"MALDITAS MANIAS"
(Paulo Queiroz)
Velejo feito um vento imprudente pro teu rumo, perdido, amando em tua direção, e tu, negligente, sempre me surges com alguma questão nova... Manias! Malditas manias!... E me envolves premeditadamente em teus hábitos convenientes, e em silêncio, crendo absolutamente nos teus interesses de manter-me teu, mas te esquivas para que eu não possa beijar-te a boca... a tua boca traiçoeiramente embriagada e lavada pelo teu desejo e pela tua soberba.
Até aquela canção que deixa, hoje, a minha vida por um fio, parece ser favorável às tuas ciladas... parece querer ajudar-te no meu suplicio. Inacreditável! Essas tuas malditas manias indignas de me envolver covardemente atormentam o meu coração que, servil, raramente raciocina ou procede inteligentemente. São as tuas malditas manias... Ah, manias malditas!
Fico esperando de ti sempre uma solução para que eu possa desenraizar de vez a antiga paixão, e sair do ceticismo maldito... por causa das malditas manias, universo de ilusão. Só que sempre tu me subjugas, e subestima o meu entendimento. Sempre me peitas com tua fala envolvente e mágica. Até aceito que te ame tanto a ponto de submeter minhas faculdades à sujeição dessas tuas manias terrivelmente malditas.
Se te laço em meus abraços tu escapas, evadindo-te, por hábito maldito, indo para colo alheio. Sinto tua digressão oculta nas palavras macias que destampam meus ouvidos alucinados. Por causa da tua fuga, às vezes penso que tuas malditas manias são por obstinação de me martirizar... Noutras penso que é por falta de amor mesmo. Quem aclarará duelo tão obscuro?
Do que procedem afinal teus malditos hábitos? Até furtar-te simples amor é impossível! Tenho por incumbência humana que disfarçar os piores momentos de falta de firmeza, de tendência a ceder, mas por outras, tuas manias malditas e altivas deixam meu corpo trêmulo... abalam meu flanco racional, cada vez mais fraco...
Quando tu me beijas, alimenta a minha alma escrava a prosseguir no suplício, aí é que a confusão alarga-se no meu íntimo e nos meus pensamentos vãos. Começo a pensar que tu estás a me amar de fato, contudo, a complexidade das tuas malditas manias me detonam, tanto que tudo o que sinto agorinha aqui dentro de mim é vazio. Mas há outro sentimento muito mais poderoso vagando ociosamente dentro do meu corpo, e que não está mais nem no coração, onde pode ser alcançado.
Esse sentimento migra daqui pra ali e de lá pra cá... Está em todo o corpo agora... Não consigo encontrá-lo, este maldito sentimento vadio, para que eu possa aniquilar a sua força. É como o vírus: desloca-se quando está para ser apanhado.
Malditas manias, as tuas! Malditas manias! Malditas correntes! Ainda dilacero esses liames malditos e rompo esses malditos elos que me porão à alforria... Ainda rompo contigo... Pior já esteve!
“À BEIRA DA MORTE"
(Paulo Queiroz)
Muita gente não sabe, mas há uns 25 anos -- e eu me lembro muito bem, embora fosse um pirralho --, lá nos beiradões do interior quando morria um indivíduo as coisas funcionavam assim: primeiro, como em qualquer evento fúnebre, velava-se o defunto com ritos de suplícios nas primeiras horas de falecido; depois, com o avançar das horas, as pessoas costumavam conversar a respeito de tudo que era assunto e que fosse interessante para mantê-los acordados e presentes no velório. Se o finado fosse uma pessoa "do bem", ou mesmo se fosse "do mal", isto é, se em vida tivesse sido um homem de respeito e bem conhecido na comunidade, e se fosse uma pessoa trabalhadeira e honesta, ou se tivesse sido um canalha, um bandido, etc., em ambos os casos dava-se valor total à alma do cabra. De qualquer forma o cortejo era "considerado".
