"SAUDADE E FLORAÇÃO"
(do romance amazônico "Águas Viajantes")
(Paulo Queiroz)
Eu a percebi com os olhos pregados no céu (...). A face delicada estava nitidamente orvalhada pelas lágrimas que desciam em gotas de saudade antecipada... Parecia saber que aqueles eram momentos não mais renováveis. Sentia prazer por estar ali ao meu lado, mas sofria pelo correr do tempo que urgia de conspiração contra nós dois.
- Por que tamanho assombramento, minha pequena? Perguntei.
- Hã? O que você disse, amor? Falou ela, distraída.
- Eu perguntei por que você está tão espaventada assim, olhando pro céu?! O que você está vendo nele que te prende tanto assim?
- Ah! Claro! Como poderia não se ficar tão admirada com tamanha lindeza? O céu daqui é completamente diferente de outros lugares! É incrível! Tudo muito diferente das brenhas onde eu vivo! Justificava-se ela sem desgrudar-se da luminosidade celeste.
- Como assim, diferente? É tão azul e espelhante quanto os demais, meu amor! Retruquei.
- Não, meu amado! Não é, não! Bom, se eu fosse mesmo explicar como deveria, eu teria que fazer uma infinidade anotações aqui, mas penso que há uma sensação mágica de que as nuvens estão prenhes em todas as suas formas. Até parecem ninfas pejadas de liquido fértil... De amor... Disse ela, chorosa e cheia de ternura, como quem quisesse ficar pro resto de seus dias aqui comigo.
- Puxa! Sendo eu um caboclo, é bem difícil não se orgulhar com a sua apaixonante descrição do meu lugar. Retribuí.
- Orgulhe-se, meu amor! Tudo aqui é muito lindo... Tudo aqui inspira eternidade, longevidade, prazer... Tudo aqui é muito parecido com você. Finalizou ela, apaixonada.
Dessa forma narrava aquela mulher a este caboclo. Ela que veio do frio, donde o carenciamento de agasalho é indispensável para a vida, como um feixe de varas secas para alimentar o fogo que assa o jaraqui... Sentia que tudo nessa terra de fogo incessante era diferente das paragens donde ela vivia. A menina encantadora e alva como a açucena espiã, fez-se sonhar futuros mais elevados naqueles momentos... Amigara-se com a selva de corpo e alma, fazendo de mim, smples selvagem, a razão de ser de sua vida. Foi tão profundamente apaixonante aquele meu enlace de caboclo pardo e da alva menina, que o olhar capiongo da moça sorvia os acordes do vento desse norte aprazível. Eram assobios zéfiros ao pé-do-ouvido, daqueles ventos que engoliam o resto da tarde que nos envolvia, ao Deus-dará do amor (...). Os piscares de olhos pidões, e os suspiros interrogativos que nos instigavam ao gozo punham-nos, de repente, numa relva convidativa para o reclinamento e para o pleno amor. Eu, então, carinhosamente comecei a alisar a pele delgada daquele rosto lindo de alteza, depois deitei-me sobre seu corpo macio e entorpecente, molhado de prazer e que era projetado por uma forma lavrada de corpo ainda em floração... Mas ali aquele corpo fascinante era despetalado em seu desabrochar pelas mãos inábeis de amor deste matreiro apaixonado.
Beijei-a profundamente, como se agradecesse a Deus por ter encontrado a fortuna (...). E do ventre satisfazente daquela mulher, em pleno apogeu da paixão, fluía a fragrância do amor puro, como o que se desprendia das árvores observadoras dali de perto... Era o Silêncio da boca da noite, nessa terra de lonjura (...). Terra e mato, homem e mulher, testemunhavam o envolvimento do índio com aquele tesouro adormecido há muito, a minha amada... Era um novo começo de mundo (...). Às vezes, pelo faro aloprado do índio, assim como o das feras, sentia-se esturro de onça, gemido de bicho faminto, e outros barulhos de selva por perto, mas caboclo que é caboclo sempre anda preparado, além de que a própria terra-mãe protege muito bem os amantes que se valem do seu manto para amar... Até as cobrinhas peçonhentas com seu "arreto" infernal, e que o caboclo sempre varreu no terçado e no cacete, não se abestalharam à intromissão naquela oferenda de orgia sagrada amazônica... Eram somente eu e a minha sertaneja amada (...). E quando ela se foi, eu sabia que seria para sempre... Apenas uma única estrela, solitária como eu, velava a imensa tristeza deste índio; e no infinito brilhava apenas a paz da natureza, mas a própria paz minha não mais havia. Meu amor partira para nunca mais voltar. Restara tão-somente um pôr-do-sol diferente... Queixoso... Um tempo mesclado ao arco-íris descolorado que prenunciava trovoadas, como o que fantasiava, naquele momento, o emurchecer agônico daquela tarde de despedida. E para incrementar ainda mais a sua dor de amor, houve a perturbação do meu silêncio (...). Era o cântico estridente da acauã agourenta que golpeava-me o íntimo com a marca do desespero e da solidão (...). A saudade poluía o meu interior, mas nem firmava um pouco de esperança de um dia ele rever a minha amada. Fiquei, pelo assobio da despedida, no insulamento da selva escura da saudade que engolia meus pensamentos felizes de horas anteriores (...). Nunca mais revi o meu amor, porém, entrego, todos os dias, sem restrições, meus pensamentos às lembranças dela... Todos os dias de minha vida.
