"O CÂNTICO DOS ATREVIDOS"
(Paulo Queiroz)
Dar passos à frente não é nada de mais. Muito simples me parece até, o caminhar. O caminhar ao longo dessa trilha cortinada por flores morrentes e imperfeitas... Parece fácil andar, como não o é dormir. Mas não terei medo, portanto, pois tenho Hefestos: o ser de fogo, meu cadafalso. Tenho também uma única estrela, lamparina, que me alumia, sempre à sombra da banda-meia do corpo duma deusa lunar errante. Cabe ressaltar: lá não há vinhos, ou poemas; tampouco há lá málaga genuína. Há apenas um chão, encharcado de púrpura, que não é vinho.
Não há trevas apenas, sendo que há uma própria luz no desfiladeiro, donde se precipitam os que não têm visão, e também os condenados. É de tamanho enorme o medo que percorre o corpo e a mente dos réus. Há um medo colossal escondido como no íntimo dos serviçais de Atenas: criaturas enceladas e sem alma, que ao som da harpa nada sentem, tampouco reclamam. São vadios escravos da concupiscência, os filhos gregos... São simples carnes usadas pela lascívia de seus senhores.
Lá, no desfiladeiro, se vê de longe a forma bela da ninfa, e sua cantilena aprazível, e também os seus olhos de cor da folha. Consegue-se avistá-la lá no fundo do penhasco escarpado, acenando com voz de vento, me chamando, e eu vou. Mas lá o veredicto é uno e irreversível, pois que inapelável é a sua sentença, quanto à pena do caminhar. Lá é o lugar onde fecundarão a terra com as sementes de nós, os desacordados. Lá será o meu lugar, e o teu, por certo.
Atreva-se, então, a me abraçar, pois que sinais virão aos teus ouvidos como se fossem um colapso intempestivo. Daí se irromperá o grito que dirá sobre o teu futuro. Atreva-se, então, a me pretender, e prove o gosto do dolo que emerge duma sentença fria e que nunca se desfará. E a tua inocência, e a tua liberdade, só poderão nascer com a tua própria fuga.
"NÃO TE ACHEI, TE ENCONTREI"
(Paulo Queiroz)
Jamais procure alguém. Nunca vá em busca da poesia. De modo algum busque mudar o futuro, pois ele é desconhecido. Não saia por aí, ao léu, atrás de um amor... Nunca. Nada que você buscar será encontrado. Nada é achado... Encontrarão você. Eu, por exemplo, te encontrei, e jamais te procurei. Foi como a poesia em minha vida: nos enamoramos, de cara, mas jamais nos procuramos. Assim foi com você. Eu não te achei. Nos encontramos.
"DESCAMINHOS"
(Paulo Queiroz)
Jogou água sobre o suor,
pensou alcançar pureza,
descascou em mais sujeira.
Falou com encanto aos outros,
e vociferou achando dizer verdade,
deparou-se com a mentira.
Buscou dar muito amor àquela,
achando ter encontrado tudo,
provou da ilusão hedionda.
Acusou o homem inocente,
sentindo celebrar punidade,
cometeu terrível injustiça.
Ornou-se de vestes sublimadas,
pensou ser um encanto,
achou-se feio, e fracassou...
Caminhou muito, fugindo,
sentiu ter encontrado solução,
perdeu-se no meio do nada.
"O ESTIGMA DOS INSANOS"
(Paulo Queiroz)
Atrevi-me, estes dias, à exploração das complexas veredas de Rotterdam, numa tentativa de apreender o que contêm as insondáveis linhas inseridas em "O Elogio da Loucura", e, apaixonado pelas particularidades desta reunião de pensamentos celebres, desafiei a minha reflexão à interpretação despretensiosa de alguns de seus fragmentos, capturados ao longo de atenta e introspectiva leitura. Trago a seguir as partículas mais atrativas. Em questão, a loucura humana.
"Mais longe, a preguiça cruza os braços e se apóia nos cotovelos. Não reconheceis a volúpia, com as suas grinaldas, as suas coroas de rosas, e as deliciosas essências que a perfumam? Não vedes uma que por toda parte lança olhares impudentes e dúbios? É a demência".
