PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Sábado, Outubro 15, 2005





"SECA NA AMAZÔNIA: A DOR ENSINA A GEMER"
(Paulo Queiroz)

A seca é um fenômeno natural cujas conseqüências são velhas conhecidas de muitas regiões do planeta. Não existem recursos capazes de evitar a seca, posto que, não obstante ser um acontecimento profundamente agravado pela indisciplina humana, trata-se de um evento que ocorre cíclica e naturalmente por razões espontâneas. Não há como evitar a seca, porém, pode-se -- havendo vontade política -- perfeitamente conviver-se com ela, amenizando-a.
No Brasil este fenômeno ganha relevo considerável em regiões específicas, sobretudo na região nordeste brasileira que sempre ensejou muitas discussões sobre os resultados da secura decorrente do clima semi-árido daquela região. Quando se fala em seca, aludindo-se ao nordeste brasileiro, parece uma coisa corriqueira e natural, todavia, quando nos referimos à Amazônia, como agente vitimado por tal fenômeno, isso soa como algo insólito. É esquisito discutir a respeito da possibilidade de, por exemplo, o Rio Amazonas sofrer com secas, sendo este um fato do qual se tem pouquíssima informação na história da hidrografia amazônica. Lamentavelmente, hoje essa é uma possibilidade que a todos assusta.
O homem já começa a se queixar, e sabe por quê? Porque a nossa região é assolada por um calor insuportável que parece aumentar diariamente, e com a elevação da temperatura a patamares insalubres e assustadores, pensar, daqui pra frente, em secas eventuais em nossos abundantes rios, pode passar a ser uma coisa comum. A Amazônia foi outrora um sistema natural consagrado, e durante milhares e milhares de anos desconheceu as agruras da irresponsabilidade e dos efeitos climáticos e hidrográficos resultantes da "ira horrenda da natureza", por assim dizer; hoje, porém, experimenta a nefasta condição de um sistema natural abalado pela criminosidade humana, cujas atitudes, em busca do poder econômico, desagregam e assassinam a nossa ecologia, o nosso meio ambiente e a nossa natureza como um todo.
Apesar de alguns acharem que tudo isso é muito normal, o meio ambiente amazônico atualmente convive com a falta de respeito e a desconsideração do próprio homem, a quem alimenta e cria, e, pelo que se nota através da espantosa situação de secura do Rio Amazonas, este meio ambiente equilibrado já começa a sucumbir paulatinamente. O homem é o maior responsável pela calamidade que acomete, por enquanto, apenas algumas comunidades amazônicas, e as principais causas conhecidas dessa irresponsabilidade desenfreada são: a devastação florestal que abarca hoje áreas imensuráveis do território amazônico; a poluição atmosférica e fluvial que envenena o ar e as águas naturais; os saques potencialmente arruinadores da nossa biodiversidade, que despertam ainda mais a cobiça alheia; a ausência total de conscientização coletiva dos povos amazônicos, apesar de muitas ONG's mentirosas e "associações verdes" tentarem nos convecer de que copnscientização é o melhor caminho. Para mim, a missão das ONG´s na Amazônia é vã.
Para se ter uma idéia a respeito das conseqüências que fluem da total irresponsabilidade humana para com o meio ambiente, especialmente no que diz respeito à seca, posso afirmar que o nosso povo passou, a partir disso, a experimentar ainda mais a proliferação de doenças tropicais de poder letal, como a malária, a dengue, etc.; a escassez de água potável de qualidade para o consumo do ribeirinho; o avanço da fome, uma vez que milhares de espécies de peixes do Rio Amazonas emergem mortos e impróprios para o consumo; os prejuízos econômicos gerados pela impossível navegabilidade desta via fluvial de escoamento de produção local e de fora do estado, além da queda do cultivo agrícola nas regiões afetadas, entre outros problemas.
Pelo exposto, e considerando-se a gravidade da situação, digo que não basta apenas se gastar rios de dinheiro em campanhas publicitárias sofistas e ilusórias, cujas frases babacas mais conhecidas são: "preservar é preciso", "verde que te quero ver-te", ou "não mate a mata"... É preciso bem mais que bonitas mentiras e atraentes campanhas -- elementos sedutores de idiotas -- para se solucionar os problemas que geram as calamidades naturais. É preciso mais do que tão-somente conscientização. É preciso leis severas para salvar o nosso sistema natural abalado pela covardia de criminosos ecológicos. Finalmente, assevero: antes que falte a água para manutenção da vida, e antes que os rios amazônicos se encham com as lágrimas dos nossos filhos, vamos cultivar coragem para combater sem temor os crimes ecológicos. Admitamos: a culpa é de todos, antão, a partir de agora, com o sofrimento no próprio couro, o homem comece a se mancar, porque a dor ensina e gemer.




