"OS OLHOS FEÉRICOS DE DHALLA"
(Paulo Queiroz)
Contam os Krémãs, os velhos: dos confins da terra do fogo, da aldeia dos temíveis Hadawannas: o povo gigante, nascera Dhalla, a mulher mais cobiçada de Zaã... Era a sétima da prole poderosa do sagrado Meykuaá, o oitavo conselheiro do alto grau de Toryni, o Panteão daquele tronco sacramentado de Tupã. Dhalla fora concebida pela probidade magnífica e reconhecida de seu progenitor, entretanto, Athaná, sua mãe, e a maior escarlate do pecado absoluto erradicado no ventre daquela tribo, e que fora, como pena de mortificação, incinerada viva na colossal pira, deixaria para a menina semi-deusa, como herança da transgressão mortal, o jugo do feitiço no olhar... Por onde quer que fosse Dhalla, não poderia cingir-se de um amor. Mas a princesa guerreira queria amar, e ser amada...
Pelas veredas tristes de Dhalla, feneciam a planta virgem e as petúnias, depois daquele refranger intenso de seus olhos... Depois dum olhar de aniquilador, toda vida em seu caminho estendia-se a reverenciá-la, depois afrouxava-se, e morria. E Como não há coisa alguma que persista para sempre em todo o Universo, Dhalla, ainda que semi-deusa, e ainda que estigmatizada, era fêmea enfeitiçada de carne crua. Era ser... mulher...
Logo que avistara Uhry, garboso guerreiro, olhou-o com veemência inimaginável... Bem dentro de sua alma olhou-o. Apaixonara-se instantaneamente o macho. E em trôpegos passos, sentia Uhry o ardume daquele amor súbito. A fêmea Dhalla, tal qual a fênix, se alimentava das lágrimas da paixão mortal do macho, e não do incenso ou do suco da amônia; todavia, fartava-se ela dos filetes de prantos que escorriam dos olhos mirrados daquele homem em estado absoluto de cegueira amorosa. Uhry estava entregue à dominação dos sortilégios de Dhalla... Quedava-se aí a mítica do poderio masculino tribal, depois da histórica concepção daquela menina de poder...
Depois daquele olhar único, Uhry não poderia mais viver senão pelo amor mortífico daquela mulher dos olhos de fogo. No corpo de Uhry, o alimento que antes agradava e nutria, causava agora repugnância. Ante aquele olhar prisional, o som do instrumento sinfônico ritualístico que antes embalava o guerreiro da tribo dos Trôdhas, os poderosos os senhores de tudo, já produzia um ruído insuportável... Aquele olhar de Dhalla foi tão transpassante, tão penetrante ao corpo cabal de Uhry, e à sua vida, que as cores estranhamente se refizeram opostas, como em mágica aborígene.
Uhry não sobreviveria mais muito tempo se não buscasse a cura para a morte de seus olhos secos. Não lhe bastava para isso apenas amar a suntuosa Dhalla. Era necessário ao homem sentir o seu amor também, fazê-la amá-lo, sob pena de o macho extinguir-se murcho, e morrer. Ou encantava Dhalla, de igual modo como ela o fez, ou precisaria encontrar a purificação da sua alma. Porém antes, para tal feito, carecia ele esquecer a luz viva e cintilante que fogueou daquele olhar de mulher.
Era preciso que Uhry imprimisse mudanças vitais e de qualidades profundas para a sua subsistência. Ou lutava em amor incondicional, dependente do tempo que lhe restava sem a correspondência do amor da índia, ou pugnava pela revitalização de seu ânimo, pois, aquela paixão nascida num olhar mágico já tomava formas e aspectos apavoradores e mutantes. Certamente extinguir-se-ia Uhry. Sua peleja seria revés. Não há antídoto no emprego da cura de um olhar encantante de mulher... Não há macho que se amotine com poderio capaz de ir contra uma mulher que enfeitiça. Não há.