A loucura está em tudo, e a tudo pertence. Está em todos os tempos e em todos ao mesmo tempo. A loucura está até nos tropeços que permitimos à alma, quando perecemos de sono (e até em gozo) e quando padecemos de ignorância dando vazão à entrância da lesividade trazida pelo descuido mais medíocre que cometemos. A inobservância da vida e o alheamento quanto à prevenção do comodismo, causa danos irreparáveis ao corpo e ao espírito. Todas as delícias que o mundo oferta aos homens devem, naturalmente, serem desfrutadas em plenitude, tendo-se, contudo, que se observar a noção apropriada da consciência individual -- não se confundindo isto com o complexo de instintos morais do homem -- para o resguardo quanto à demência: estado de loucura doentia que dista da agradável loucura da vida. A demência é caracterizada pela incoerência das idéias e das ações, e por procedimentos insensatos que tornam o indivíduo inadaptável à convivência social.
"Francamente, qual seria o mortal capaz de apresentar a cabeça ao jugo matrimonial, se tivesse, antes, ponderado com sensatez nos inconvenientes de tal estado. Qual a mulher capaz de ceder à perseguição amorosa de um homem, se pensasse seriamente no incômodo da gravidez, nas dores, nos perigos do parto, nos repulsivos deveres da educação?"
O ser humano tem a peculiar faculdade de antever a maioria das conseqüências de seu comportamento, entretanto, invariavelmente tarda a perceber os resultados mais embaraçosos posteriores às suas ações, embora deles tenha razoável conhecimento prévio. Rotterdam admoesta, quando ao amor, que se deixar guiar pelos receios e pelos temores que fecundam a realidade, a despeito de sua crueza, e furtar-se o homem de experimentar os prazeres da vida, apenas por julgar que as conseqüências de viver um amor são nocivas, torna o indivíduo deveras medroso para enfrentar o futuro, assim como também o torna frágil à semelhança de um arbusto que verga ao vento mais débil. A doce loucura consiste se em assumir uma postura determinada, forjando no homem um caráter que o torne capaz de amar do modo mais intenso possível, dando vez à coragem e à própria vida. A coragem é o elemento que encabeça o enunciado em questão... Se, entregar-se a amores que escapam aos padrões humanos e medíocres for loucura, então, loucos somos todos nós que vivemos intensamente.
"Não há mortal que poderia suportar a velhice, se as misérias da humanidade me obrigassem mais uma vez a socorrê-la. Como os deuses dos poetas os quais, quando os homens estão a ponto de perder a vida, os consolam mediante uma metamorfose, eu também mudo os anciãos à beira do túmulo, e, tanto quanto possível, os faço voltar à feliz idade da infância".
Permitir, o velho, "corromper-se" pelo amor de uma jovialidade subitânea, a propósito de resgatar o sentido de sua própria vida, é algo absolutamente legítimo. Amar alguém mais jovem, rebuscar elementos que caracterizem a loucura de enfrentar os desafios do preconceito humano, e fortalecer-se, sem hesitação, da liberdade para enfrentar o mundo por esse amor, se necessário for, é despir-se corajosamente de todo e qualquer acessório inútil à vida agradável. Admitir a velhice é normal; é impelir a consciência à proclamação da liberdade natural. Mas, amar sem temor ao tempo, à idade, é exterminar os pressupostos que visam a estabelecer o medo e a solidão. Loucos são aqueles velhos que não aceitam como normal um amor jovial.
"Os que publicam com seu nome as obras dos outros são ainda mais prudentes; usurpam sem remorsos uma glória que custou inúmeras dores e esforços àqueles aos quais ela de direito pertence. Bem sabem que, mais cedo ou mais tarde, alguém descobrirá o seu furto; mas enquanto esperam, gozam sempre do prazer de ser admirados".
Os verdadeiramente loucos não têm a sensibilidade requerida pelos preceitos imediatos da plena convivência humana. Tais loucos não agem dentro da respeitabilidade indispensável ao bom viver. O homem que subtrai as idéias alheias, ferindo de morte o prazer de criar, colhe os pseudofrutos adocicados pela brevidade de lauréis roubados friamente. Quem rouba a idéia alheia mergulha, sem se dar conta, num abismo de incalculável fundura, de onde talvez não mais regresse, e se voltar, quando tentar mostrar ao mundo uma idéia excepcional, dizendo ser sua, e ainda que seja, estará este louco fadado à vergonha moral definitiva. Aquele que enseja descrédito, furtando os objetos da autoria alheia, estará sempre se condenando à insignificância, quando não, será sempre foragido de sua própria consciência. Este é louco patológico.
