PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Quinta-feira, Novembro 15, 2007




“UM NOVO CAMINHO”
(Paulo Queiroz)

Estive tentando conceituar de modo lógico e aceitável o que venha a ser um “novo caminho”. Me detive continuamente em inúmeras informações a respeito, e me debrucei horas intermináveis sobre várias concepções de autores correlatos, e concluí que a unanimidade tenta de forma preguiçosa colocar dentro das nossas mentes que um novo caminho consiste tão-somente no gozo pleno da boa saúde, na opulência da riqueza, na ocorrência de uma paixão, na humildade, e nessas afirmações tolas e sem nexo realístico.
Muitas concepções equivocadas advogam que um novo caminho consiste radicalmente na satisfação que ensinam determinadas filosofias mortas e religiões alienadoras, onde imperam as divagações que afirmam ser um novo caminho somente a existência pura da fé em Deus. Basta “ter Jesus Cristo no coração” que já se tem um novo caminho. Ora, Cristo realmente era o cara, certamente o maior homem do mundo, mas, acho muito simplistas estes entendimentos. Não os acho suficientes para concretizar uma certeza de que isto seja um novo caminho.
Quando indago sobre essa questão, cabe salientar, não importa em confessar que me sinto triste, nem que estou experimentando um sofrimento qualquer insuportável. Não estou. Talvez eu esteja apenas reflexivo, num estado de ansiedade agravado pela procura de respostas palpáveis e convincentes sobre tudo isso. Talvez eu esteja apenas decidido a não mais agir como um fariseu... um hipócrita opositor obstinado da razão. Acho que não quero mais ser capacho do atraso, me permitindo o prolongamento de resultados tacitamente reconhecidos, e que podem antecipadamente mostrar um novo caminho.
Eu consegui ocultar por muitos anos as minhas decepções comigo mesmo, escondendo-me nas trincheiras que protegem falsamente os homens. Desde que fui prática e tecnicamente aprisionado pelos dissabores da minha separação, não encontro capacidade para pensar em outra coisa que não sejam dúvidas e incertezas sobre o futuro... sobre o meu destino. Essas sensações não se extinguirão apenas com palavras. Eu sei disso. Mas serão amenizadas com idéias que preciso, a partir de agora, materializar. E vou.
Todos os dias matrimônios se desfazem de um jeito ou de outro. Uns acabam muito mal. Alguns terminam arrastados pelo pavor da solidão e do medo. Outros casamentos simplesmente acabam como se estranhamente nem tivessem existido. O meu se assemelha ao último caso. A ruína da minha relação de quase duas décadas fora se configurando há uns dez anos. Àquela altura já teria se consolidado um importante episódio que concorreria cabalmente para o desfecho vergonhoso dos dias atuais. Essas coisas acontecem, mas seus resultados serão mais severos se contribuirmos para isso.
São tantas as lições existentes para a superação de dificuldades, que não sabemos qual escolher nem qual a mais eficiente. Tive um grande professor que nos orientava nas adversidades, compartilhando conosco um segredo público: “vida que segue!”. Parece prático. Eu seria grato se os céus me fizessem conceber tal assertiva como sendo instantaneamente o melhor dos ensinamentos. Gosto de pensar que poderei reconstruir uma nova vida a custa de muita perseverança, mas não é fácil. Me agrada testemunhar a existência de gente determinada a prosseguir esperançosa nessa vida, ainda que ferida, como o faz o meu poeta-mor, Thiago de Mello, que me ensina: “não achei um novo caminho, mas encontrei um novo jeito de caminhar”.
A partir disso, todos os dias eu olho à frente e vejo um emaranhado de ruelas estreitas e longas, que me convidam pra experimentá-las sem compromisso e sem ônus. São caminhos fartamente prazerosos, cujas caminhadas não demandam grandes esforços. Muito simples caminhar por elas, mas muito difícil acreditar na felicidade que meus passos me darão ao seu final. Receoso, eu hesito em decidir, orientado pela sensação de que “lá vou eu de novo”, e pela ansiedade. Tudo é complexo, tanto quanto já fora simples um dia, onde bastava estender a mão e pegar o prazer de viver.
Atribuo tal complexidade ao merecimento irrecorrível dos fardos pesados que estou, resignadamente, carregando hoje por causa das maldades que já ofertei aos outros. Aceito os atos persecutórios da minha consciência, diariamente, como conseqüência dos castigos que eu impunha no passado às pessoas que não tinham culpa alguma de terem cruzado o meu caminho, decepcionando-as. E não reclamo de nada a ninguém, porque mesmo que eu reclame, a minha dor não sairá nos jornais, tampouco moverá meia-pessoa para aplacar meu desconforto, e nem para me iluminar um novo caminho.
Resta-me claro uma coisa: o meu poeta-mor está certo... Ele é o dono da razão mais equivalente à marcha correta da vida. Estou convencido de que o equilíbrio, o trabalho, a reflexão, a fé em mim mesmo, a coragem, a verdade, a procura racional, a experiência, o estudo, a força, o método, o conhecimento, a realidade, a amizade, a moral, o pensamento, a vontade de recomeçar, a virtude e a paciência deverão ser os grãos de poeira que indicarão o meu novo caminho. Nesse passo, não duvido também de que um amor-panacéia -- que ainda está por vir -- transformará as chagas abismais que estão em mim num jeito novo de caminhar. Sei que tenho um longo caminho pela frente.