PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Quarta-feira, Agosto 23, 2006




"São tantos cistos pelo corpo, e nenhum grito pra acalmar.
Não há nada que aplaque esse desgosto de não lutar.
Aqui há mais pesar repousando sobre o espírito,
Do que desejo por alento ou respostas que façam calar...
Há de se descerrar a porta, então, pra rever-se a coragem entrar,
Porque os olhos são lâmpadas que ofuscam o coração,
E que entorpecem o homem frio e negligente,
Que dia qualquer, sobre leito murcho, há de acordar".

"O Silêncio dos Vivos"
(Paulo Queiroz)


"O SUSTENTÁCULO DO ESTELIONATO SOCIAL"
(Paulo Queiroz)

Há sempre muita coisa a dizer sobre o comportamento de certos parasitas que estão encravados no meio social, mas direi só o básico sobre alguns. Nesse sentido, sinto-me livre para destacar os mais "importantes" no processo de estelionato social que campeia por aqui; são: líderes religiosos insanos, que na maior cara de pau condenam todos os dias milhões de pobres coitados à alienação irreversível; políticos irresponsáveis, predadores da moralidade e da esperança, que atuam afiançados pela impunidade crônica que alumia os caminhos e destino do nosso país; sindicalistas pelegos que vivem dependurados nas mamárias do idiotismo, à sombra tranqüila duma cegueira que assola seus sindicalizados; e os estudantes medíocres, aqueles que fingem aprender enquanto os professores medianos fingem ensinar... são acadêmicos perdulários, cujas atitudes escarnecem o bom senso e dilaceram o futuro do profissionalismo. O Brasil está abarrotado deles.
Sendo estes alguns dos principais agentes causadores dessa condição antagônica que destoa de uma realidade social promissora, sua postura estabelece, contra os que verdadeiramente lutam, uma expressa ressalva que enseja um progresso inócuo e sem efetivo resultado para a sociedade. Seu comportamento é absolutamente nocivo, e seus discursos produzem debates consubstanciados com a mentira, e são repletos de sofismas escondidos atrás de belas palavras, porquanto, cheios de contrapontos e contradições.
Pastores loucos, bispos doidivanas, gurus afeminados, macumbeiros enlouquecidos, e até mesmo muitos padres tarados, todos os dias, dentro de templos majestosamente suntuosos, em verdadeiras sessões de alquimia insana, conseguem transformar o que é ridículo em fato aceitável... Estes caras são capazes de transubstanciar excremento pútrido em dinheiro vivo, com suas mentiras sobrenaturais quem ofendem ao caráter realístico do mundo moderno, do futuro, e fanatizam seres desesperados de alma quebradiça, desprovidos de conhecimento. Muitos dos que são arrebanhados pela imundície doutrinária desses líderes religiosos mentirosos, nunca mais se libertam do universo de deterioração mental ao qual são introduzidos.
Outros são os chamados representantes do diabo, que se intitulam representantes do povo, os políticos; eis o tipo mais perigoso para o estabelecimento do estelionato social, pois se tornaram historicamente os espécimes parasitários mais deletérios que a sociedade já pôde conhecer. Eles se acautelam da ignorância alheia, das necessidades mais basilares das pessoas, da fome, da miséria, da desgraça dos seus semelhantes, para exercerem suas burlas. A propósito disso, Roberto Campos, grande pensador do nosso tempo, disse certa vez: "a burrice no Brasil teve um passado glorioso, e tem hoje um futuro promissor"... São palavras que descrevem a nossa marca mais sinalizadora: a nossa burrice eleitoral... Provas incontestes disso são as telhas, óculos, tábuas, pedaços de carne, peixes estragados, requisições, favores pífios, pequenas migalhas e até mesmo dentaduras, que são trocados diariamente por votos, dentro dos gabinetes de vereadores, deputados, senadores e políticos de toda sorte. Conheço muitos que fazem isso.
A forma de estelionato social menos combatida, dada a sua estagnação ante aos míseros procedimentos de reforma progressista no Brasil, e o seu feitio providencial, é o sindicalismo atual. Os sindicalistas inescrupulosos que, em troca do nada, pilham o patrimônio dos que lhes confiaram suas esperanças de melhorias no trabalho, ao contrário do proposto, se exultam no acúmulo de seu próprio patrimônio, preterindo as lutas prometidas às suas categorias. Esse tipo de estelionatário social é empiricamente amparado pelo peleguismo histórico e pela covardia intrínseca dos sindicatos, arvorados por regulamentações tendenciosas das leis trabalhistas, que elidem a liberdade de escolha dos trabalhadores.
A derradeira modalidade de estelionato social que se configura em meu juízo, embora se apresente de maneira insignificante para alguns, é a imensurável gama de estudantes que freqüentam diariamente as instituições de ensino com o intuito de apenas engabelar aqueles que os bancam, mas na verdade enganam a si mesmos. Falo, sobretudo, dos que freqüentam as faculdades particulares, cujos preços exorbitam a verdadeira condição econômica da maioria de nós. Há muitos que sonham, de fato, com um futuro profissional, mas, de contrapartida, para entristecer o cenário educacional da nossa pátria, a grande maioria não quer nada com a história do Brasil. Muitos se valem de "jeitinhos" para serem aprovados na marra, sem a devida preocupação com a qualidade do seu futuro profissional e com a sua própria qualificação. Diante de tudo, surgem as seguintes inquietações: o que se esperar deste nosso povo brasileiro? O que se esperar do futuro, haja vista já termos recomeçado inúmeras vezes e nada muda? O que esperar de nós mesmos?
Pois é, eu acho é que se não criarmos a velha e exortada vergonha na cara, tentando idealizar modos reformistas de verdade, estaremos fadados ao continuísmo dessas coisas todas das quais reclamamos, daí, estaremos sempre, sempre, sempre recomeçando. Então, penso que toda essa porcaria: religião insana, política espúria, sindicalismo pelego e classe estudantil medíocre, são os setores arruinadores da nossa sociedade, entre outros, e merecem a nossa atenção e o nosso ferrenho repúdio. Reclamar, acusar, fuxicar, delatar, espernear pro nada... isso lá é negócio!!! Temos mais é que agir.