Sábado, Outubro 08, 2005





"CORAGEM? PRA QUÊ?"
(Paulo Queiroz)

Quero falar um pouco sobre coragem. Começo relembrando um fato. Um determinado indivíduo, num daqueles dias em que a gente deseja ardentemente que o mundo vá para a casa do "cão", tamanha a nossa indignação, dizia ao outro que o indagara: - Amigo, pois eu te digo que coragem é coisa de gente otária. Eu prefiro ser um covarde vivo a ser um herói morto. Quero mais é que todo mundo se lasque!... O outro, ensimesmado, concordando parcialmente com o que ouvia, lembrou-se do mais inteligente de todos os cabeçudos nordestinos: Rui Barbosa, referindo-se ao que certa vez ele escreveu: (...) a coragem é limitada, todavia, deveria ser plena (...) o homem, ante o perigo de morte, de cerceamento de sua liberdade e integridade, não deve se opor corajosamente a tais adversidades; deve, ao contrário, apartar-se do perigo e da ameaça ao seu sossego.
A bem da verdade, nos ensinaram tudo errado. Quando o mestre Rui Barbosa disse: "sê livre, homem!", ele não quis dizer: "fuja!", "salve-se!"... Tenho razões de sobra para afirmar que suas palavras foram distorcidas por uma hermenêutica qualquer; pelo entendimento deficiente de algum historiador controvertido e polemista extremo da literatura. Meu juízo prefere crer que o consagrado jurista referia-se a conquista da liberdade humana pelo esforço conjunto do homem, pela coragem. Destarte, inclino-me a acreditar de modo incondicional que suas palavras buscaram sim significar a coragem do homem de perseverar e de se aventurar laboriosamente na busca do conhecimento: a única forma de libertação plena. Rui Barbosa não louvava a covardia.
A coragem escasseia-se hodiernamente porque se ensina ao homem os atributos mais perfeitos da covardia, e de como exercê-la de modo profícuo e eficaz. Outrora se ensinou também -- graças ao acirramento capitalista acultural --, o branco a covardemente menosprezar o negro, o negro a odiar o branco, e ambos a achincalharem ao índio, que por sua vez teme aos demais, e assim por diante (e eu já disse isso uma vez). A despeito disso, não nos ensinaram a troca de valores entre raças, a permuta de experiências enriquecedoras da cultura específica de cada "gente", por assim dizer. Pior: instruíram os mais fortes a sobrepujarem os mais fracos; os mais ricos forçaram os desvalidos à incontida e imoral mendicância, e o condicionamento social da idéia franqueou aos imbecis a condição medíocre da pseudosofia, tornando-os iludidos pela ostentação de conhecimentos que julgam possuir -- e não possuem -- distinguindo, equivocadamente, pessoas burras, ou de inteligência mediana, de gênios; há séculos.
Num mundo cuja chancela de liberdade é o possuir, o ter, o ser, a força medonha da grana torna o homem "pequeno" uma reles "coisa"; uma bagatela sem grande importância. Para ser ter idéia do valor de um homem, ainda que morto, nos Estados Unidos o cadáver de um indigente vale U$ 0,35 (é isso mesmo: 35 centavos de dólar) para sua utilização em estudos anatômicos e correlatos, num país onde a ciência, bem ou mal, toma rumos assustadores em busca da evolução. Com toda a depreciação matematicamente possível, aplicada ao cadáver, pode-se ter idéia dos míseros dólares que valia o indivíduo quando vivo. O homem não vale muito sendo corajoso, quanto mais covarde!
A coragem, quanto ao quesito extinção, compete igualitariamente com certos espécimes da natureza. A covardia, por sua vez, duela com o vírus da política suja quanto ao quesito proliferação indiscriminada e incontrolável. A crença em Deus, por exemplo, que outrora era legitimamente despojada da plutocracia perniciosa, hoje é espiritualmente ligada a respostas de prosperidade pessoal escancarada. Isso é bom? Claro que não! Isso é covardia sobrenatural, eu diria. Dinheiro é muito bom -- mesmo que haja quem diga o contrário --, o ruim é a indistinção que se faz do sagrado em relação ao capital. Sobre isso uma coisa me causa curiosa indagação: por que será que ainda não cunharam a cara de Jesus Cristo como efígie de moeda qualquer? Só falta isso. Crer em Deus requer coragem, acima de tudo. Não basta gritar, chorar, ajoelhar-se, pedir, orar, ou apenas entregar tudo nas mãos dEle... é preciso lutar, trabalhar, discordar, pensar, politizar, ajudar, dialogar, conhecer, amar, denunciar, cooperar, combater, se indignar, respeitar, construir, reconhecer os próprios erros... enfim, é preciso romper sobretudo com os padrões enjoativos e maçantes que vigoram na nossa sociedade, para poder se ter coragem.
Pra que então a coragem? Elementar: a coragem, entre muitas outras coisas, oferece ao homem: o discernimento que o torna capaz de separar o útil do imprestável; a força suficiente para suportar as pressões sociais cotidianas oriundas de atitudes errôneas de segmentos corrompidos, sem, porém, tornar o homem omisso; o potencial para reprimir a agressão moral da mentira e do engano, sem, entretanto, permitir que o homem aja com violência, fazendo-o refém da estupidez humana; a condição para que ele experimente o amor e a paixão em toda a sua extensão, sem, todavia, deixá-lo obstinadamente cego ao ponto de reivindicar a sua felicidade em detrimento de outrem; enfim, a coragem constrói no coração do homem a cerca que o protege da desfaçatez, e o mantém sempre distante do oportunismo, que é armadura da dita cuja: a morte... Coragem serve para nos alimentar de perspectivas verdadeiras, das quais extraímos elementos sólidos para a constituição dos nossos sonhos. A coragem, finalmente, nos ensina que decidir parar, racionalmente, com os pés no chão, é infinitamente diferente de desistir no meio do caminho. Desistir -- isso sim -- é para otários.