“MALITATE”
(Paulo Queiroz)
Descubro todo dia que as minhas maldades não têm fim. Todo dia também acredito que há vidas que existem com o propósito exclusivo de desconhecer a felicidade, e passam a vida inteira sofrendo com a felicidade dos outros, mas sem sentir inveja disso.
Cada vez que penso dar a volta por cima e redesenhar uma nova história de vida, mergulho sem medos nos abismos da ilusão. Ao passo que cravo meus pés no lamaçal dos erros e do engano, arrasto comigo vidas: almas agregadas doentes e frágeis que se dispõem a entrar abraçadas ao meu corpo na areia movediça que me traga diariamente... Sou sempre movido pelos velhos erros, e removido pela incerteza.
Há quem diga que a maldade alheia também nos torna maus. Pois eu tornei-me mau, mas por causa de mim mesmo. Daí eu pensar que rastros de atrocidades vão sendo largados pelos caminhos por onde passo, e pelas vidas que me enlaçam, como se eu mesmo fosse um ser repugnante fugindo das minhas próprias armadilhas.
Sonhos, amores, paixões, planos e projetos inacabados, que nunca começam e que jamais têm fim... Dou-me a Deus, mas nunca sei se vou ou se fico. Às vezes escolho o sono eterno, mas ainda não tive essa sorte.