PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Quarta-feira, Maio 09, 2007




"MERGULHO NA CARNE"
(Paulo Queiroz)

Antes que a traiçoeira se apoderasse do seu corpo, e antes que ela assolasse de tristeza a vida inteira daquele coitado, ele sentiu que precisava ser mais esperto do que a maldita desditosa. Sabia que precisava mergulhar naquela carne de amor com toda a suavidade e o carinho que o seu copioso e sentido amor predizia... Era sua missão possuir aquela carne de mulher apaixonada, de amor. Era seu maior intento antecipar-se à dita cuja perversa que poderia surgir a qualquer desavisado instante. Antes que a mal-aventurada chegasse ligeiro, e antes que ela marcasse de indolência, de apatia, de sulcos a cara daquele homem, ele precisava mergulhar naquela carne macia; e antes que a vontade de viver rareasse para sempre, tinha ele que mergulhar naquela carne de amor.A presença daquele corpo afugentava o homem das lembranças de todos os desatinos da vida, daí a pressa dele em mergulhar naquela carne...
Aquele corpo de amor... Aquele espírito de docilidade verdadeira, autêntica, veraz, jamais amou aquele homem pela cobiça, ou pela força do bem-trajar... Aquele corpo de amor estimou aquele homem pela força do desprendimento, da abnegação, da renúncia, do amor mais verdadeiro que há... E ele então se mergulhou na sua carne ávida; e precisavam daquilo, antes que o flagelo acampasse em suas almas.
Antes que essa maldita fizesse, dos dois, corpos mortos trazidos no triste cortejo à cova-rasa do desespero, ele carecia mergulhar naquela carne de amor... Era sua missão... E ela, a maldita, fatalmente chegaria... A dita cuja danosa chegaria sim... Porque dela não há quem escape... Porque depois dela pode não mais sobrar uma única migalha que garanta mais amor... E ela viria, a cruel...
E quando aquele homem pressentiu que tudo poderia se findar, apressou-se mais ainda para mergulhar naquela carne de amor... Era uma necessidade, uma precisão sua... E dela também. E num mundo derribado pelo auspício da efemeridade, donde ninguém se dá ao amor por esperança viva na longevidade, o homem tinha a certeza da perda... Tinha a certeza da fragmentação possível de seu amor puro e acentuado.
Neste mundo cru e irrefletido, onde a sujeição e o pulso tolhem a liberdade do ser na escolha de quem amar, o homem então tinha mesmo que mergulhar naquela carne de amor... E aquilo urgia. Aquele homem sabia que quando a dita cuja chegasse, e chegaria com terrível potencial, o faria perder a cabeça e esbagoar-se no caminho do mal; e o esfalfamento trazido pela monotonia e pelas oscilações noturnas o fariam desistir da caminhada. Por isso era vital mergulhar-se naquela carne de amor, antes que o tardar se fizesse anunciado, com achegada da dita cuja desditosa, e o desdém...
Aquele ser pouco durável, que corria às tontas alucinado, sem rumo e sem prumo, e que tinha pavoroso medo dos senões dessa vida tão famigerada e hesitante, quanto à dita cuja, que se chegava, fez-se feliz quando recebeu aquele corpo para o mergulho mais aprazível de sua vida...
As vicissitudes do dia-a-dia daquele pobre eram abrandadas pela presença afortunada daquele corpo de amor, lindo... E seus revezes eram desbaratados pelo vasto querer que lhe foi dado, antes que ela, a desafortunada, chegasse... E ele mergulhou como nunca havia feito na sua vida, naquela carne de amor, assegurando-se às lembranças maravilhosas... Antes que ela chegasse... E sem dar impressão nenhuma de que o macho nunca se põe a prantear, ele permitiu que numerosas lágrimas gotejassem de seus olhos deprimidos, por riba de sua face habitada pela insônia, revelando as tormentas que se enclausuravam no seu pobre corpo, por ela...