Domingo, Agosto 20, 2006




"O ADVOGADO E O PUBLICANO"
(Paulo Queiroz)

- Dotô, se for o caso a gente até perdoa esse cara. Não vale a pena ficar aqui nessa delegacia perdendo tempo. Esse negócio não vai dar em nada mesmo, e eu já conheço isso. Além do mais, a gente pode até ganhar uma boa grana com essa parada.
- Não! Peraí! O senhor não está entendendo. Esse cara matou o seu cunhado. Ele cometeu um homicídio e isso é muito sério, entendeu?
- Sim, entendi sim, mas o meu cunhado não era flor que se cheirasse mesmo. Ele vendia bagulho pros moleques. Melhor deixar pra lá, dotô. O cara que matou ele tava muito doido, tava drogado. Foi sem querer. Os parentes dele tão até a fim de fazer um "acerto" com a gente.
- Amigo, não é assim, não. Isso é matéria incondicionada, é preciso apurar a situação.
- Acuma?!
- Isso é "ma-té-ria in-con-di-cio-na-da", meu colega. É preciso apurar.
- Puta merda! Agora foi lascou tudo, dotô! Agora é que eu não entendi porra nenhuma mesmo!
O advogado da família do falecido já estava ficando invocado, porque percebia que o cara era desafeto do cunhado finado e, tal qual, era enrolado também. Estando já impaciente com a perturbação do cara, disse o causídico, aloprando nos exageros de praxe:
- Meu amigo, ninguém pode abertamente demolir a estrutura da ordem jurídica nacional, uma ordem fundada em princípios morais rigorosíssimos e que fazem parte dos fundamentos do Direito Brasileiro, entendeu?
- Ãrran, entendi sim... Mas dotô...
- Não! Nem continue, meu caro! Já notei que o senhor é daqueles que ferem o decoro numa sociedade que anseia todos os dias por Justiça. O senhor fere as noções do caráter judicial, que é a nossa esfera poderosa. Fere intimamente os rituais processuais essenciais à ordem social.
- Concordo com o sinhô, dotô, mas o que significa essa parada de "matéria incondicionada"?
O doutor, empolgado, respondeu: - quer dizer que é uma ação que não depende da sua vontade para seguir os ritos ordinários. Quer dizer que quem "processa" o criminoso é a Justiça Pública.
- Ritos o quê?
- Ritos ordinários. Olha, mano, não quero ser indelicado, mas é melhor o senhor parar de me encher e deixar eu fazer o meu trabalho, viu? Se a família requereu meus serviços para auxiliar a Promotoria nesse caso eu vou fazê-lo. Com licença.
- Sim dotô, concordo, mas se eu conversar com a família eles podem deixar isso pra lá, sabe?
- Meu amigo, eu vou te dizer pela última vez: a ação é incondicionada, o Ministério Público tem que apurar, não tem jeito.
- Ministério Público? Mas o que é que o pessoal de Brasília tem a ver com isso, dotô?
- Pessoal de Brasília? Como assim, rapaz?
- Sim, os "ministério" não é em Brasília?
- Não, companheiro, Ministério Público é o órgão responsável pela apuração e pela promoção da Justiça, entendeu? É o Ministério Público que oferece a denúncia.
- Não sinhô, dotô! Aí eu disconcordo. Quem denunciou foi nós da família. Não foi ministério nenhum, não!
