PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Segunda-feira, Outubro 20, 2008




"VÊS, MARIA BONITA?"
(Paulo Queiroz)

Vês, minha querida Maria Bonita. Olhes bem. Não é tudo que o verás, não. Esta é apenas a parte que me cabe para contar-te da minha vida nesta selva de subsídios e inspiração para se viver bem. De fenômenos...
Espies a luz, minha Maria Bonita! Olha como ela abarca os meus sonhos, e vê como, embora desditoso, o panorama social ainda é mui aprisionador a este solo-santo, minha Maria Bonita. Vês? Consegues avistar o beijo d'água no céu, amor meu? Aquilo é a cópula transcendental, minha querida. É lá em riba, donde há o apego visceral da deusa nua com os holofotes de raios que vêm dos olhos do deus cobiçoso. Vês? São focos vivos feito tu, que és Maria Bonita...
Aqui, Maria minha, amada, muitos filhos não ambicionam o chão para amar, e nem deitam regularmente as raízes para alimentarem os seus... Aqui muitos são apenas ilustrados pela vã oralidade, perfeita, daquelas que tripudiam os versos e instauram o sofisma como um dogma na alma... Mas, Maria minha, vês: aqui também há muitos que não se cegam tão-só à mediocridade da multiplicação das luzes, nos Natais... Vãos... Há muitos aqui -- que nem se pode contar -- pois são como grãos de poeira cósmica, que se dão à primazia da multiplicação dos pães: verdade, apreço, altruísmo... Alimentos d'alma.
Olhai! Vês! Tu vês, Maria Bonita? É como o teu beijo à minha boca... O teu beijo, esse vento perfeito... Só meu, porém... Que como garboso mistério me transporta ao espanto daquelas aventuras vernianas. Vês, Maria do meu amor? Vês aquela palha entrelaçada? Ela é o leito que nos receberá em aconchego, em nosso bem-estar amoroso. Vês? Vês como o aspecto celestial singular fascina e faz decair o lugar-comum da poesia amazônica? Vês?
Nesta minha casa, que é tão tua, minha Maria de sonhos, sem luta louca pelo bom bocado, onde há fartura, reina a virtude que nos dará o sentimento de amor infinito, de desejos profundos... Onde os ódios represos pela decepção das provas misérrimas do antigo esplendor, dos tempos faustos de amor a Terra-livre, serão desprendidos...
Vês a cor do chão, Maria minha? Será a cor do nosso sentimento de dignidade moral, que destronará o conformismo dos homens, a descrença, a inimizade, o medo, o desamor... Será a nossa cor de espírito, minha Maria linda de amor. Vês a cor do chão, Maria minha? Vês o meu amor? Vês o largo gesto acolhedor a ti, do meu coração, minha Maria? Vês? Eu te amo!