"O DEPOIMENTO DO HOMEM"
(Paulo Queiroz)
Mesmo que eu quisesse ser reto, no mundo, e ainda que a minha alma protestasse contra a mentira, todavia, ainda assim, eu teria que mudar as minhas palavras... Estaria eu cedido à tentação da mentira, sempre.
Sei que cedo ou tarde seria influenciado a negar a verdade, e estaria desdenhando do poder e da Lei dos homens... os poucos sólidos homens de tantas leniências e desmazelos. E pelo meu absoluto descompromisso, sou culpado! Sou culpado! Sem recorrência eu sou... mas me dizem que não! Mas sei que serei sempre culpado, face à minha condição de homem! Mas sempre me dirão que sou inocente...
Preciso é ir embora para fugir desse acossamento vil, num comboio de fugitivos e dissidentes... Tenho que fugir desse poder destrutivo do homem e de suas mentiras, porque lhes convém que eu forje falsos juízos diante de Deus...
Mas mesmo que eu fuja, eu sei que estando noutro lugar, também estarei culpado, pois lá estará Deus, sempre. Ainda assim, e ainda lá, sei que muitos me dirão que não... me dirão que não há Deus, e me pedirão para negar tudo. Mesmo que eu deseje ser réu, não me deixarão sê-lo. Diriam que sou inocente e que sou incapaz criminalidade qualquer. Minha consciência inerte me conduz ao teor da verdade, mas as influências modificam o meu coração, e meu depoimento. Induzem-me às mentiras que devo contar ao mundo, e não concebem que o cimento estrutural da Justiça, e o alicerce para o compartilhamento dos direitos humanos, sejam de fato os valores regentes da moralidade legal...
E por terem redesenhado a minha frágil dignidade, e por terem feito da minha decência uma gaveta de mentiras, e por terem me proporcionado a liberdade pelo engano, acho que não serei mais o mesmo... Nunca mais...
Não serei mais eu mesmo, porque sei que para ser homem livre de fato, só careço mudar o meu depoimento... Eu sou homem, mas nesta corte canônica amoral eu só careço negar, para ser livre.
"PALÉ DE TAPUIO"
(Paulo Queiroz)
O sol medonho cospe um fogo doido que trisca na minha moleira
Às vezes o vento some das ventas e dos nossos olhos aguados
Montueiro de gente de todo lado, aperreados, caçando condição
Céu sujo e enrugado, não tem castanheira, não tem beribá
Zoada aguda, gente assustada, seres poucos, moucos, enjoados
Eu, cocorando uma comida temperada, urucum e caldeirada
Quero saber donde tem o cheiro bom do tambaqui e do piquiá
Lamparina é o próprio fogo que desenha o corpo dela na sombra
Amarílis, já faz tempo, num é menina e ainda é meu seu coração
O pai dela, o seu o Acrino da Catraia, que já pisou até em arraia
Homem pouco hospitaleiro, se mostra um arigó brabo e valentão
Sonhava o velho, "disque", com um "cabôco" feito esse: bonito
Pra amigar com a moça bela, e eu tinha a sua ampla permissão
O Garrote Luz de Ouro se dana a brincar lá no terreirão da Dicá
Rasgou o rio no batelão só pra gente ver a sua peleja com o mal
E eu cheguei cedinho, na anca do banzeiro, atracado à Amarílis
Mulher do beijo bom, que à boca da noite, escuta um estrondo
É o tambor velho que ronca forte porque o dia já quer alvorecer
Uma visagem arengueira grita bem alto, espocando o silêncio
E a floresta estremece num ligeiro despencar de folhas secas
Um raio de luz lunar escapa entre os galhos e alumia o trapiche
Depois do tempo, a saudade faz mangoça, castigando o coração
Os meninos se engancham no rabo-de-camaleão, brincando
Mas o toró brabo desaba feito cachoeira, formando uma lameira
O chão de barro fica liso e lambuzado, o tempo fecha, é trovão
Mas nossa canoa nunca encalha; cair n'água aqui é bubuiar
Só que a terra verde é perseguida, e assim mesmo ainda escapa,
E o bicho estranho não solapa, porque a terra é forte pra danar
Ó o matagal! É infinito! É bem graúdo! É massetão de piraíba!