Nesse passo, a animosidade do advogado crescia, e a sua tensão aumentava. Nem o seu exibicionismo e a sua laboriosa linguagem o faziam se entendido por aquele homem inculto, que por sua manifestada ignorância carecia de esclarecimentos mais objetivos, longe do tecnicismo que regia a atividade daquele advogado -- como rege a de muitos por aí. Depois, portanto, de suas reflexões malfadadas, e de se desaperceber que agira com imprecisão e com modos técnicos exacerbados, o advogado perdeu a compostura e explodiu em verborragias pra cima do cunhado da vítima, sob o domínio de emoções violentas e descontroladas.
- Companheiro, eu estou perplexo com a sua atitude criminosa. Nada vai solucionar este problema aqui, que é uma constante no Brasil, sobretudo em Manaus, entretanto, o seu comportamento delinqüe totalmente o contexto social. Suas palavras e suas intenções beiram a irracionalidade comum dos vagabundos.
- Cumé que é, dotô?
- É isso mesmo, mano! O senhor está me confundindo com um pilantra! Sou homem vestido de sentimento honesto e, portanto, não sou um mero operador do direito que pugna apenas pelos numerários gerados pela atividade. Não sou "advogado de porta de cadeia", não! Sou profissional de verdade! O senhor, ao contrário, é um vagabundo desavergonhado!
- Peraí! Agora o sinhô tá me ofendendo! Pegue leve, viu? Senão...
- Senão o quê? Vai fazer o quê?
- O sinhô é dotô mas não é Deus, não, tá sabendo?! Me respeite!
- Me respeite o senhor! Não passei a minha vida inteira estudando pra ter que aturar agressões e ignorância de um qualquer! O senhor é um sujeito que, pelo visto, não é afeiçoado ao trabalho, e é inimigo da Justiça. Não tenho culpa se o senhor é burro e não entende as noções jurídicas que só um especialista como eu conhece. Vá estudar, seu vagabundo!
- Vagabunda é a sua mãe, seu dotozinho de bosta!
- O quê? O que você disse, seu filho da puta?!
Aí o couro comeu. Aí foi uma porrada de policial apartando o cacête entre o técnico e o ignorante. Era um momento crítico aquele, onde reinava a intolerância, onde o publicano se fez advogado, e vice-versa. A significação do equilíbrio e da clareza do discurso ficou prejudicada pela personalidade irascível do "especialista", exibicionista, intolerante, contra a vaga e enlameada razão de um homem que fora a vida inteira agenciado pelo crime, cuja conduta, na tentativa de valorizar os efeitos produzidos pela impunidade, valia-se sempre do "princípio do menor-esforço" para adquirir as coisas.
Ao passo que a audácia vingadora comum dos que têm um membro da família ceifado pela irresponsabilidade humana, e pela imprudência dos homens, não impunha o ódio ao sujeito, por outro lado, o cara estabelecia sentido apenas na forma mais "rápida" de solucionar a fatídica situação, sugerindo elementos pecuniários a uma realidade que requeria observância moral e legal.
Esse tipo de comportamento nasce das dúvidas e do desconhecimento existentes dentro da sociedade, cuja ignorância é agravada pelo histórico tecnicismo que emerge do verbalismo e da prolixidade que corre nas veias da Justiça Brasileira.
Clareza e objetividade! Esta é a "oração de ordem" na expressão do aparato judiciário. Deixemos para os retóricos saudosistas e "barbosistas" os exageros sinonímicos que infestam as petições e as argumentações jurídicas atuais. Deixemos para a licença poética -- que dista da esfera jurídica, por sua natureza e objetivos -- os devaneios que enfeitam o argumento. Vamos descomplicar a nossa vida e a dos outros!