PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Sexta-feira, Abril 21, 2006




"POUCAS PALAVRAS"
(Paulo Queiroz)

Um dia eu quis te dar uma palavra. Você se lembra?
Achei pouco... Uma palavra apenas não cabia em ti.
Mesmo assim eu elegi, inicialmente, um pronome.
Depois eu quis te oferecer uma noite de amor inteira.
Naquela hora eu senti que tu eras muito maior que eu...
Tu, porém, disseste que não; que tu eras menor que eu.
Tu és uma mulher apenas? Não! Tu és uma criança...
Uma menina que, além der ser maior que eu, é tudo.
Ali eu notei que havia coisa melhor pra te oferecer.
Uma palavra não é coisa alguma diante de um presente.
Um presente, todavia, pode ser uma coisa qualquer.
Eu quis então te dar outra palavra, para juntar àquela...
Uma outra que dissesse mais a ti. Que falasse mais...
Entre tantas, escolhi a menor. Escolhi outro pronome.
Um que te unisse ao sentimento que aqui carrego.
Refletindo, percebi que uma outra palavra era preciso.
Nem a procurei, pois ela me achou; era um verbo.
Depois então escolhi o teu próprio nome... Lindo...
Nome que dito ao vento cria um eco interminável.
Desconfiei que poderia te dar mais palavras ainda.
Poucas palavras eu te dei... Eram tão poucas palavras...
Eu sei... Mas muitas outras palavras a ti darei ainda.
Naquela hora te dei umas, suficientes, cabíveis, totais...
Naquele momento oportuno eu as dei totalmente a ti...
Naquele instante eu disse: eu te amo, Tana!




Sábado, Abril 15, 2006




"A FILOSOFIA DOS TROPEÇOS"
(Paulo Queiroz)

Cessada a tempestade, a calmaria voltou, e com ela a verdade: a minha paz vem da reflexão e do entendimento de que você é o repouso que requer o meu coração. Admitidos os fatos então, não me resta muito a dizer a não ser aquilo que você ainda não sabe, e do que tampouco desconfia... O que sei é que eles, os fatos, são capciosos e fartos de contentamento, simultaneamente.
O que sei é que a incerteza que eu tinha sobre o verdadeiro afeto não me concebia o direito de escrever o teu nome sem aspas; hoje, porém, sendo eu a minha própria testemunha, dum monólogo que eu mesmo criei, assim como muitas outras coisas e situações eu idealizei, e que me fizeram tropeçar tantas vezes, posso agora discutir comigo mesmo o quanto é bom apreciar a verdade, e o quanto é louvável viver por você...
Por seu intermédio eu rompi -- sem medo -- com os meus próprios demônios, e já consigo molhar o dedo e virar as páginas mais carcomidas pelas nódoas do passado, e reescrever o meu presente. Antes, todavia, eu era ficção, hoje eu vivo o exercício da realidade desnuda, crua, oposta aos arquétipos que poetizei para cobrir-me a vergonha de ser eu mesmo: um poeta satisfeito, cuja origem social proba se defrontou, durante meses, com uma agonia visceral, elemento duma experimentação banal envolta pelo engodo.
Foi mister morrer um pouco, para que eu nascesse um pouco mais. Foi conveniente substituir a sintaxe por uma doutrina estúpida que prevaricou durante todo o processo de experimentação. Foi vital, àquela altura, corromper a moral, pela necessidade de se provar que a linguagem seduz até mesmo os mais soberbos e presunçosos, como ocorrera na experimentação mais sem nexo de causalidade da minha vida. Deve-se aqui, pelo exposto, dizer que a oratória salpica falsetes na consciência dos atores que se desviam dum caminho já traçado, sem o consentimento daqueles que os amam.
Escolhas torturam, e às vezes doem durante o resto da vida toda. Doem mais ainda quando descobrimos, a duras penas, que não sabemos mesmo é de nada... Que não somos tão valiosos como o são os lixos que produzimos, mormente nos nossos malogrados experimentos.
Reconhecidos os tropeços, cabe considerar também que o espaço da felicidade sempre esteve disponível em mim, receptivo, não valorizado, preterido, porém, pelo ficcionismo que veio arrastado por escolhas equivocadas; mas não somente as escolhas fingidas, empregadas para provar o óbvio (a tolice passional), mas também a escolha de experimentar o comum, deslumbrando-se com ele achando-o, sem entendimento algum, o mais prodigioso dos acontecimentos, sendo apenas o comum.
Há, este coração decadente, recobrada a sua faculdade de compreender as coisas, de prestar ao uno amor a veneração devida, instaurando aí a minha verdadeira face, cumprindo-se o que fora escrito há muitos anos, entre eu e o amor afim.
Passada a tempestade, tropeçar menos é a meta. Menos ainda se pretende experimentar aventuras nefastas, a fim de se provar, como já fora dito, o óbvio ululante. Não se pretende mais quebrantar a índole diante dos desejos vazios, obstinados pela representação, pela nociva rética, e pelo fingimento à-toa. Até o próprio fingimento precisa ser justificado por propósitos legítimos.
Se somos crápulas, somos culpados, e desmatamos um terreno fértil para a construção e uma estrada que leva ao ódio alheio. Se somos leais e francos, num sentido oposto, caminhamos também para a construção dum caminho que leva ao ódio ainda mais aguçado. Melhor mesmo é não escolher... O melhor a fazer é ficar atento às pedras pequenas, que derrubam porque são subestimadas. Passada a tempestade, a meta é amar você novamente.




