"NÃO TE ACHEI. TE ENCONTREI"
(Paulo Queiroz)
Jamais procure alguém. Nunca vá em busca da poesia. De modo algum busque mudar o futuro, posto que é desconhecido. Não saia por aí, ao léu, atrás de um amor... Nunca!... Nada que você buscar será encontrado. Nada é achado... Encontrarão você. Eu, por exemplo, te encontrei, e jamais te procurei. Foi como a poesia em minha vida: nos enamoramos, de cara, mas jamais nos procuramos. Assim foi com você. Eu não te achei. Nos encontramos. Tu és minha, mormente porque sempre fui teu.
"OS PEQUENOS SERES"
(Paulo Queiroz)
São como pragas estas línguas de nojo dos enganadores, cujas vozes ecoam por toda parte, infestando os tolos com a sua saliva ácida e sustentando os velhos jargões inibidores da visão dos pequenos seres... São como fome devastadora as suas juras sujas, imundas, feito a necessidade extrema que não escolhe o corpo para torturar, mas pertence sempre aos mesmos homens: os miseráveis pequenos seres, que são obrigados aos escrutínios falsos, repletos de atitudes fraudatórias.
Assim como as pestes são estes imorais, que governam mal e nada aprendem, tampouco ensinam, e mentem mais vezes por dia do que respiram diariamente... Assim também são os que professam mal: que nem um açoite no dorso da razão, e não sabem orientar, porque fingem ensinar, e os pequenos seres fingem aprender.
Feito pedra são os pães que ofertam os enganadores indignos aos carentes; são pães de solidez estúpida e de vergonha indigerível. E que nem gelo é a carne dada a alimentar os débeis; insosso é o seu sabor, feito o dissabor da gosma, tal qual ruim é o leite inútil dado aos filhos da puta-Pátria: os pequenos seres, que são muitos, mas que não lutam nunca, e que admitem eternamente o estupro social e a violência cultural impuníveis...
Têm aparência de diabos estas bombas que dilaceram os pequenos seres, criaturas alienadas... São ogivas de fogo rastejante varrendo os seus corpos. Os pequenos seres são como o cristal sob os impiedosos martelos: indissociáveis da fragilidade... São que nem as gueixas: impotentes e fragmentais sobre agulhas de marfim:
Os pequenos seres são feito o próprio povo que os insanos embalam para sonhar, para dormir, pois somente de sonhos parece viver o homem: pequeno ser... Apenas de sonhos são feitos os seus projetos quebradiços, tal qual o são os sonhos dos ícaros decadentes... E não há pão!... E nem o pão que o "coisa ruim" amassou se come por aqui, porque é feito estrume este alimento que dão aos desvalidos pequenos seres. Pobres cães são os desvalidos, pequenos seres, que são como um estorvo aos enganadores poderosos.
Lá vêm os enganadores, montados sobre os seus leviatãs que não morreram... Eles vêm determinados ao aniquilamento dos pequenos seres, que são incapazes de reação... Eles vêm periodicamente, os enganadores, com seus sofismas de engodo encantante, e que fazem dos pequenos seres criaturas imóveis e cativas da ilusão.
Um dia, porém, pela força de um messias, far-se-á dos enganadores meros restos mortais, sucumbidos pela força da vingança colérica dum deus estrangeiro, desconhecido... Um dia eles serão seres morrentes, os enganadores, sem, entretanto, terem extinguido os pequenos seres: fracos, lesos, inócuos, coitados, infelizes...