PALAVRA DA TERRA

"O VERDADEIRO AMOR PERDOA SEMPRE, E RECOMEÇA, SEMPRE".




Segunda-feira, Abril 27, 2009




"PÁGINA RASGADA"
(Paulo Queiroz)

Melhor do que virar a página é rasgá-la completamente, porque viver uma meia-vida repleta de mentiras e de meias-verdades é o mesmo que acreditar que uma hora qualquer, a qualquer momento, a coluna que sustenta a ilusão se partirá... e se partiu.
Um amor de verdade -- amor ágape --, de Deus, considera uma pessoa valiosa, preciosa, e desmonta qualquer circo do amor teatralizado, intolerante, disfarçado, ensaiado.
As coisas ruins feitas jamais serão desfeitas, e ficarão cravadas no lado escuro do nosso coração: as ofensas, as agressões mútuas (e foram tantas), a violência, os medos, as suspeições, o pavor do fracasso, o desamor... Ficarão, e o máximo que se pode fazer é (tentar) esquecê-los (tarefa intangível, no meu caso). Mas, o futuro deve incondicionalmente ser guiado por Deus. As coisas boas, por sua vez, sumirão diante do cosmo perverso de mágoas que ficam.
Sobreviver é uma questão de viver. E viver sem amarguras é uma questão de apagar da mente toda a sujeira trazida pela mentira e pelas “tocaias” montadas pelo “inimigo”. Rasgar a página pode ter sido a solução (saberei em breve), mas, minha certeza inequívoca é uma só: Deus tratará essa doença miserável que me acometeu, e que dilacera, minuto a minuto, todos os dias, as minhas chances de sobrevida. Entreguei-me definitivamente ao Senhor, e Ele há de me libertar da “maldição”. Deus restituirá a minha vontade de viver, e a minha paz, porque eu rasguei a página do fracasso.




Terça-feira, Abril 07, 2009




"FLORAÇÃO"
(Fragmentos do romance amazônico "Águas Viajantes"
(em composição) - © Paulo Queiroz).


Ele a percebeu com os olhos pregados no céu (...). A face delicada estava nitidamente orvalhada pelas lágrimas que desciam em gotas de saudade antecipada... Ela parecia saber que aqueles eram momentos não mais renováveis. Sentia prazer por estar ao lado de seu caboclo amado, mas sofria pelo correr do tempo que urgia de conspiração contra eles dois.
- Por que tamanho assombramento, minha pequena? Perguntou ele.
- Hã? O que você disse, amor? Perguntou ela, distraída.
- Eu perguntei por que você está assim tão espantada olhando pro céu. O que você está vendo nele que te prende tanto assim?
- Como eu poderia não se ficar tão admirada com tamanha lindeza? O céu daqui é completamente diferente de outros lugares! É incrível! Tudo muito diferente das brenhas onde eu vivo! Justificava-se ela sem desgrudar-se da luminosidade celeste.
- Como assim, diferente? Ele é tão azul e espelhante quanto os demais, meu amor!
- Não, meu amado! Não é não! Há uma sensação mágica de que as nuvens estão prenhes em todas as suas formas. Até parecem ninfas pejadas de liquido fértil... De amor... Disse ela, chorosa e cheia de ternura, como quem quisesse ficar pro resto de seus dias aqui com ele.
- Sendo eu um caboclo, é bem difícil não se orgulhar com a sua apaixonante descrição do meu lugar. Retribui ele.
- Orgulhe-se, meu amor! Tudo aqui é muito lindo... Tudo aqui inspira eternidade, longevidade, prazer... Tudo aqui é muito parecido com você. Finalizou ela, apaixonada.
Assim narrava aquela mulher a seu namorado caboclo. Ela que veio do frio, donde o carenciamento de agasalho é indispensável para a vida, como um feixe de varas secas para alimentar o fogo que assa o jaraqui...
Ela sentia que tudo nessa terra de fogo incessante era diferente das paragens donde ela vivia. A menina encantadora e alva como a açucena espiã, fez-se sonhar futuros mais elevados naqueles momentos... Amigara-se com a selva de corpo e alma, fazendo daquele selvagem a razão de ser de sua vida. Foi tão profundamente apaixonante aquele apego do caboclo pardo e da alva menina, que o olhar capiongo da moça sorvia os acordes do vento desse norte aprazível...
Eram assobios zéfiros ao pé-do-ouvido, daqueles ventos que engoliam o resto da tarde que envolvia os dois, ao Deus-dará do amor (...). Os piscares de olhos pidões, e os suspiros interrogativos que os instigavam ao gozo punham-nos, de repente, numa relva convidativa para o reclinamento e para o pleno amor.
Ele, então, carinhosamente começou a alisar a pele delgada daquele rosto lindo de alteza, depois deitou-se sobre seu corpo macio e entorpecente, molhado de prazer e que era projetado por uma forma lavrada de corpo ainda em floração...
Mas ali, naquele ato, o corpo fascinante dela era despetalado em seu desabrochar pelas mãos inábeis de amor daquele matreiro apaixonado. Beijou-a profundamente, o caboclo, como se agradecesse a Deus por ter encontrado a fortuna (...). E do ventre satisfazente daquela mulher, em pleno apogeu da paixão, fluía a fragrância do amor puro, como o que se desprendia das árvores observadoras dali de perto...
Era o Silêncio da boca da noite, nessa terra de lonjura (...). Terra e mato, homem e mulher, testemunhavam o envolvimento do índio com aquele tesouro adormecido há muito, sua amada... Era um novo começo de mundo (...). Às vezes, pelo faro aloprado do índio, assim como o das feras, sentia-se esturro de onça, gemido de bicho faminto, e outros barulhos de selva por perto, mas caboclo que é caboclo sempre anda preparado, além de que a própria terra-mãe protege muito bem os amantes que se valem do seu manto para amar...
Até as cobrinhas peçonhentas com seu "arreto" infernal, e que o caboclo sempre varreu no terçado e no cacete, não se abestalharam à intromissão naquela oferenda de orgia sagrada amazônica... Eram somente o caboclo e sua sertaneja amada (...).
E quando ela se foi, aquele caboclo sabia que seria para sempre... Apenas uma única estrela, solitária como ele, velava a imensa tristeza do índio; e no infinito brilhava apenas a paz da natureza, mas a própria paz daquele homem não mais havia.
Seu amor partira para nunca mais voltar. Restara tão-somente um pôr-do-sol diferente... Queixoso... Um tempo mesclado ao arco-íris descolorado que prenunciava trovoadas, como o que fantasiava, naquele momento, o emurchecer agônico daquela tarde de despedida.
E para incrementar ainda mais a sua dor de amor, houve a perturbação do seu silêncio (...). Era o cântico estridente da acauã agourenta que golpeava-lhe o íntimo com a marca do desespero e da solidão (...). A saudade poluía o seu interior, mas nem firmava um pouco de esperança de um dia ele rever a sua amada. Ficou, o caboclo, pelo assobio da despedida, no insulamento da selva escura da saudade que engolia seus pensamentos felizes de horas anteriores (...).
Nunca mais ele reviu o seu amor, porém, entrega, todos os dias, sem restrições, seus pensamentos às lembranças dela... Todos os dias de sua vida, pensando em sua pequena.