Quando chegava a hora de enterrar o extinto, do "bem" ou do "mal", o ataúde era lacrado para ser aberto apenas minutos antes de baixar à cova. Um detalhe: todo mundo que "batia as botas" era velado na própria casa, ao contrário de hoje, que se velam os mortos, do bem ou do mal, em funerárias. Naquele tempo, no interior, não existia esse tipo de serviço. Hoje as pessoas não desejam mais velórios em casa, porque têm medo de "assombração", de "visagem", do bem ou do mal.
Independente de onde morasse o finado, o cortejo saía de sua casa até o cemitério como se fosse uma procissão: todos a pé, e nos interiores do Amazonas só há um cemitério em cada cidade. Não se deveria levar o caixão em riba de carro, pois isso era considerado desrespeitoso ao finado. Tinha-se que selecionar 4 amigos dos mais "chegados" para carregar o caixão durante todo o trajeto até o cemitério, às vezes revezando-se com outros sem deixar o caixão no chão. Trocava-se de "carregador" com o caixão suspenso mesmo. Durante o cortejo, todos os estabelecimentos comerciais que havia por onde passava o féretro fechavam suas portas até que o último membro do cortejo passasse. Isso representava o respeito que se tinha pelas almas, sendo o finado uma pessoa do "bem" ou do "mal".
No cemitério, no momento do enterro, a prioridade para aproximação do caixão era dada às pessoas mais próximas da família do morto. Formavam-se filas circulares para que todos pudessem se despedir do finado. Abria-se novamente o caixão, pela última vez, e se executavam rezas e cantigas religiosas, o que promovia a comoção dos presentes. Depois de alguns minutos baixava-se definitivamente o caixão à cova. Terminava-se então o funeral, todavia, depois de algum tempo, alguns ritos deveriam ser cumpridos para o "bem estar" da alma do extinto.
Depois de no máximo seis meses do funeral, o barro que formava a elevação na cova onde fora enterrado o morto, deveria ser substituído por uma sepultura oficial com lápide e cruz. Por quê? Porque, segundo criam naquele tempo, se a alma do homem tivesse ido para o céu, aquele monte (a elevação de barro) sobre seu corpo estaria com a formação ainda sinuosa, isto é, estaria como ficou quando ele foi enterrado, e ele então seria do "bem". Se, ao contrário, o barro houvesse erodido, ou seja, se tivesse afundado sobre o defunto, significava que ele fora para o purgatório, e era do "mal". Nesse caso tinha-se que rezar durante mais seis meses muitas missas em sufrágio da alma do infeliz, para a purificação da mesma, só assim ele teria direito ao céu. E haja crença.
Hoje tudo é absolutamente diferente num rito funerário. Mesmo que o indivíduo tenha sido especial, sua morte não parece mais se representar com simbolismos e outras manifestações de antes, e que davam valor à alma. Talvez pelas mudanças na dinâmica do mundo, ou pelos valores citadinos que não nos permitem mais valorar um evento assim como a cultura nos sugeria antes, ou talvez pela ausência de religiosidade... sei lá. O fato é que se um indivíduo morre hoje como um criminoso, um bandido, aí é que as diferenças se sobressaem.
Por exemplo, com o crescimento do tráfico de entorpecentes aqui em Manaus, todos os dias se matam inocentes e morrem bandidos. Ou morrem os meliantes em porfias por causa de pontos de drogas, ou morrem em lides travadas com a polícia. O fato é que a mortandade tem sido crescente por aqui, e as notícias são ininterruptas, tanto que o número de programas de rádio e televisão que exploram essas desgraças tem subido vertiginosamente. Tenho verificado, e já são quase 5 programas diários cobrindo a morte de pessoas inocentes e de bandidos. E todos feitos por políticos.