"Dizei-me, por favor, se os loucos que Platão supõe numa caverna, onde só vêem sombras e aparências de coisas, estão satisfeitos com a sua sorte, se aplaudem e estão contentes, são menos felizes que o sábio o qual, saído da caverna, vê as coisas tais quais são?"
O que pode ser a felicidade para um povo? Se uma sociedade humana tem como governante um rei indulgente e isto a torna repleta de contentamento e felicidade, isso, de contrapartida, jamais deve significar estritamente que outra sociedade, que possua como governante um ditador tirano, seja cativa da infelicidade e da subjugação. Cada um deve ter a noção de contentamento que lhe for mais conveniente. Há os que gostam de se submeter às provações de determinadas situações, e ainda assim se considerem satisfeitos, e há os que sentem completude bem longe de desafios e sem as provações comuns à "normalidade". O homem tem capacidade de deliberação e, por razões de tal faculdade, lhe é consentido, entre muitos outros atos possíveis, uma variedade de escolha muito mais expansiva do que possui qualquer outro animal. Não se pode incondicionalmente julgar que -- aludindo ao platônico "O Mito da Caverna" -- aquele que foi experimentar a felicidade e o contentamento fora de seus costumes seja por isso infinitamente mais feliz ou infeliz do que aqueles que optaram por permanecer dentro deles. Os loucos não são os que preferem permanecer na simplicidade de seu mundo, se desta simplicidade extraem a felicidade necessária à vida. Tampouco, loucos são os que decidem sair dele. Loucos verdadeiramente são os que insultam a razão aceitável, e com propósitos vãos criam obstáculos desnecessários à vida, e para os tais sugerem superação vã. O princípio da causalidade deve obedecer aos critérios da naturalidade, sem que seja necessário que o homem o altere, e esquivar-se de provações desnecessárias é prudente e saudável. Louco é aquele que busca enfrentamentos tolos objetivando provar coisas inúteis. É melhor permanecer na caverna do que sair dela e cometer insanidades.
"Sem mim, não vereis na vida ligação agradável ou permanente. O monarca tornar-se-á, em pouco tempo, insuportável ao povo, o criado ao patrão, a criada à patroa, o amigo ao amigo, o marido à mulher, o hóspede ao anfitrião, o companheiro ao companheiro, se não cuidarem acalentar mutuamente doces ilusões oriundas do erro, da adulação, da complacência, ou de outra agradável loucura. Não duvido de que vos causa assombro o que afirmo".
Nenhuma relação é duradoura o bastante para configurar a substancialidade do amor como o sentimento único e insuperável. O ódio também pode ser extremamente intenso. O ódio promove a morte, o amor não, daí a superior potencialidade do primeiro. Penso que há de se colher o melhor de um relacionamento em seu princípio, a fim de se assegurar a probabilidade de reprodução das coisas mais importantes de uma convivência afetiva. É um "crime" compreender o amor como um sentimento radicalmente infinito e que jamais poderá ser superado por outro evento qualquer. Louco é o que afirma categoricamente que amor nunca passa, sendo que, em verdade, a morte o cessa. Caso contrário, os amantes viúvos nunca se casariam novamente. Acho mesmo que o amor é como o sono: passageiro e freqüente. Vai e volta. Isto posto, qualquer relação poderá ser maçante com o tempo, se os convencionalismos forem o único norte a se seguir. Louco é quem não procura enriquecer a convivência com experimentações inovadoras. Procedimentos enjoativos ensejam exaustão e desgaste.
Inferi, portanto, que apenas a loucura é que consegue refrear o rápido correr da juventude. Somente a loucura é que de nós afasta a velhice importuna, como bem exprime o provérbio grego. E louco de fato é aquele que desconhece a sua própria loucura, atribuindo a si mesmo lucidez que não ostenta. Insano é o que manifestamente admira a morte. Louco é aquele que ovaciona insanos como Adolf Hitler, por achar nele capacidade formidável de liderança. Doente de fato é o judeu (e existe sim) que pugna pela atenuação da culpa deste tirano maldito, cuja defesa advoga que, de 30 milhões de judeus na Europa, Hitler exterminou "só" 6 milhões. Buscar compreender a loucura humana é mesmo uma tarefa insana, cujos resultados, qualquer que seja o esforço, sempre estarão muito aquém da exatidão.