"MOЯRTARIUMM"
(Paulo Queiroz)
Nesse ritual pubertário de soluços e mortes
Devaneiam as vidas atinadas pela findura ilibada
Mortariumm de dor na tua cara de flor murcha
E de incenso da amazona apagado pelo frio
Crias de mamas absortas pela resina infeliz
De legado estúpido e bruto que cheira a nada
Funde-te ao Mortariumm vastíssimo infindável
E virá como vesúvio alastrador que fará poeira
Havendo a cilada enfeitada pela face angelical
Não haverá também o anjo divinal guardador
Afligirá-te o fogo demoníaco e assolador
E a tua carne queimará nas línguas ardentes
Tuas crias de mama nem prantear poderão
Não te será permitido um único choro nos ecos
Mortariumm vem em fúria funesta e hedionda
E crepitará a tua alma rasgada e atrevida
Ingere o teu veneno carreado por Mortariumm
Degluti a insípida malicia vinda do monte alto
Desfalece e sucumbi aos sopros atormentadores
Tua liberdade foi estorvada para sempre, mata.
"LIBERDADE MUSICAL: O DIAPASÃO QUE AFINA A VIDA"
(Paulo Queiroz)
Tocar um instrumento musical qualquer é uma faculdade extraordinária que requesta do artista um devotamento extremo, embora em muitos casos essa atividade dispense o estudo regular da arte musical e a aplicação de métodos inteligíveis ou de processos de intelectualismo artístico. Conheço exemplos fulgentes de conceituados cancioneiros e mestres da musicalidade amazônica que nasceram com o pendor melodioso da construção da canção, pessoas que jamais tomaram assento numa escola ou numa universidade para a apreensão das "ciências da música” aplicada.
Entre os inúmeros que conheço, que inclusive foram vencedores de grandes festivais da canção, ressalto nomes como: Antonio Pereira, um dos maiores expoentes da cantoria amazonense, autor de obras memoráveis da nossa música ("Canto Geral", "Horas Marianas", "O lago das 7 Ilhas", "Pássaro, Canto e Cativeiro", etc...); Rosivaldo Cordeiro, um dos grandes violonistas amazonenses, senão o de maior prestígio na atualidade do cenário musical local, criador de referências musicais valiosas, entre as quais a mais importante de todas: "Canto de Guerra", e Walflan Ribeiro, um grande nome dos ponteios e elaborações de músicas que eclodem no romantismo absoluto, onde cabe aqui citar a obra musical "Sem Juízo", belamente interpretada por Carlos Batata, um paulistano prosélito do "caboclismo".
Neste texto vislumbra-se, ainda que à tênue luz, uma oposição ao método cego: matéria de qualquer procedimento que implique penhor, sobretudo no logro científico do mundo contemporâneo. O professor Rubem Alves, um dos maiores catedráticos das ciências sociais e da filosofia, exorta em seu livro "Conversas Com Quem Gosta de Estudar", que embora se deva aplicar mérito à metodologia, não se deve em tempo algum se sujeitar o indivíduo tão-só aos preceitos metodológicos, infligindo-o ao medo e à hesitação em suas aventuras pela aquisição do conhecimento, em qualquer área que seja.
Eu, pessoalmente, quando me aventuro a compor canções, quando construo despretensiosamente minhas poesias, arvoro-me primordialmente nos anseios que afluem do meu espírito, quase sempre subvertendo normas e preceitos técnicos que "moldam" o universo da poesia. Na maioria absoluta das oportunidades em que produzo poesias e músicas, desvio-me dos determinismos, das formas impostas: rimas, métricas, estilos... Mesmo sendo assim, petulantemente subversivo e transgressor, atribuo o germe dos meus anelos literários a grandes mestres da literatura brasileira e portuguesa que pautaram grande parte de suas concepções artísticas ao método, aos quais também reservo minha grande admiração, entre os tais, os exímios referenciais da arte poética: Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Machado de Assis, Castro Alves, e o meu grande pai literário, Thiago de Mello.
Quero finalizar estas minhas palavras antagônicas encorajando os meus concordantes que almejam as veredas sinuosas do universo poético e musical, no sentido de abster-se dos métodos que propõem ao pensamento o escravismo indiscriminado e o embaraço em detrimento do livre-pensamento. Aos que, como eu, repudiam a metodologia cega, sugiro a preferência do desprendimento e da liberdade de criar, de aventurar e de ousar na criação de suas poesias, textos, canções e o que quer que permita à vida ser melhor e mais aprazível e deleitosa.
Quero me juntar aos que incentivam o autodidatismo, os estudos autônomos, a poesia-livre, a música espontânea... Quero me engajar no grupo dos poetas e artistas que pelejam pelo revés da estratificação artístico-literária, e me agregar aos ideais libertários dos princípios poéticos que se furtam do método, das rimas... Poemas-livres também produzem lágrimas que abluem a face do amor... O violão sem o pentagrama também concebe canções que arrimam os enfraquecidos pela paixão... Pianos sem as partituras também soam melodias encantadoras; também exaltam ao amor... A liberdade de aprender, que o diga o coração do poeta, é o diapasão que afina a vida.