O céu te livra da engolida, e eu tenho muito ainda pra te amar
"TERRA BRAVA"
(Paulo Queiroz)
Você é a flor forte e eu a terra brava: somos sangue
Você está em mim, e em mim deverá viver, arraigada
Jamais se arranca uma flor frágil da terra tênue
Quanto mais se pode arrancar a flor forte da terra brava
Uma flor, forte ou frágil, não se pega com porradas
E só deveria sair da terra para sempre, a flor
Quando morressem ambas, de prazer esgotadas...
Contudo, não há força de bicho e nem de gente
Que extraia a flor forte da terra brava: de carne
Somente os covardes violentam as musas flores
Apenas os frouxos têm medo de exercer a conquista
Pois o homem que honra o seu sinal de macho
Não arranca gemidos da fêmea-flor na marra
Uma terra brava nunca permite a dor da flor forte
Muito menos deixa os intrusos ofenderem a flor frágil
Se matar for preciso, a terra brava exerce a força
E se deixar viver for a lei, flor alguma será tocada
Pois se terra brava ou tênue representam a vida
E se as flores forte e frágil são de sangue e carne
Que a intimidade do amor seja então respeitada
À Voz de Ouro
"CONFISSÕES À MULHER NOTURNA"
(Paulo Queiroz)
Recluso na noite longa, curta, cúbica, pelo breu iluminada.
Noite negramente trancada, por dentro e por fora,
Onde tudo muito rapidamente vai passando, sem luar,
E as palavras, sendo registradas, vão morando na mente.
À noite, aos escritos, resigno-me ao meu destino, e de muitos.
Permaneço em meu reduto sagrado, sacramentado.
Algumas vezes sóbrio... Muitas vezes não.
Meu espírito noturno por mim chama ainda bem cedo,
Logo ao entardecer do cansaço deste corpo sedento de noite,
Chamando para rasgar a escuridão em pensamentos nossos,
e para depois espiar o alvorecer, e muito depois repousar.
No avançar das horas, e cada vez mais eu túrgido, só escrevo...
Donde as noites me parecem ninadas... e me querem,
E me incutem a suores noturnos do calor de sua companhia...
A noite me dá as frases mais aprazíveis à mente.
Por isso que eu sonho pela noite, e com a noite,
Acompanhado, mesmo em solidão, pelos meus, que dormem,
E pelas linhas que escrevo por ela, fêmea noite, adentro.
Não conto horas; abstenho-me em absoluto do tempo...
Permito-me levar pelo seu avanço pouco importante a mim,
E que é ligeiro, mas por mim lento. E nunca o temo.
Caminho tanto pela noite que já a conheço intimamente...
Às vezes bela. Às vezes dúbia. Às vezes bêbado...
Às vezes pela janela, na fresta apenas, vejo o rosto da noite.
Muito rápido observo, a noite, que é senhora de si mesma,
Como eu de mim mesmo não sou senhor...
Quando cerro a janela a tenho só minha, à noite,
Eu e meu quadrado de versos e poemas,
Subestimo e ignoro o relógio e a luz vã,
Que insistem em me aperrear, sem, porém, conseguir.
Mergulho nos escritos que me surgem diante da mente,
Dizimando o marasmo que é iminente...
Minha peleja contínua se faz resistir,
E são tantos os seqüentes minutos de silêncio,
Da mudez do mundo, que se interpõem intervalos de quietação.
Minha é a fêmea noite... Não reticente... Não consciente...
A noite não omite, mas que escancara versos de amor,
Nessa calada que se anuncia pelo sossego estranho.
Não tem jeito. As horas agora já estão mortas, mesmo.
Meus pensamentos, concisos, vagueiam melhor.
A noite tudo me dá, mas dela só peço uma coisa:
Quando estiver para morrer, quero que seja noite...
Quando estiver pensando no meu amor, prefiro que seja noite...
E depois de ter escrito o que me vier à concepção,
E mesmo que eu me vá em absoluta solidão,
Peço estar sempre acompanhado dela... da noite...
Porque por ela escrevo; por ela me realizo,
E pelas suas veredas consigo vislumbrar o mundo dos poemas...
Mundo distante, e difícil de se encontrar.
Suas trilhas são geralmente precedidas por sinistros,
Fenômenos que aos mortais ocorrem corriqueiros,
Para que sejam, pois, consignados em poesias.
Mas pela noite chego cedo ao mundo das poesias.
Desembarco sempre nos horários noturnos,
Sempre atado a ela, a noite.
Que eu possa gozar de existência por longo tempo,
Não que me importe com a morte, natural,
Mas porque quero ainda mais ter a noite comigo,
Para que tenha, quando for o tempo, uma boa morte.
Assim são meus dias vividos com ela, sempre à noite.