“O RESTO DE NOSSAS VIDAS”
(Paulo Queiroz)
Quem lê os meus escritos há algum tempo é sabedor de que sou inimigo em altíssimo grau dos livros de auto-ajuda. Odeio literaturas que comparam pessoas a águias, leões, linces e outros bichos que não têm nada a ver com o nosso comportamento social. Sou contra os livros de auto-ajuda porque eles têm um sentido muito apelativo que, em regra, é ilusório. A pretensão da maioria dos “magos” da auto-ajuda é de fazer entender que a vida é simples de ser vivida e que tudo, tudo mesmo, só depende de cada um de nós. Que nós é que complicamos tudo. Tipo assim: “você será o que quiser ser”... Uma porra que é assim! Nem vou perder meu tempo escrevendo sobre as controvérsias que derrubam essas filosofias ridículas, porque o meu objetivo aqui é falar sobre “o resto da vida”.
Há os que morrem defendendo a tese do “longo prazo”. Isto é, a tese de que os sonhos devem ser realizados obrigatoriamente antes da morte, plantando-se uma árvore, fazendo-se um filho e escrevendo-se um livro. Para mim, trata-se de uma “doutrina” escrota que nos admoesta a plantar hoje para colher no futuro. Coisas do tipo: “seja feliz e vença na vida, sofrendo hoje para ser próspero amanhã”... Coisa mais besta, mano! O negócio é plantar hoje para colher imediatamente. No máximo logo depois. Nada de trabalhar com “sementes de felicidade futura e morosa”.
Os amigos que me lêem também sabem que, na condição de folclorista, sou Garantido “doente”, mas, preciso concordar com o Caprichoso: “o futuro é agora!”. É já! Não dá pra ser feliz mais tarde. Não dá pra gozar a vida -- em todos os sentidos -- “um dia”... Tem que ser agorinha mesmo. O sentido de “resto da vida” não significa assas babaquices que os “gurus” tentam ensinar, não! Não tem nada a ver exclusivamente com os “legados” que devemos deixar pras gerações do devir, não. O resto da vida é a partir de agora. A partir da leitura da derradeira palavra deste parágrafo, que já será passado.
Sou a favor do pensamento mais perfeito que existe sobre o resto da vida, cuja autoria eu desconheço: “viva esse instante como se fosse o último de sua vida”... Assertiva perfeita... exata... Esta frase traduz de modo imperativo o quanto se deve prestar atenção na velocidade que o tempo impõe às pessoas, que é assustadora. O tempo, por sua implacabilidade, nos engana, fazendo-nos crer que o futuro nos espera, induzindo-nos ao ledo engano de pensar que é certo que seremos felizes mais à frente.
Nada nos garante de modo eficaz que “um dia” seremos felizes, ou que adentraremos o “paraíso”, como tentam, à-toa, demonstrar as grandes mídias religiosas do apocalipse. Nem mesmo agora sabemos se seremos felizes daqui a pouco, quanto mais quando nós, os homens, estivermos caindo aos pedaços e sentando em cima dos próprios sacos; e vocês, mulheres, estiverem todas lânguidas, desmaiando ao (e se) chegarem ao único orgasmo do dia. O que nos garante os resultados da vida é viver o agora, mas sempre de modo responsável e moderado, é claro.
O resto de nossas vidas não consiste nos projetos que temos, não. O importante é conceber que os projetos de nossas vidas fazem parte sim de nossos legados, cujos benefícios não se revestirão para o nosso próprio bem, mas sim, deverão ou não, ser destinados a nossa posteridade... nossos filhos, nossos netos... Enquanto projetamos, planejamos, prospectamos, não podemos achar que isso é mais importante do que a vida de agora. Agora é vida. Vida é já.
Como este é apenas o primeiro dia do resto de nossas vidas, vamos pensar, no máximo, nas próximas horas. Vamos pensar que o resto de nossas vidas é tudo o que temos para poder aproveitar, trabalhando e plantando, para usufruir e colher agora mesmo, ou logo mais. Nada de “eu te amo, e um dia vou te provar isso”... Digamos o seguinte, pros nossos amores: eu te amo, e vou te mostrar o isso agora mesmo, porque, a partir de agora, meu amor, estamos diante do resto de nossas vidas.
“O HOMEM DO PARLAMENTO”
(Paulo Queiroz)
O Homem do Parlamento trabalha muito. Tanto mais do que afirmam os insurgentes. Trabalha além do que apregoam as línguas malignas. Seu lavoro é, vezes, terrivelmente acentuado que os seus são preteridos; deixados de lado ao sacrifício de sua ausência familiar, da espera, do anseio, da luta incessante de seu ofício, porque, se não lavorar, não permanece. Mas, para que o discurso da maldade que o estigmatiza se dissolva no meio do nada, é preciso que o Homem do Parlamento crie estruturas éticas fortes e respeitáveis, incorruptíveis, alicerçadas na honestidade e nos propósitos da conquista popular e na solidariedade.