Não raro se vê e se ouve: "morreu ontem o bandido Carlos “cara-de-rato”, que trocou tiros com a polícia e levou a pior, graças a Deus!", dizem os repórteres. Ou ainda: "Rodrigo Arigó", mais conhecido como "olho-de-jabuti", foi trucidado por dois bandidos motoqueiros a mando do traficante "Beré: o buchudo", que o fuzilaram enquanto este comia numa lanchonete"... São muitas as manchetes que os programas do gênero destacam aqui diariamente. Programas que preconizam a desgraça e pouco fazem pelas mudanças necessárias no sentido de resolver ou amenizar a criminalidade na cidade.
Outro dia um destes tais apresentadores, na televisão, disse: "graças a Deus que esse vagabundo morreu crivado de balas! Agora eu quero ver os Direitos Humanos virem cobrar um funeral digno pra ele, que já matou muitos inocentes. Ele tem mais é que ser enterrado em pé para economizar espaço no cemitério!"... A população, cansada de tanta violência, de fato, ouve isso com certo "contentamento", embora a barbárie não seja desqualificada... Embora o "bem" não tenha vencido o "mal"...
Aqueles que se valem de factóides, de sensacionalismos, de impressionismos para "catar" votos com promessas de eliminação da criminalidade em Manaus, no Brasil, e que se vestem de capa de super-homem para parecerem salvadores da pátria, não têm idéia real da dimensão dessa problemática que é a violência. Não sabem de nada!
À medida que cresce a violência na sociedade manauara, incham-se também os lares de indivíduos sem instrução e igualmente ignorantes, que desistem de estudar para barganhar possibilidades mais "fáceis" de prover seu sustento, seu conforto. E a criminalidade, seja de que gênero for, não está arraigada apenas na sociedade miserável, não, como equivocada ou providencialmente advogam alguns políticos mal-intencionados que falam nas rádios e na TV todos os dias. A violência está presente também (e como nunca esteve), nas altas rodas, donde os tigres comem, bebem e se fartam escondidos dos pobres urubus, que sobrevoam esperando os seus restos. Não há mal! Não há bem! Não existe o maniqueísmo! O que há são classes dispersas, desunidas por interesses comuns (possuir), porém, através de meios (poderes) distintos.
Um tal Comendador Eustregésilo de Santana Klein, por exemplo, que morreu longevo, tranqüilo e de morte natural, aos 93 anos, e que fora um homem "bom" para a sua sociedade, e que contribuiu para o desenvolvimento de seu povo, não era muito diferente do Rodrigo Arigó, mais conhecido como "olho-de-jabuti", que morreu agonizante e precoce, com 29 tiros de metralhadora, aos 21 anos, e que era "mau", porque matava bandidos iguais a ele e porque pagava propina à polícia que o matou, e o matou justamente porque um outro "boqueiro" -- mais "forte" do que ele -- pagou mais para os "gambés". Só que este, o "Rodrigo olho-de-jabuti", não contribuía para a sua sociedade, como fazia o Comendador Eustregésilo de Santana Klein...
O Comendador, tendo sido "bom", fora enterrado no Cemitério Israelita, e recebeu a mais alta pompa em seus ritos fúnebres. Até os governos bancaram seu funeral. As coroas de flores, que custavam entre R$ 400,00 e R$ 700,00, chegavam aos montes, e eram tantas que o pátio da funerária mais parecia um jardim edênico. Aquele dinheiro todo daria para comprar toneladas de alimentos e de livros para aqueles que os pilantras chamam de "desvalidos".
O Rodrigo "olho-de-jabuti", por sua vez, que era do "mal", fora enterrado como indigente no Cemitério do Tarumã, cuja plaqueta-de-cova, fincada pelas mãos sofridas da mãe de um dos adolescentes que foram viciados pelo finado, indicava: "que o peso dessa terra não sufoque a tua maldita alma, como a tua existência sufocou a minha vida, seu desgraçado".
Eis o fenômeno do "bem" e do "mal", estabelecido pela espécie "homo escrotus" (o mais fuleiro espécime que já existiu). Eis o fenômeno que resulta no ódio mortal dos homens, todos à beira da morte.