Acreditava-se que Dhalla, princesa de brancura enigmática e inexplicável, fora cifrada pelos deuses do Panteão dos Hadawannas, e deveria, para amar em plenitude, ser decifrada pelo homem. Tanto poder assim parecia impossível para Uhry, ou para qualquer um outro, de qualquer tribo ou clã. Muito poder brotava arrebatadamente dos olhos feéricos de Dhalla... mortais, portanto... Dos olhos de fogo de Dhalla, descendeu o macho apaixonado que depois de extraordinária tortura passional, e sem poderes para igualar-se ao encantamento daquela mulher, murchou, por fim, e aquietou-se para a morte previsível. Resignou-se ao sono incessante.
Nada mais é hoje o macho, senão uma mísera centelha à mostra para ser dominado, e à deriva dum simples e tenro vento, a fim de que se embacie de vez e, sem resistência, se escravize ao amor de uma mulher. Ela sim, a fêmea, será eternamente mortífera enquanto não for decifrada... E por certo não o será... Nunca!
"A DANÇA DOS PORCOS"
(Paulo Queiroz)
Uma pocilga, um alcoice... Os suínos, a festa. Entre os porcos estão os maiorais: Pompeu Raposa Velha, Tabaré do Igarapé, Truste Abacabeiro, Herbert Zé Mané, Arlinda Bunda Alegre, Belão Cara de Acapú, Tonhão Fingidor, Dagô Lambaio e muitos outros. Todos felizes, sob as luzes gritantes acesas dum lupanar imenso, focando os seus focinhos entocados. Naquele calor dos insultos delicados e mútuos entre os filhos da plutocracia, e no afã das permutas de abraços pérfidos entre os veteranos e os simpatizantes do proselitismo, se percebem os estalares de tapinhas falsos, e se nota a dissimulação dos olhares de rapinas que permeiam a grande festa. É cão comendo cobra e diabo jantando gente besta.
Não há, todavia, novidades na tradicional dança dos porcos. Os pares são sempre os mesmos. As alianças, embora pareçam divergentes, formam sempre a corriqueira cadeia simbiótica que impressiona até a máfia Yakuza, pela notória irmandade e apego que existe entre estes animais. Tabaré do Igarapé, que é macaco velho, abraça seu filho político, Truste Abacabeiro, que recebe instruções claras para substituí-lo no próximo período da "colheita", visto que Tabaré já não pode mais permanecer no posto. Seu prazo de comando já se exauriu; seus mandatos todos já se esgotaram, mas ele não quer dar a outro o jubileu do poder, senão, a seu apadrinhado homem de confiança. O elo que traça o continuísmo não pode sofrer rupturas nunca. Truste Abacabeiro, por sua vez, afoito, já faz planos para seu secretariado imediato, e convida, informalmente, Belão Cara de Acapú e Tonhão Fingidor para formarem com ele a "Chapa do Futuro".
Tabaré do Igarapé, o grande governador dos porcos, é cria quase de leite de Pompeu Raposa Velha, o mandatário-mor da história política da pocilga, mas hoje é opositor seu. Pompeu é o "criador" de todos os porcos, só que já está mais pra lá do que pra cá. O velho morreu em pé e se esqueceu de pedir sepultamento. O desejo voraz pelo poder o mantém vivo. O bicho está mais aos trancos do que aos barrancos. Quase nem fala mais, a velha raposa. Entre tosses e pigarros, cansado, ele vocifera suas ordens indiscutíveis. Apesar de estar um bagaço humano, o senil do sarcófago ainda consegue comandar.
Pompeu Raposa Velha, mesmo hoje apenas dando pitacos determinantes, sempre foi o "grande patriarca" entre os leitões obesos. Sempre foi o senhor mais poderoso entre os seus pares, sendo, inclusive, admirado pelas varas adversárias, dos porcos oposicionistas. Pompeu construiu sua invejável carreira a custas da leseira-baré que impera entre os cidadãos de todos os currais; e ele tem seu representante próprio para concorrer com Truste Abacabeiro, filho político de seu próprio filho político de outrora, Tabaré do Igarapé. Mas a disputa na verdade é só de migué. Pompeu escolheu Dagoberto Lambaio, mais conhecido como Dagô, para carregar a sua bandeira na disputa.