Para ser forte, o Homem do Parlamento tem que acreditar de modo visceral em sonhos, e deve respeitar a utopia necessária à construção dos ideais. Precisa crer de fato nas transformações sociais que vêm de suas ações políticas. Tem que conceber que os seus semelhantes que choram hoje deverão sorrir amanhã, sob pena de transgressão do sentido político de seu próprio mandato.
Não deve ser homem de uma só palavra. Precisa ter duas, dês que a segunda não contrarie nocivamente a primeira, ferindo de morte a democracia. O Homem do Parlamento deve mudar de opinião, se esta afeta a bonança e o bem, e dês que voltar atrás seja frutífero para o seu povo. Não deve ser simpático só para amealhar simples sorrisos e admiração momentânea, ou para colecionar abraços efêmeros. Tem que ser austero e leal às sensações espontâneas, dando certeza aos que nele confiam.
O Homem do Parlamento deve pugnar pela liberdade do seu povo; pela supressão da submissão que carcome a alma dos alienados convertidos em estatísticas citadinas. Precisa aniquilar o assistencialismo infame, destruindo as mendicâncias oportunistas e desfazendo os vícios pecuniários que em nada modificam a vida da sociedade. É necessário que procure falar como se espiasse no profundo olhar do seu povo, sem desfaçatez e sem vociferar o lugar-comum dos sofistas.
O Homem do Parlamento nunca deve confundir ideologia partidária com retrocesso social. Tampouco deve criar estereótipos que o definam como membro de legenda ou de doutrina política arcaica e reacionária. Deve, ao contrário, fazer das bandeiras, das cores, dos sinais, estradas para o grande encontro com as causas em favor das populações, trazendo o desenvolvimento da sua gente, retribuindo à sociedade a confiança que fora ofertada a ele.
O Homem do Parlamento não deve sucumbir às críticas gratuitas, infundadas, infames. Nem precisa conceber culpa improvável, sob pena de enfraquecer ante as maledicências comuns de seus perseguidores. Tem que combater, vestindo-se de coragem e probidade, rompendo o casulo do medo peculiar aos covardes e aos indignos. Deve aniquilar as amarras amaldiçoadas do silêncio injustificado, demonstrando independência e serenidade diante das intempéries que sobrevêm das falsas acusações.
Quando no Homem do Parlamento se achar culpa, todavia, carece imprescindivelmente de humildade e equilíbrio para admitir erros -- que são atributos humanos --, e externar atitudes verdadeiras no sentido de retificar seus equívocos com vistas ao melhoramento de sua própria dignidade de dos seus semelhantes. Não deve, em sua defesa, falar ao léu, demonstrando ironia ou agressividade. Precisa se arvorar na verdade dos fatos e na franqueza elevada de seu espírito.
O Homem do Parlamento precisa admitir a poesia, a literatura, como idéias de Deus para mitigar o suplício d`alma, dando voz à mudez universal e sossego ao corpo. Deve encontrar nas canções mais sublimes as respostas capazes de assegurar soluções para um instante anuviado pelas dúvidas do seu coração. Precisa colocar a existência de Deus antes de sua própria vida, olvidando o preconceito religioso e trazendo à Tribuna a palavra da fé humana e da libertação política... Deve saber que constrói leis que não são suas, mas que guiam o seu povo...
Sabe-se que todo ser é político, mas todo ser deveria ser politizado. Ao Homem do Parlamento cabe, entre outras coisas, oferecer instrução democrática àqueles que amam sua Pátria, o seu chão. Porque o Homem do Parlamento, como ser humano que é, ama, chora, ri, se enraivece... E no conjunto de inúmeras sensações, deve elaborar projetos subordinados às leis de Deus. Deve requerer sempre a Sua proteção para que seja capaz de proteger as massas, em nome da política.
Longevidade ao Homem do Parlamento! Que o seu ânimo possa se estender pelo tempo, orientado por legados positivos, e que suas ações possam alcançar a todos indistintamente.
"CONQUISTA"
Adaptado por Paulo Queiroz
Há, certamente, um lugar exato neste Universo...
Um lugar onde poderei me expressar e me realizar pessoalmente.
Esse lugar pode ser lugar qualquer,
onde eu esteja disposto a ser, a dar e receber.
Neste Universo, há, eu sei, um tempo certo para poder brilhar...
Um tempo certo para iluminar e crescer.
Esse tempo é tempo qualquer,
em que eu esteja presente e reconhecido do que sou,
do que posso, do que tenho a fazer, por mim e por outros.
Não busco longe, o que antes não conquistei aqui.
Exploro a plenitude do momento e do espaço que
conquisto agora e me preparo para alçar vôos,
nos patamares de luz de minha consciência.
Um caminho lindo me acompanha.
Um lugar maravilhoso me aguarda,
A cada despertar... Um lugar qualquer.