Segunda-feira, Abril 03, 2006




"MIMETISMO"
(Paulo Queiroz)

Ela é o elo mais vital de fortificação do universo comum dos déspotas, e é a ponte mais ligeira para fazer laço com o desenvolvimento humano dentro das súcias. Ela é a única chave capaz de despedaçar os complexos segredos que vedam o portal da ostentação. Ela rege cotidianamente a convivência culposa. Tenta-se diuturnamente modificar-se o seu rosto de formidável beleza, e justificar as suas palavras de incomparável primor, mas a sua essência perniciosa permanecerá incólume e intocável até a existência absoluta do cosmo. Sua alma permanecerá inalcançável, como inalcançável será a sua compreensão plena.
Sempre que ela caminha entre os bichos, veste-se de trapos desconhecidos, criativos, mas, na maioria das vezes, ela se orna de túnicas perfeitas e emblemáticas, com fios dourados de valor incalculável. Nem ciência nem tecnologia podem descrevê-la desde os pés à cabeça. Muito menos pode o homem reconhecê-la entre seus muitos amores. Ela passeia, quando quer, entre todos sem se doar aos sentidos. À visão não se curva, e nem ao olfato mais apurado se permite, nem ao tato ou paladar, muito menos à audição, e caminha impassível entre os fidalgos, entre os vassalos podres, entre os senhores de grande riqueza, entre os frades, os apóstolos, os profetas e os sacerdotes, entre os santos e os devassos e entre os doutos e os insipientes. Ela estará sempre entre os mortos e os vivos, habitando em suas esferas previsíveis e medianas. Haverá sempre alguém para cortejá-la, e estes serão sempre muitos, que nem grânulos e pó de estrela.
Cada boca que a beijar estará instantaneamente encarcerada às suas seduções, e jamais deixará de procurá-la novamente, porque a sua língua tem o sabor vicioso mais correspondente à satisfação e à realização, entre tantos outros gostos existentes. De cada abraço seu de que um corpo se servir, estará cunhando a própria pele com a letra de justificação do ente, e estará invadindo o seu próprio ser com a dúvida do supra-sensível logro.
Ela tem o poder nas mãos. Ela é o instrumento mais perfeito de extinção dos homens. Ela influencia no destino. Ela descaracteriza os sonhos e eterniza a história dos amores, tanto quanto atesta o estado de crueza comum aos animais racionais. Ela é mutável que nem os dias, e possui os métodos mais confiáveis de desfaçatez, como a própria noite. Seu sorriso animador e de caráter constante se converte noutras atitudes perturbadoras e permanentes. Ela dita regras. Ela impõe hábitos que aprisionam e subjugam a espécie dos hominídeos pensantes. Ela é cruel.
Nenhuma pessoa ou criatura poderá sobrepujar as suas propriedades morais e as suas qualidades específicas de entidade imorredoura. Ela jamais de ultimará, ou se deixará apanhar pelos que a perseguem, a fim de lhe pungir a carne. Se perseguida, ela exercerá o seu intrínseco polimorfismo, sempre. De lâmpada fúlgida ela se transfigurará, de ímpeto, em escuridão contígua, não permitindo o entendimento dessa metamorfose que se move com assombrosa velocidade.
Ela jamais padecerá de solidão, porque é parte integrante dos corpos, de noite, de dia; nos bares e nas ruas, e em casa. Na cama e no chão, ela sempre estará cingida de companhia. Ela nunca morrerá, porque não se deixará capturar. Ela jamais se extinguirá, porque se perpetua em cada canção, poema, palavra, tese... Ela não chora, porque desconhece lágrimas próprias. Ela nunca dorme. Ela é linda, é elegante e feliz. Ela é essencial e desprezível, mas não se pode sacrificá-la, ou privá-la da vida. Ela é a estrada principal para se chegar aos objetivos mais extraordinários. Ela é humana, e tão-só humana.