidade da alma,
e se faz amor na busca incessante.
Gota se torna vidro quando desaba do infinito,
e corta a língua medíocre, tola, insana.
Pranto é vociferação de desencanto,
e transfigura-se em corpo novo, de volúpia.
Corpo é aço e água que se fundem no nada,
e desmaterializam-se em poeira invisível.
Beijo é voz macia e grito sem rumo,
é fonte de desejo infindável e de desesperança.
Vida e nada se tornam morte e escuro,
e a morte, imponente, escarnece os vivos.
Fogo e ar se tornam encanto e sinistro,
e formam a nebulosa tragédia inevitável.
Riso e lágrima compõem a alegria do ser,
e convertem-se em tristeza incontida.
Música e poema são arte magnífica,
e viram mentira que sonega visão ao homem.
Palavra é alívio pleno do espírito,
e se faz caminho para a perdição dos néscios.
Soberba é elemento vital de pobres e iludidos,
e alimenta a fé impura dos pródigos.
Mundo e vazio são na prática a mesma coisa,
e nascem para encontrar um fim.
Desespero é condução da loucura,
e sofre mutação quando o amor rompe o silêncio.
Escuro é sombra imensa da altivez dos idiotas,
e se faz luz com a sapiência útil.
O homem deve conquistar. Tem que lutar, enfim, possuir, por si próprio, o seu futuro, pois homem e triunfo são paradoxo, assim como guerra e paz são simbiose.