Em plena convenção, Tabaré do Igarapé, democraticamente ladeado por Pompeu Raposa Velha, seu convidado e adversário, entre outros suínos correligionários, faz um pronunciamento emocionante no chiqueiro, e todos o escutam atentamente. Suas palavras apontam os novos caminhos da espécie. Seu discurso evoca o bom senso de todas as varas e, àqueles que desejarem embarcar com ele rumo ao futuro, promete que jamais comerão babujo novamente. E todos aplaudem entusiasmados.
Lá embaixo, no meio dos outros, está Herbert Zé Mané, que também fora convidado, mas não conseguiu vaga no palanque, entre os porcos principais. Herbert Zé Mané se acha um porquinho espertinho, e é de casta inferior, porém perseverante como nenhum outro suíno, mas sempre ganha o que a Luzia ganhou na capoeira, o pobre. Ele ouve atentamente as palavras de Tabaré do Igarapé, que conclama inclusive a ele, adversário ferrenho, para a união em prol dos porcos mais lascados. Herbert Zé Mané considera que as palavras do Tabaré do Igarapé são muito racionais, e como ele se acha espertinho, decide então pegar uma graninha considerável e aderir de vez ao fingimento oposicionista, deixando todos pensarem que há divergência e que a democracia realmente é uma alternativa dentro do chiqueiro.
Somas vultosas de dinheiro dirigem a espetacular disputa pelo comando maior das varas, dos chiqueiros. É tanto dinheiro que nem mesmo os órgãos fiscalizadores medíocres têm aparatos tecnológicos para controlar o derrame de notas. É festa na pocilga. É shopping de preferências; jogos de cartas marcadas, como marcada é a cara da colônia dos indivíduos necessitados. No final das contas, não fiscalizadas, todos os porcos saem ganhando. Tabaré do Igarapé, como já era de se esperar, conduz Truste Abacabeiro ao poder. A Aliança de migué sai vitoriosa do pleito. Mas Tabaré do Igarapé pede calma e paciência a todos os desbaratados porcos que perderam a disputa. E garante: "todos vocês serão meus aliados pelo futuro da nossa espécie".
Tabaré do Igarapé, ao lado de Pompeu Raposa Velha, comanda os passos de Truste Abacabeiro na governança das varas. Aos desapontados pela derrota, como forma de consolo, conforme prometido, são concedidos cargos pelo fisiologismo de praxe, e ganham de presente posições de destaque dentro do "novo" governo. Belão Cara de Acapú fica com a presidência do importante Congresso dos Suínos Nepotistas. Dagô Lambaio ganha a Secretaria Especial Desenvolvimento das Varas Superiores. Herbert Zé Mané, que se acha espertinho, fica com a Secretaria Especial de Desenvolvimento das Varas Inferiores. Arlinda Bunda Alegre, pelo seu caráter arrojado e meio adamado, é escolhida como Secretária Particular do Governador do Chiqueiro. Tonhão Fingidor, que era artista e se dizia politicamente isento, é ex-militante de esquerda estudantil, ex-edil, ex-baba-ovo dos governos antecessores e ex-secretário, é presenteado com a Secretaria de Chiqueiro da Cultura; permanece, portanto, no cargo.
Todos estão felizes em mais um pleito trabalhoso. A dança dos porcos continua resistindo aos ataques alheios e às indignações da maioria dos indivíduos das colônias preteridas. Quem era do contra se alia. Quem era aliado se torna dissidente de migué, e forma chapas opositoras também de migué. Quem era crítico isento se bandeia pro lado dos leitões de casta superior, se junta a eles, come farelos, e nunca mais come babujo. É assim o continuísmo que ensaia disputas democráticas, mas que tem por trás toda uma combinação prévia. É sempre assim a vida no chiqueiro. É sempre assim a dança dos porcos.